Preparar vacinas em hospitais dá para vacinar mais com menos doses

Na preparação de 10 400 doses de vacinas, o Serviço de Farmácia do Hospital de Santa Maria conseguiu obter mais 220. Ou seja, conseguiu vacinar mais 110 profissionais do que é possível num dos centros de vacinação aos utentes. E explicam-nos porquê.

Quando se fala em vacinas para combater a covid-19, a imagem que surge é a de um profissional de saúde de seringa na mão a retirar o líquido de um frasco. Pois bem, mas antes desta imagem há todo um trabalho invisível que permite otimizar as doses constantes em cada frasco.

No Serviço de Farmácia do Hospital de Santa Maria, desde o início do processo de vacinação já foram preparadas 10 400 doses para vacinar os cerca de seis mil profissionais de toda a unidade - nesta altura, já só falta proteger uma pequena parte e a maioria já tem a vacinação completa. Mas deste total de doses ainda foi possível obter mais 220. O que significa que foi possível vacinar de forma completa mais 110 profissionais do que seria possível num posto de vacinação aos utentes.

Porquê? "Porque a preparação é feita em massa, em ambiente de esterilidade, o que nos permite maximizar o reaproveitamento dentro do lote de produção. Ou seja, conseguimos produzir sempre algum excedente ao retirar daquele concentrado apenas a quantidade que é mesmo essencial para misturar com o produto de diluição. Estamos a conseguir retirar cerca de 5% de doses a mais do que é possível retirar num ambiente de preparação convencional", explica ao DN o diretor do serviço, João Paulo Cruz, enquanto percorremos os dois pisos da unidade que acolhe 150 profissionais e onde se gere anualmente uma verba de mais 180 milhões de euros.

Para quem não sabe, antes de o concentrado da vacina chegar à seringa para ser administrada a cada pessoa tem de passar por uma diluição prévia. "A ampola tem um concentrado que tem de ser diluído antes com cloreto de sódio e só após esta diluição, com uma quantidade pré-definida, é que é feita a dispersão do concentrado e retiradas as doses individuais que correspondem a uma administração", especifica o farmacêutico, continuando: "Num ambiente convencional cada frasco apenas permite as seis doses porque ali também não dispõe das condições que temos aqui." João Paulo Cruz dá como exemplo o que tem sido obtido com a vacina mais usada na unidade, a da Pfizer: "Cada frasco tem seis doses, mas o nosso modelo de preparação tem permitido retirar de cada um deles cerca de 6,5 doses, o que perfaz um total de 220 doses a mais até agora".

Impossível não é, mas seriam precisos mais meios

À pergunta do DN, porque é que este modelo não é aplicado aos centros de vacinação aos utentes para que mais doses pudessem ser administradas, o diretor do serviço responde: "Não é que fosse impossível de o fazer, seria mais complexo, com as metas definidas para esta fase, por exemplo, vacinar mais de 100 mil pessoas por dia, exigiria mais meios". Mas remata: "Bastava colocar 25 serviços de farmácia hospitalar com mais meios dos que os que já têm a fazer a preparação das vacinas". E ri-se. No entanto, sublinha, "tinha se ser garantido que as vacinas preparadas eram administradas até determinada data, para não perderem qualidade, e que permaneciam sempre em ambiente de esterilidade".

Por agora, João Paulo Cruz sente-se satisfeito com o resultado que a sua equipa tem obtido em mais uma tarefa, porque, assim, "temos vacinado muitas mais pessoas com menos doses". E não nega que ver alargado, à escala nacional, os modelos de otimização de medicamentos que ali usam "seria o ideal para qualquer sistema de saúde, mas também só o conseguimos porque temos equipamento altamente sofisticado".

O coordenador do departamento de manipulação de medicamentos, Rui Marques, aproveita para esclarecer: "Para maximizarmos a preparação em bloco é uma tarefa que optamos por fazer sempre ao fim de semana, assim evitamos que haja constrangimentos com a atividade normal dos hospitais de dia, e temos uma equipa só dedicada a isso".

O processo é feito na antecâmara no corredor à nossa frente. É ali que se prepararam todos os medicamentos injetáveis para administrar aos doentes internados, em ambulatório e, no caso específico das vacinas contra a covid-19, aos profissionais. No momento desta visita guiada, estavam a ser preparados medicamentos citostáticos (doses de quimioterapia).

