Quando um sofá é mais do que um sofá

Nas semanas que se seguiram à notícia de que o cancro da mama pelo qual andava em tratamento há um ano se tinha espalhado para os ossos - fraturando-me a coluna, tornando-se incurável e provavelmente fatal -, encontrar o sofá perfeito para a sala começou parecer a coisa mais importante que alguma vez fiz

Se eu estivesse com saúde para tal estaria a beber um copo de vinho oferecido e a passar a mão por almofadas de sofás requintados numa loja tremendamente sofisticada cujo nome seria qualquer coisa como Space ou Lust, enquanto um vendedor me explicaria as virtudes da pele tratada com anilina pura em relação às tratadas com um composto de anilina.

"Acha mesmo que a estrutura de madeira seca em forno vale a diferença de preço?", perguntaria eu. E, "Há igual a este mas de três lugares?"

Em vez disso, estou na cama com o meu computador, recostada numa dúzia de almofadas, a pesquisar lojas de móveis online: West Elm, Joybird, Crate & Barrel e uma coisa chamada Chairish.

Sou uma viciada em compras de sofás na internet. Só faço pausas quando me falta o oxigénio e a cabeça começa a tombar. Não consigo descansar até ter considerado todos os sofás de linhas modernistas/modernos/ com um toque boémio que a internet tem para oferecer. Debruço-me sobre sites de design como Apartment Therapy, Design Sponge e Domino, pesquisando sem parar.

Desde que John e eu nos casámos há 16 anos, nunca tivemos um verdadeiro sofá de adultos. Tivemos vários desirmanados e bem-amados com variadas origens: oportunidades da IKEA, casa dos pais, anúncios classificados, salvamentos de beira de estrada. Primeiro não tínhamos dinheiro e depois tivemos filhos. Nunca parecia ser o momento certo para avançar para qualquer coisa melhor.

E os desirmanados têm-nos bastado muito bem. Não somos sofisticados e o nosso gosto é eclético. A nossa casa está cheia de objetos que são mais fortes na personalidade do que na aparência: a caixa de madeira onde o meu pai e os meus tios se sentavam em crianças para atar as botas para andar de trenó, uma poltrona com a almofada cheia de altos, perto da janela da frente no mais aconchegante recanto de leitura do mundo.

De qualquer forma, quando precisávamos de falar sobre as coisas sérias da vida, sempre preferimos retirar-nos para a nossa cama que é a nossa sala de crise, casulo, válvula de escape e, às vezes, sala de jantar.

Mas nas semanas que se seguiram à notícia de que o cancro da mama pelo qual andava em tratamento há um ano se tinha espalhado para os ossos - fraturando-me a coluna, tornando-se incurável e provavelmente fatal -, encontrar o sofá perfeito para a sala começou parecer a coisa mais importante que alguma vez fiz.

Só que, justamente quando encontro um de que gosto, acontece que não consigo clicar em "comprar agora". E dificuldades em assumir compromissos não têm sido geralmente o meu problema. Casas, carros, mudanças de emprego, ter filhos, comprar bilhetes de avião, escolher restaurantes, comprar sapatos, mastectomia, é na hora. Normalmente limito-me a escolher o que me parece ser uma boa opção e não olho para trás.

Dez minutos depois de ter conhecido o John num emprego de verão aos 21 anos, eu já tinha decidido mentalmente que era para toda a vida - embora tenha esperado pelo menos uma semana para lhe dizer isso.

Mas o sofá não consigo. Talvez eu esteja a adiar até depois da minha próxima consulta de oncologia, como se alguma coisa que o meu médico possa dizer vá ajudar a decidir se estou disposta a gastar o dinheiro extra em almofadas rebatíveis. Ela prometeu algumas novas considerações sobre as opções de tratamento: imunoterapia, ensaios clínicos, medicamentos diferentes, acupuntura e a temida "espera vigilante".

É uma decisão complicada. Por um lado, uma análise básica de custo-benefício: quanto dinheiro quero eu gastar numa coisa que posso não estar cá para gozar? Por outro: será que comprar um sofá caro não é uma espécie de bonita manifestação de esperança? E depois de eu partir, não vou querer que os convidados se sintam confortáveis e elegantes em minha casa?

Nada disto deveria acontecer. Aos 38 anos, eu não deveria estar deitada nas urgências de um hospital numa manhã de dezembro e ser informada por um interno de radioterapia oncológica choroso de que a dor que eu tinha vindo a sentir nos últimos dois meses - que me tinham assegurado ser devida a uma fraqueza muscular depois de meses de quimioterapia - era, na verdade, devida a um tumor que tinha devorado a minha vértebra L2.

Não era suposto o John ter de me segurar na casa de banho. Vestir-me as calças. Preparar a véspera de Natal para as crianças sem mim. Eu não deveria estar a pensar sobre o sítio onde ele se vai sentar e segurar a minha mão enquanto eu exalo o meu último suspiro.

Apesar de todos os panfletos que os assistentes sociais nos deram quando eu estava no hospital, nós ainda não sabemos realmente como vamos falar com os nossos filhos. Eles têm 6 e 9 anos. Sabem que eu tenho um cancro e as costas partidas, mas não sabem realmente o que isso significa.

Em vez de explicar, pergunto ao de 6 anos: "O que achas de um sofá forrado a pele?"

"Depende se é escorregadio ou aconchegante", diz ele.

