Quando o Halloween chegou aos EUA, já se pedia pão por Deus em Portugal

Vampiros, lobisomens, bruxas e zombies saem à rua nesta noite para comemorar o Halloween. Vale tudo

Quanto mais assustador e sobrenatural, melhor. Por todo o país, as crianças organizam-se em grupos e vão de porta em porta pedir doces e fazer travessuras. Uma prática que tem cada vez mais adeptos. Mas, afinal, quando é que os portugueses importaram o Dia das Bruxas? E o pedido de pão por Deus, ainda sobrevive?

"Este é um costume muito recente em Portugal. Data dos anos 1980. Não terá mais do que 20 ou 30 anos", diz ao DN o sociólogo Moisés Espírito Santo, acrescentando que os portugueses "aceitaram facilmente o Dia das Bruxas". Embora tenha sido popularizada pelos Estados Unidos, esta é uma tradição com origem celta. "Os americanos é que adotaram esta tradição da Europa." Recuemos no tempo.

Dizem os historiadores que o Halloween terá tido origem numa celebração celta, o Stamhain, que significava o "fim do verão". Uma festa que começava no dia 31 de outubro e durava três dias. O povo acreditava que, nessa noite, havia uma maior proximidade entre os mortos e os vivos: os espíritos voltavam para as suas casas para pedir comida. Para os receber, os familiares deixavam comida e bebida à porta de casa. Faziam fogueiras, usavam máscaras na rua.

No século VIII, a Igreja Católica instituiu o Dia de Todos os Santos a 1 de novembro, o que acabou por misturar a tradição católica e a pagã. Já em 1845, a tradição viajou da Irlanda para a América do Norte, com as pessoas que foram forçadas a imigrar na sequência da Grande Fome. E foi aí que surgiu a tradição moderna de trick or treat? (doçura ou travessura, em português), que viria a ser exportada nos anos seguintes para vários países, entre os quais o nosso.

Antes de o Halloween ser importado pelos portugueses, diz o sociólogo Moisés Espírito Santo, já existia há vários séculos o pedido de pão por Deus em Portugal. "E ainda existe em alguns sítios do Norte e do Centro do país", assegura. Nas zonas rurais, grupos de crianças saem à rua no dia 1 de novembro, "muito bem vestidinhas", e vão "de porta em porta pedir bolos, dinheiro". Um costume que está relacionado com a tradição popular portuguesa de dar bolos secos às pessoas que tinham ajudado nas colheitas. "De certa forma, só importámos a palavra Halloween, porque já existia um costume semelhante em Portugal e em Espanha". Mas sem travessuras, uma vez que as crianças não ripostam se nada lhes for oferecido. Para manter viva a tradição, há escolas do ensino básico que convidam os alunos a ir pedir pão por Deus.

Doçura ou travessura?

Hoje à noite, Filipa, de 8 anos, reúne-se com alguns vizinhos para ir de porta em porta brincar às bruxas. "Tocamos às campainhas e gritamos: doçura ou travessura? Se as pessoas não derem nada, atiramos farinha ou ovos", conta ao DN. A mãe, Raquel Bizarro, de 37 anos, recorda que no seu tempo "não havia esta tradição". "É um costume recente. Os miúdos têm inglês cada vez mais cedo e começam a ouvir falar do Halloween desde muito novos", indica. Antes de ir pregar sustos pelas ruas, Filipa vai participar num concurso de lanternas feitas com abóboras esculpidas no Jardim Henriqueta Maia, em Ílhavo, onde vive. Uma tradição que também tem origem celta e que está associada à lenda irlandesa Stingy Jack.

Em Portugal, há cada vez mais pessoas a celebrar o Halloween. E não são só as crianças e jovens. As escolas promovem concursos e desfiles, os bares e discotecas organizam eventos. Fonte do grupo Mascarilha contou ao DN que os artigos mais vendidos são "as teias de aranha, abóboras, sangue falso, látex líquido para fabricar feridas e, neste ano, as máscaras de palhaço assassino." Quanto aos fatos, os mais procurados "continuam a ser os vampiros e vampiras, lobisomens, bruxas e zombies", mas também há "um acréscimo na procura de fatos fora do comum, como personagens fictícias transformadas em zombies".

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