Primeiro brinde a 2017 sem pais... mas com muitos avisos

É inevitável. Chega um dia em que os filhos pedem para passar a passagem de ano fora de casa com os amigos.

Chegam animados ao local onde daí a três dias estarão a festejar a chegada do ano novo. Patrick, Joana e Marta vão dar as boas-vindas a 2017 longe dos olhares dos pais, pela primeira vez. Ao grupo, que promete ser responsável, há de ainda juntar-se outra amiga (Duda). Dos três, Patrick é o mais entusiasmado - pelo menos é o que demonstra mais - tem no sangue e na memória ainda as festas que viveu no Brasil, a sua terra natal.

Mas se por lá a tradição mandava que no Natal e Ano Novo, todo o bairro era uma gigantesca casa comum e ninguém estava apenas com a sua família, desde que se mudou para Lisboa (já lá vão quase cinco anos), passou estas datas sempre em casa com os pais. "Nunca tive essa vontade de passar sem os meus pais porque lá no Brasil havia sempre muita gente e não estávamos só com os nossos pais", diz o jovem de 17 anos.

Joana, de 16 anos, confessa que já no ano passado tentou lançar a ideia aos pais de que queria estar com os amigos na noite de passagem de ano. Sem grande sucesso. Mas ficou logo a garantia da amiga Marta - "para o ano é que é!". E foi, ou melhor, vai ser. Esta noite vão estar a saltitar pelas festas gratuitas que a cidade vai oferecer. Terreiro do Paço e Praça Luís de Camões vão ser as paragens deste grupo, que não quer perder o primeiro fogo-de-artifício do ano.

Dos pais para já só chegaram os conselhos habituais. "Vê lá não bebas", "tem cuidado não te metas em confusões" ou "cuidado com as drogas". Mas os três amigos sabem que antes de saírem de casa ainda vão ser bombardeados com as recomendações de última hora.

Enquanto Marta, de 16 anos, estiver com os amigos a brindar a 2017 no Terreiro do Paço, no rio Tejo, estarão os pais a vigiá-la. "Temos um veleirinho e costumamos passar ao largo do rio a ver o fogo. Estaremos à distância enquanto ela está na praça", conta Ana Paula Ferreira, mãe de Marta. A bordo vai estar também o irmão mais novo de 7 anos.

Segundo Ana Paula, a filha não pediu para ir com os amigos. "Nós é que a deixámos à vontade para ir com os amigos se quisesse." E Marta quis. Os pais confiam - "nunca deu problemas, é uma menina em quem podemos confiar" - e acreditam que está na hora de a deixar estar mais tempo com os amigos e partilhar com eles algumas datas importantes.

Apesar dos receios, os pais também sabem que esta é uma fase da vida em que os amigos são fundamentais e por isso mais tarde ou mais cedo acabam por deixar os passarinhos voar do ninho.

No caso da família Mourão vão ser logo dois filhos a abandonar a tradição familiar do Réveillon. Rodrigo, de 17 anos, e Duarte, de 15. "O mais velho pediu e o do meio aproveitou a boleia do irmão", descreve o pai, Gonçalo Mourão. A mãe, Sofia, acrescenta: "Começou há algum tempo. Já tinham atirado para o ar que tinham um grupinho de amigos. Mas só ontem [na terça-feira] é que ficou decidido." Rodrigo vai para Cascais para casa de um amigo. Duarte vai ficar por Lisboa e sair até ao Terreiro do Paço. Os pais vão para fora e a irmã gémea de Duarte vai com eles. A Constança não gosta muito de sair, "prefere trazer as amigas cá a casa", conta a mãe. Como os pais vão para casa dos pais de uma amiga dela, a jovem preferiu acompanhá-los. Com eles vai ainda o Pedro, de 10 anos. "Oh, esse ainda há de ter 18 anos e andar atrás do pai e da mãe", brinca Sofia.

Alexandre Cordeiro começou por "comunicar" aos pais que gostava de passar a noite de 31 com os amigos. Como este ano os pais vão estar a trabalhar nessa noite e as irmãs mais novas vão estar em casa dos avós nas Caldas da Rainha, o jovem aproveitou para lançar o pedido aos pais. "Disse-nos que gostava de passar com os amigos e com a namorada." É aliás em casa dela que vai jantar - "uma espécie de jantar romântico", descreve - e dormir, depois de a festa terminar.

Regras e horas para voltar

Apenas Joana tem uma hora para recolher: "as duas da manhã". Marta sabe que tem de ir ter com os pais quando a festa acabar e que não deve ser muito tarde e Duarte ainda não tem hora definida, mas vai ter com chamada obrigatória para os pais, assim que estiver em casa. "Ele tem sempre hora de chegada quando sai. E tem de respeitar, mas ainda não definimos para a passagem de ano. Mas ele passa o ano e depois vem para casa", refere a mãe. Como não vão estar em casa, os pais Mourão contam com a sinceridade do filho do meio. "Quando chegar a casa ele liga. Os meus pais moram ao lado e se for preciso alguma coisa estão ali."