Excelente observação. Acho que tenho de pôr de lado as opções de napa, por muito bonitas ou económicas que pareçam, e avançar para a pele genuína.

No dia seguinte à cirurgia de emergência, quando a minha médica estava sentada aos pés da minha cama na ala de oncologia, vi-a olhar para os panfletos que tinham sido deixados na mesa-de-cabeceira: "O que dizer aos seus filhos sobre a sua doença progressiva".

Ela também é mãe. Os seus filhos são pouco mais velhos do que os meus.

"Chegou a hora do desespero?", disse ela durante uma pausa na nossa conversa sobre gestão da dor e radioterapia, talvez lendo um dos títulos dos panfletos. "Não!", exclamou, olhando diretamente para mim. "Não, não é."

Confio totalmente nela, mesmo depois de a quimioterapia ter falhado duas vezes e o cancro se ter disseminado quando ela disse que isso não iria acontecer. Seja o que for que há nos oncologistas que os faz querer ser oncologistas, essa mistura louca de força, otimismo, arrogância e compaixão, transmite-me alguma euforia. É como o amor à primeira vista ou tocar em alguma coisa a arder. É como fazer uma escolha e recusar-me a olhar para trás.

John está levemente contra o sofá novo, mas está a avançar com cuidado. Ele conhece-me suficientemente bem para entender que quando estou a dissertar sobre os méritos das almofadas acolchoadas estou a pensar noutra coisa.

"Estofos personalizados, realmente? Com dois rapazes?", pergunta ele, preenchendo as declarações para o seguro na bancada da cozinha. "OK, tudo bem, eu acho que deves comprar o que quiseres."

Uma grande vantagem de ter tido um diagnóstico de cancro incurável é que, depois de todos estes anos, o meu marido deixou finalmente de dizer com um ar presunçoso: "O funeral é teu", quando eu tomo uma decisão com a qual ele não concorda.

"Gastaste milhares de dólares na internet hoje?", pergunta quando chega a casa vindo do trabalho e me encontra com as minhas almofadas e sacos de água quente no sofá menos que perfeito onde me deixou de manhã. Um sofá baixo de verga que os meus pais compraram para o jardim no início dos anos 1990.

"Hoje não", respondo.

"Boa", diz ele. "Queres ir para a cama comigo e ficarmos os dois a olhar para o teto?"

Quero. Queremos.

Em janeiro, a tarde já parece noite.

"Acreditas que descobrimos que tens um cancro incurável, literalmente no dia mais escuro do ano?", pergunta John enquanto damos as mãos e olhamos para o mesmo ponto por cima da nossa cama.

"Sim, acredito", respondo. Rimo-nos os dois.

Sempre adorei o riso dele: suave e confortável, discreto, pouco frequente, com linhas modernistas inegavelmente elegantes.

Ele leva-me cuidadosamente nos braços como se fôssemos adolescentes desajeitados. Tenho espasmos nas costas, mas chego-me mais para ele até conseguir pousar a cabeça no peito dele e ouvir o seu coração a bater.

No andar de baixo, os rapazes estão de olhos fixos num ecrã, sentados no velho futon na sala de jogos. Vamos descobrir o que fazer com eles em breve. Eles provavelmente já sabem o que está a acontecer e estão à espera de que nós descubramos como lhes dizer. Apesar de não ser muito fã do Natal, odeio não ser capaz de os ver abrir os presentes e não consigo suportar a ideia de não o voltar a fazer.

A própria existência deles é a única peça negra com que eu não consigo lidar no meio de tudo isto. Consigo largar uma série de coisas: planos, amigos, objetivos de carreira, lugares no mundo que quero conhecer, talvez até mesmo o amor da minha vida. Mas não consigo descobrir como deixar de ser mãe deles.

Então, talvez não vá tentar descobrir isso. Talvez me concentre apenas em comprar o sofá certo: estrutura forte, couro de alta qualidade, algo de terreno, animal e real. Uma superfície que sabe alguma coisa sobre o que era estar viva, que aquece ao nosso toque e arrefece na nossa ausência.

E também um assento expansivo que nos encaixe a todos. Algo que nos vá amparar durante tudo o que temos pela frente: o amor, o colapso, o aconchego. A morte, o luto.

Eu sei que os meus pensamentos provavelmente divergiram do que quer que seja que John está a pensar na penumbra do nosso quarto. Ele está em silêncio. Talvez esteja a dormitar.

Comprar um sofá online, como muitas das maiores decisões da vida, exige pesquisa e confiança, mas principalmente confiança. Enquanto estou aqui deitada, com o peito de John a subir e a descer sob a minha face, percebo que os meus pensamentos meticulosos (Quanto tempo me resta? Para quem estou realmente a comprar este sofá? Estarei a fazer um bom negócio?) são irrelevantes.

Como em todas as coisas na minha vida, tenho de acreditar que vou saber qual é o certo quando o vir.

Nina Riggs é escritora e vive em Greensboro, na Carolina do Norte.

Exclusivo DN/The New York Times

Exclusivos

Premium

Gastronomia

Quem vai ganhar em Portugal as próximas estrelas Michelin

É já no próximo dia 20, em Sevilha, que vamos conhecer a composição ibérica das estrelas Michelin para 2020. Estamos em festa, claro, e festejaremos depois com os nossos bravos, mesmo sabendo que serão poucos para o grande nível a que já chegámos. Fernando Melo* escreve sobre os restaurantes que podem ganhar estrelas Michelin em 2020 em Portugal.