Profissão: Homem-aranha

Montar e reparar linhas de alta tensão. Reabilitar e limpar prédios. Fiscalizar e arranjar pontes. O equipamento, a formação e as regras de segurança reduzem a zero os riscos destes trabalhos, garantem os profissionais que os fazem. Habituados a trabalhar nas alturas, a trepar pelo betão, ferro e cordas

"Vamos à Torre 4 [norte], à casa das máquinas, lá dentro assemelha-se a um submarino, muito compartimentado", explica Pedro Abegão, responsável pela gestão da Ponte 25 de Abril. E dá um conselho: "Durante a visita, não criar excesso de confiança, subir e descer com cuidado, não há pressas. Se não se sentirem confortáveis, é preferível parar." E lá vamos, subir até 200 metros de altura, primeiro de elevador e depois de escadas, por um cubículo. A dez metros do topo, a subida é a céu aberto. Sustém-se a respiração quando se olha para baixo, também quando se olha em frente. São deslumbrantes as vistas de ambas as margens do rio Tejo.

Ir tão alto na Ponte 25 de Abril é mesmo só para inspecionar as lâmpadas (duas vezes por mês) que se estendem pelos cabos da ponte, que faz 50 anos em 2016. No topo, é preciso verificar a cúpula vermelha, de sinalização de obstáculos aéreos, composta de duas lâmpadas, cada uma com 700 watts e compradas nos EUA por 350 euros cada. E não há medos?

"Normalmente não se pensa nisso, o fundamental é estar atento. E vamos sempre dois. Este não é um trabalho qualquer, há riscos", explica Pedro Galriça, 44 anos, engenheiro civil, técnico superior de apoio à gestão da ponte. Respondeu há três anos a um desafio de Pedro Abegão, o chefe, 43 anos, engenheiro civil, para deixar a direção de projetos onde estava e entrar para a gestão da ponte. "Sempre me interessei pelas obras de arte e gostava de experimentar a parte mais operacional." Obras de arte na construção civil, explique-se, são as pontes, os viadutos e os túneis.

A família é que, de início, ficou assustada com a mudança. "Mas, como todos os dias, chegava a casa, perceberam que as coisas são muito controladas", brinca Galriça.

Está acompanhado por Júlio Vaz, 57 anos, técnico de apoio à gestão, que entrou para a "casa" há 23, sempre ligado às obras de arte, sempre lá no alto: trabalhos de manutenção, fiscalização e inspeção. "Estou habituado, acompanhei vários projetos em todo o país. Não penso nos riscos." O que significa que tem vivido em várias cidades e, agora, regressar ao distrito de Lisboa, mesmo que seja para trabalhar a 200 metros de altura, foi uma boa notícia para a família.

"O medo é assim", sintetiza Pedro Abegão, "sempre que vamos à ponte é como se fosse a primeira vez. Trata-se a ponte com respeito". Sempre aos pares, para que um esteja fixo enquanto o outro sobe ou desce a escada de ferro; para que um fique do lado de fora do elevador enquanto outro ascende ou descende. O elevador tem 53 níveis, num percurso de 160 metros acima do nível da água, o resto faz-se por escada. E há sempre alertas: "Situação de risco neste edifício", "Perigo", "Perigo de tropeçar", "Perigo de corte", "Perigo de morte. Eletricidade", "Proibido fumar."

Qualquer deslocação é comunicada a quem segue as movimentações na ponte por videovigilância. E com a resposta às perguntas: para onde vão? Fazer o quê? Quanto tempo demoram?

O acesso às torres é restrito, mas já se fazem visitas guiadas aos tabuleiros (ferroviário e rodoviário), sobretudo para funcionários, mas também para estudantes e população, estas integradas no projeto Open House Lisboa.

Pedro Galriça e Júlio Vaz fazem um pouco de tudo: projetos, inspeção, acompanhamento de obra, prestação de serviços. Também dão formação a quem trabalha nas alturas e estão habilitados a andar no cabo com o apoio de um arnês.

A ponte, rebatizada em 1974 de 25 de Abril, passou por muitas modificações desde a inauguração: a 6 de agosto de 1966. Alterou-se a propriedade e organização, também na utilização, para dar lugar à passagem do comboio, o que foi previsto desde o início e só se concretizou em 1999. No ranking das pontes rodoferroviárias relativamente ao maior vão suspenso, a Ponte 25 de Abril ocupa a 1.ª posição na Europa e a 3.ª no mundo.

Não mudou a necessidade da mão do homem na manutenção da estrutura, ainda que muitos dos trabalhos sejam feitos por empresas externas à Infraestruturas de Portugal, que resulta da fusão entre a Estradas de Portugal e a Refer e à qual compete a manutenção desta obra de arte da engenharia civil. A equipa de gestão da ponte é pequena, cinco pessoas, e o recrutamento é feito internamente.

Formação e equipamento certos

Colete refletor, botas de biqueira de aço ou de carbono, luvas e capacete, é o equipamento obrigatório para quem trabalha nas pontes, idêntico a muitos outros trabalhos em altura. Mas com adaptações a cada função, por exemplo, o uso de auriculares na Ponte 25 de Abril.

A formação também não difere muito, dependendo do tipo de trabalho, além de deverem assegurar os procedimentos de higiene e de segurança no trabalho, como em qualquer outra profissão.

Outra das exigências é para com a saúde e o físico: exames específicos da atividade além dos exigidos na medicina do trabalho. E boa condição física, o que, dizem-nos estes profissionais, é assegurado pelo próprio trabalho. Estão habituados a estar a dezenas de metros de altura, às vezes centenas, daí a designação de trabalhos verticais. E a alcunha de homens-aranha.