Da tarefa de manipulação de medicamentos pouco se consegue observar, porque, essa, tem de ser feita com todas as regras de segurança. "O que temos à nossa frente são câmaras de fluxo laminares verticais. Permitem manter a esterilidade das produções e proteger os técnicos, os operadores de substâncias tóxicas, que são utilizadas na manipulação dos medicamentos para a área de oncologia, como quimioterapia. É uma sala que tem pressão negativa, protegendo o ambiente de potenciais contaminações", explica ainda Rui Marques, dando-nos a ideia que, de facto, estamos num dos corredores mais perigosos do hospital.

"Isto são as antecâmaras. Dali vem a prescrição dos medicamentos já validada pelos farmacêuticos, que passa por via informática para a antecâmara onde os técnicos preparam todo o material necessário para a manipulação do medicamento. O material passa para a antecâmara onde se vai fazer a manipulação por transferes", continua. "É necessário que assim seja, para se conseguir garantir a esterilidade do espaço. Se, por exemplo, um técnico entra para a antecâmara todo equipado e se esquece de algo, já não pode voltar atrás, tem de lhe ser dado através dos transferes ou então se sair tem de voltar a entrar com novo equipamento".

À entrada do departamento, um chuveiro amarelo, de pé alto, junto a uma parede e um kit de emergência, não passam despercebidos. "É para o caso de haver algum profissional que possa ser contaminado com substâncias tóxicas". E, à nossa frente, o cuidado da funcionária que prepara as caixas de medicamentos citostáticos para seguirem para os serviços também o confirma. "Se uma destas embalagens se abre é um problema", comentam.

A vigilância e as doses ajustadas ao doente

O burburinho natural do corredor, de quem embala, arruma, troca impressões, contrasta com o silêncio da sala, onde estão seis a sete farmacêuticos à frente do computador e cuja função é confirmar todo os dados que lhes são disponibilizados para aferir da segurança do medicamento, aferir toda a informação do doente a quem vai ser administrado, aferir que não há trocas de medicamentos, etc. Este é o departamento de farmacovigilância onde o silêncio é o segredo para a tarefa diária "muito rigorosa". E para dar um exemplo, João Paulo Cruz conta: "Tivemos de implementar um sistema de alerta para medicamentos de risco e é neste departamento que se faz essa aferição". O risco "tem a ver com o letring de alguns medicamentos que pode levar a que nomes parecidos gerem confusão. Esse risco é aferido aqui. Colocamos letras maiores no meio das palavras para se evitar o erro na prescrição ou na administração. Têm nomes parecidos, mas são de classes diferentes".

Mas há outros riscos a acautelar com mais medicamentos para os quais até há alertas definidos em lei. "São medicamentos que não podem ter o mínimo erro de sobredosagem, nem acima nem abaixo, por poderem provocar efeitos adversos ou não ter o efeito que se pretende. É o risco de manipulação que pode levar à morbilidade e mortalidade do doente". Tudo riscos que, num hospital, são acautelados pelo serviço de farmácia, o que faz João Paulo Cruz a afirmar: "Somos um serviço na retaguarda, mas que é fundamental para manter a segurança do doente no meio hospitalar".

Basta referir que no âmbito da segurança, o serviço desenvolve também um programa de "monitorização da função plasmática de alguns medicamentos para percebermos se os doentes a quem estão a ser administrados determinados fármacos estão com doses tóxicas. Se estiverem, recomendamos ao médico as doses adequadas. Ou seja, somos nós que temos de avaliar o que está a ser administrado ao doente para que a posologia esteja ajustada".

Ensaios clínicos: a visão do futuro a cinco ou seis anos

A farmacovigilância é uma das tarefas do serviço, mas a investigação e a inovação também. Por isso, num serviço com a dimensão do de Santa Maria não é de estranhar que o futuro chegue mais cedo em termos de terapêuticas. "Neste momento, temos cerca de 100 ensaios clínicos, uns a iniciar, outros em pleno recrutamento e outros a terminar", afirma a farmacêutica Tatiana Bento, a coordenadora do departamento. "De nós depende toda a parte regulamentar, porque os ensaios clínicos são feitos em todo o hospital, a preparação da medicação e a cedência ao doente. A maioria é na área da oncologia, que é a que tem maior desenvolvimento nas terapêuticas de imunoterapia. Mas também temos ensaios para outras patologias, como esclerose múltipla, da doença dos pezinhos, etc".