Patrick também não vai ter os pais em casa e não tem hora de regresso definida. "Às vezes, quando saio à noite já fico a ver o nascer do Sol e depois é que vou para casa", conta. Mais liberdade têm também Alexandre e Rodrigo. O primeiro porque vai dormir a casa da namorada e o segundo porque a festa vai ser em casa de amigos.

"O plano é simples, não vou para Lisboa ou para Palmela. Vamos ficar pelo Montijo, pela ribeirinha. Vamos jantar os dois e depois os nossos amigos vêm ter connosco." Apesar de o plano ser simples e de "saber as regras", Alexandre não esconde o entusiasmo de estar só com os amigos "numa coisa em grande".

Do outro lado do Tejo, em Cascais, Rodrigo também não antecipa grandes loucuras. "Vamos estar em casa de um amigo e vamos fazer a festa por lá. É uma data que se calhar faz sentido estar mais com os amigos e os meus pais já confiam em mim para sair com eles noutras datas, não vai ser muito diferente", antecipa.

O medo dos abusos

Na verdade apenas Patrick reconhece que não vai fazer tanta festa como gostaria. Os problemas no fígado impedem-no de beber tudo o que gostaria. "Não sei o que é, mas tenho sempre imensa vontade de beber. Ainda bem que por causa da saúde não posso beber, senão era a desgraça", diz, entre gargalhadas.

As amigas Joana e Marta confirmam. Às vezes ele descontrola-se, mas elas nunca, garantem os três. "A Joana é sempre a primeira a ir para casa e a Marta não gosta de beber", defende o rapaz. Uma ideia partilhada pela mãe de Marta. Ana Paula conta que a filha não lhe esconde mesmo quando por exemplo "admite que bebeu vodca a mais". "Podemos contar com a sinceridade dela e isso é bom", aponta.

Mesmo com confiança na adolescente, os pais não se cansam de repetir os alertas. "Não quero ser repressora, ela tem de viver o que é suposto na idade. Digo-lhe sempre que a vida é dela e que ela é que tem de gerir o risco. Espero que se divirta com moderação e responsabilidade", explica Ana Paula Ferreira. Já Marta acrescenta que o pai lhe diz sempre: "Cuidado com as drogas naturais, não tomes as artificiais." Tudo substâncias que os três juram nunca ter experimentado.

Quem também é honesto com os pais quando quer beber é Rodrigo. "O mais velho gosta de Somersby e sangria e não é a primeira vez que pede para beber. Mas é cuidadoso e controlado", conta a mãe Sofia Mourão. Mais receio tem do filho do meio. "Os amigos dele são terríveis, mas ele diz que não bebe e toma conta deles." Duarte tenta sossegar a mãe: "Desde que haja controlo, não há problema."

A mesma promessa é feita pelos três amigos Joana, Marta e Patrick. A noite vai começar em casa de Joana, já que os pais e o irmão mais novo vão estar em casa de amigos, num jantar feito pelos próprios. O menu vai ter "lasanha e cheesecake" feita pelos próprios. Segue-se videojogos. "Se conseguir arranjar a wii, ainda vamos jogar e só depois é que saímos para festejar na rua", antecipa Joana, a anfitriã da primeira noite de passagem de ano sem supervisão dos pais. A jovem conta ainda que o irmão mais novo até começou por dizer que não era justo ela passar sozinha, mas depois até a ajudou a convencer a mãe. Já os irmãos mais novos de Patrick ficaram um pouco tristes por ele não estar na festa deles com os pais.

Voltar a passar com os pais? Talvez

O regresso às festas de passagem de ano em família não é garantido por nenhum dos jovens. Pelo menos para já. No futuro? "Pode acontecer haver um ano com os meus pais, Mas sempre que puder era engraçado ir com os amigos", defende Duarte.

Antecipando a opinião do irmão mais velho. Rodrigo encara esta data como "uma oportunidade de passar com outras pessoas". "Agora estou com quase 18 anos e a definir amizades. Se calhar passo sempre com os meus amigos daqui para a frente."

A mesma expectativa tem Patrick. Ainda para mais se esta noite correr bem. "Vai ser uma oportunidade de estar com os amigos e fazer uma coisa diferente de estar em casa com os pais, esperar pela meia-noite e para dar uns abraços."

Ainda meio dividido entre a festa dos amigos e o conforto da família está Alexandre. "Nos tempos de juventude é sempre bom estar com os amigos, mas sei que mais tarde vou querer voltar a passar com a família. Gosto de passar estas datas com eles." Aliás, o ideal teria sido jantar com os pais e sair depois com os amigos. Um programa que só será possível para o ano, já que os pais estão a trabalhar este ano. "Teríamos feito jantar, mas estou de turno 24 horas e a minha mulher trabalha até às cinco da manhã", conta Sérgio. Ele é inspetor da Polícia Judiciária e Leila é croupier no Casino de Lisboa.

"Acaba por ser triste não passar esta data junto da família", aponta Alexandre. A presença vai ser substituída pelo telefone: "Vai haver telefonema à meia-noite e assim vai dar a sensação de que estamos juntos", garante o adolescente, que os pais descrevem como muito caseiro.

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