Quando o calor não é boa notícia: a vida nos mares está em risco

Novo estudo alerta para a falta de oxigénio no mar, a anoxia. Conclusões mostram que em pouco mais de 20 anos, muitas das espécies marinhas vão ter dificuldades em respirar.

Os próximos dias prometem fazer as delícias de quem gosta de sol, com temperaturas que em boa parte do país vão chegar bem perto dos 30º, principalmente no Centro e no Sul. Mas nem sempre o calor é sinónimo de boas notícias, ainda mais em época de aquecimento global, que deixa em risco a vida nos mares. Sardinhas, carapaus, chocos ou estrelas-do-mar são apenas algumas das espécies de peixes ameaçadas pelo fenómeno da redução de oxigénio nos oceanos, que lá para 2030 ou 2040 poderá deixar a vida marinha em sérias dificuldades para respirar.

Chama-se anoxia e já se fará notar em algumas zonas dos oceanos, segundo um novo estudo conduzido pelo Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica (CNPA), dos EUA, o que não surpreende o especialista em aquecimento global Filipe Duarte Santos. "É das coisas mais assustadoras a que assistimos, juntamente com a subida do nível do mar. E vai agravar-se se não controlarmos as emissões de gases com efeito estufa para a atmosfera", alerta.

O estudo que foi agora apresentado pelo cientista Matthew Longo, o seu principal autor, associa os sinais da falta de oxigénio nos oceanos às alterações climáticas, ressalvando que tem sido difícil determinar se esta fuga antecipada de oxigénio já estará a ter um forte impacto na vida marinha.

Porém, com recurso ao computador, os cientistas realizaram uma simulação climática com pequenas variações de temperatura do ar entre 1920 e 2100, comprovando a redução do oxigénio através das alterações climáticas, admitindo que o fenómeno se agrave. Até porque a equipa de investigação descobriu que a falta de oxigenação já pode ser detetada no sul do oceano Índico e em partes do leste das bacias do Pacífico e do Atlântico. Foi ainda concluído que a deteção mais generalizada da anoxia poderá ocorrer entre 2030 e 2040. No entanto, há zonas ao largo das costas do Leste de África, Austrália e Sudeste Asiático, em que a falta de oxigénio não era evidente, pelo menos até 2100.

Contudo, admite que quanto maior for o aquecimento mais reduzida será a presença de oxigénio. "A perda de oxigénio no oceano é um dos sérios efeitos colaterais de um aquecimento da atmosfera e uma grave ameaça para a vida marinha", sublinha Matthew Longo, explicando que as concentrações de oxigénio nos oceanos variam consoante as "variações de ventos e temperatura na superfície".

Filipe Duarte Santos, investigador da Universidade de Lisboa que participou no painel das Nações Unidas sobre alterações climáticas, explica que as temperaturas do mar estão a aquecer à superfície, mas também nas camadas mais profundas. "Quando a água tem uma temperatura mais elevada tem tendência a ter menos oxigénio dissolvido. O que acontece é que esse gás está permanentemente a ser libertado no oceano, mas se a temperatura aumenta o oceano tem menos capacidade de conter oxigénio dissolvido na água, que é fundamental para a respiração dos organismos marinhos", explica o especialista, alertando que a anoxia também ganha espaço com a poluição junto à costa.

A título de exemplo, aponta os fertilizantes provenientes da agricultura. "Quando se regista uma maior concentração de nutrientes nas águas costeiras, isso faz proliferar algas que consomem também o oxigénio e agrava o problema", diz, registando que já existem na costa portuguesa casos de peixes que migraram para o Norte da Europa à procura de águas mais frias, mas também estão a ser avistadas espécies que nunca por cá tinham dado sinal de vida. "É preciso perceber que no oceano os peixes vão tentar adaptar-se e escolher outros sítios, mas numa lagoa com muitos nutrientes acabam por morrer porque não têm fuga", justifica.

Mas o estudo do CNPA lança, contudo, uma possibilidade de a situação poder ser invertida às mãos da própria natureza, admitindo que um "inverno excecionalmente frio" no Pacífico Norte permitiria que a superfície do oceano pudesse absorver uma grande quantidade de oxigénio, permitindo a sua circulação até às camadas mais profundas.

Filipe Duarte Santos alerta que "é muito difícil arrefecer o oceano, como também é difícil aquecê-lo", preferindo defender o combate mundial às emissões de gases com efeito estufa para a atmosfera. "Se não diminuirmos a concentração de dióxido de carbono na atmosfera o aquecimento vai avançar sem tréguas", sustenta, apelando à menor utilização dos combustíveis fósseis e à redução drástica da desflorestação à escala global.

"Se a temperatura da atmosfera aumenta, as camadas dos oceanos também ficam mais quentes. É um problema que vamos ter durante centenas de anos", sublinha, juntando ao fenómeno do aquecimento uma outra preocupação relacionada com a acidez do oceano. "O dióxido de carbono a mais na atmosfera dissolve-se no oceano, mas quando se combina com a água faz o ácido", relata, alertando para as implicações que a acidez representa na vida marinha, sobretudo para os organismos que vivem em conchas.

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