Ao nosso lado, no corredor, abre-se a porta de uma sala repleta de armários, do chão ao teto. É aqui que estão guardados todos os dossiers, guias, registos, medicação, toda a informação dos ensaios que são feitos. Para Tatiana Bento, trabalhar ali é uma mais valia: "Estamos sempre à frente dos nossos colegas, cinco ou seis anos, nas terapêuticas. Nós já estamos no futuro. Já estamos a manipular os novos medicamentos e a observar as reações dos doentes. E isso é fascinante".

Quem trabalha no laboratório de controlo de qualidade também reclama o mesmo para a sua função. João Paulo Cruz diz que aquele laboratório deve ser o único que ainda existe nos hospitais portugueses. "Aqui fazemos a análise das substâncias que vamos manipular. Só depois de serem aprovadas por nós é que podem seguir para consumo no hospital", diz, acrescentando: "Uma das funções é avaliar matérias primas que temos de adquirir para preparar medicamentos para as crianças, já que a indústria farmacêutica não investe tanto nesta área por considerar que não é rentável". Esta é igualmente uma das mais valias de um serviço de farmácia hospitalar. "O que fazemos é preparar substâncias que só existem em dosagens de adultos para crianças".

Quando chegamos ao último setor, as palavras em negro numa folha branca, espalhada em vários sítios, chamam a atenção: "Separados somos mais fortes". O slogan serve para lembrar cada um de como se pode proteger da covid-19. "É um setor onde trabalham muitos técnicos e o espaço entre eles não pode ser descurado", explica João Paulo Cruz, para afirmar logo a a seguir e a sorrir que ali a robotização faz maravilhas. "Aqui é o robot que diz aos técnicos para onde vai o medicamento e de forma mais rápida, porque há cada vez mais doentes e as equipas físicas começam a ser diminutas", argumenta.

À nossa frente, "torres" de prateleiras horizontais que rodam para trazer os medicamentos que são necessários repor em cada serviço. Basta o técnico introduzir informaticamente o nome do serviço. "Quando o técnico chega às 07.00, coloca o nome do serviço do computador, por exemplo, reumatologia, e o robot vai buscar de imediato todos os medicamentos que foram solicitados e trá-los ao técnico, que os recolhe e os vai distribuir". Mas há já um projeto a germinar para que os medicamentos cheguem mais rápido ao serviço e por condutas de vácuo.

Mais à frente, o mesmo serviço, mas em Kardex verticais. "São os medicamentos para cada doente internado. Cada caixa tem a sua identificação, serviço, cama e a dose adequada e tudo tem de ser confirmado".

Quem entra num hospital pensa que "já vem tudo feito, mas não é assim", garantem os farmacêuticos. Se os medicamentos chegam aos doentes internados em segurança, na dose certa, sem erros ou trocas é porque há todo um trabalho contínuo e rigoroso que envolve muito controlo desde a prescrição à produção e até à distribuição.

Um retrato em números

150

Este é o número de profissionais no serviço de farmácia - 62 farmacêuticos, 47 técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica, 15 administrativos e 30 assistentes operacionais. A média de idades ronda os 40 anos. "É um serviço muito jovem".

100

Este é o número de ensaios clínicos com medicamentos que estão a ser realizados pelo serviço. A maioria na área oncológica. "Aqui estamos cinco a seis anos à frente dos nossos colegas. Estamos a avaliar as terapêuticas inovadoras que irão tratar os doentes".

20 000

Este é o número médio de medicamentos que o serviço de farmácia tem de preparar diariamente para os cerca de mil doentes internados no hospital. Desde soluções orais, xaropes para a pediatria até aos medicamentos para os cuidados intensivos.

40 000

É o número de caixas de medicamentos que chegam ao hospital por semana vindos da indústria farmacêutica. Num ano, estima-se que sejam mais de dois milhões de medicamentos que entram no hospital.

2 000 000

Este é o número de medicamentos que são reembalados por ano no hospital. Uma unidade que tem de existir para transformar os medicamentos que chegam em caixa em doses unitárias para servir as necessidades dos serviços. Tudo porque a indústria não considera rentável a dose unitária.

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