O arnês é o amigo fantástico que os ajuda a combater inimigos tão poderosos como a chuva, o frio, o calor e o vento. O excesso de confiança também é prejudicial. Estes trabalhadores garantem que, com o equipamento certo e cumprindo as regras, é um trabalho seguro. E ganham mais do que a média, além de que não há desemprego.

Milton Fernandes, 35 anos, há oito que faz trabalhos verticais. "Nunca estive parado, basta ser um bom profissional." Foi um amigo que o levou para a atividade e não se arrepende. "Trabalho pendurado, as vistas são bonitas, estou sempre ao ar livre e ganha-se mais."

Designa-se a sua categoria por "técnico de acesso por cordas", uma profissão ainda nova em Portugal e que se está a tentar autorregulamentar (ver texto ao lado), explicam Luís Neto e Elisa Paolinetti, sócios da LCL Vertical, cofundadores da Associação Nacional de Empresas e Técnicos de Trabalho em Altura (ANETTA).

A LCL Vertical trabalha na área da reabilitação urbana, também fazem limpeza de fachadas, e está a substituir o isolamento num prédio de 18 andares nas Laranjeiras, em Lisboa, o que poderá custar entre quatro mil e seis mil euros. Desta vez, em parceria com a Alpiservice, o empregador de Milton e de Jerry Braga, 47 anos, os dois homens que utilizam a técnica do rapel para marinhar pelas paredes. Sempre apoiados por um terceiro operário, neste caso José Carlos, da LCL, 40 anos, há cinco na função. Usam duas cordas, não vá uma falhar, mas isso nunca aconteceu, garantem os empresários. "São os melhores técnicos e o Jerry dá cartas", sublinha Leandro Sieves, um dos sócios para atestar que idade não diz nada.

Jerry anda sempre com o rádio ligado na M80: "O trabalho tem de ser divertido." E explica como ali chegou: "Estou nas obras há 15 anos, em todos os segmentos, e os trabalhos verticais são o que mais gosto de fazer. Já trabalhava no rapel antes de entrar para a empresa, há seis anos. Gosto de aventura, de atividades com adrenalina, de trabalhar ao ar livre. Não há idade para se gostar destas coisas."

Milton e Jerry, os alpinistas da construção civil, negam que seja um trabalho de risco, justificam que são formados para isso. O que não significa que não tenham medo, diz Jerry. "Tem de se ter medo, o excesso de confiança pode deixar a pessoa muito leve, o medo é o termómetro da segurança." Promete que andará lá em cima por muitos mais anos. Medo, ou não ter excesso de confiança, é também a perspetiva de quem trabalha na montagem de linhas de alta tensão.

Entre manadas e rebanhos

Uma equipa de seis pessoas da Construção e Manutenção Eletromecânica está no Alentejo, para a construção do troço Estremoz-Divor (Évora), 400 kV de uma nova linha da Rede Nacional de Transporte de Energia Elétrica. Estão no meio do campo, entre sobreiros e porcos pretos. Animais simpáticos, mas que precisam de vigilância para não roerem cordas e outros objetos. Faz frio e as opiniões dividem-se entre o que é pior: temperaturas abaixo de zero graus ou acima dos 40. Os acessos para montar os apoios das linhas são a terceira desvantagem. "Este é um trabalho altamente especializado. Não há muita gente com capacidade para o fazer e, como não há muita oferta no mercado, acabam por ter um salário muito acima da média", explica. José Craveiro, técnico superior e responsável pela obra. Ganham cerca de mil euros mensais.

Os homens estão deslocados e vão a casa de duas em duas semanas. Fazem as fundações para construir as bases em cimento das torres elétricas (apoios ou postes), na ordem dos 40 metros de altura, mas varia. Montam a estrutura metálica para, depois, passar os cabos para uma segunda torre através de uma corda e, assim, sucessivamente. Usam-se uma espécie de bicicletas para colocar acessórios ou reparar os cabos. Mas a maioria das vistorias às condições das linhas é feita por helicópteros e pensa-se na utilização de drones. "É um trabalho completamente mecânico e humano", especifica Ana Dias, engenheira, responsável pela Segurança e Higiene no Trabalho. Fazem exames médicos de dois em dois anos para ver se estão aptos para trabalhar em altura. E, depois, há a formação, teórica e prática.

Hoje, os "montadores", como se chama a estes profissionais, são Daniel Henriques, 27 anos, e Belmiro Santos, 48. O primeiro é de Tomar e a nova atividade, desde agosto de 2013, foi uma forma de fugir ao desemprego na sua terra. Já Belmiro, que é eletricista há 23 anos e montador há 15, alcançou um sonho de criança. "Sempre gostei das alturas. O meu pai era fiscal da EDP, eu ia com ele e comecei a gostar disto. Subia aos postes com 13/14 anos e ele ralhava comigo." A profissão leva-o a todo o país, mas a zona da Régua é a preferida. "É mais alto."

Daniel Henriques diz que é um trabalho que exige muita formação e que se aprende a gostar. "É uma vida diferente. Estamos sempre nas alturas, no meio da natureza, dá adrenalina." O que gosta mais é de andar de bicicleta nas linhas, obviamente sempre preso pelo arnês.

Dizem que a preparação física é obtida pelo próprio trabalho, descer e subir postes de eletricidade, mas também por montes e vales.

Exclusivos