Portugueses gastaram mais de 2 mil milhões em jogos Santa Casa

Raspadinha é o jogo mais escolhido, mas nesta época do ano a aposta rainha é a Lotaria de Natal

Os portugueses estão a apostar valores recorde nos jogos sociais da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. De janeiro a outubro investiram 2 257,5 milhões de euros, mais 498,5 milhões do que nos primeiros dez meses do ano passado. Estes valores vão aumentar substancialmente, pois falta incluir as apostas da época natalícia.

Especialmente a Lotaria do Natal, que ontem já era a rainha nas escolhas dos apostadores, no Rossio. Uma tradição que vão mantendo ao mesmo tempo que conjugam com as apostas habituais no Euromilhões ou Placard.

Além do aumento das apostas, a Santa Casa viu também subir os prémios pagos: nos primeiros dez meses do ano foram ganhos pelos apostadores 1 353 milhões de euros, verba que já ultrapassa o valor atribuído nos doze meses de 2015 - 1295 milhões. Aliás, estes prémios vão subir, pois só esta terça-feira o primeiro prémio do Euromilhões no valor de 61 milhões de euros foi vendido em Carnaxide (Oeiras).

A raspadinha é o mais procurado - 1113 milhões vendidos, segundo a Santa Casa -, seguido do Euromilhões (652 milhões) e do Placard (303,4 milhões). Este último é o jogo que mais cresceu em comparação com o período homólogo, mas também só foi para o mercado em setembro de 2015, daí o valor de 19,7 milhões de euros pagos pelos portugueses em dois meses.

Quanto ao M1lhão, só disponível em setembro, os serviços da SCML adiantam que nos 60 dias da análise obteve 11,9 milhões de euros. Em relação aos restantes jogos sociais todos, incluindo o Euromilhões, apresentam queda de receitas.

A vontade dos portugueses em apostar enfrentou dificuldades nos últimos dias, com alguns postos de venda a esgotarem o stock , nomeadamente de raspadinhas, e a não conseguirem ver correspondidos os pedidos efetuados. Ao DN, a Santa Casa da Misericórdia adiantou que existiram "alguns atrasos", que estarão relacionados com questões de logística, na resposta aos pedidos dos 5000 mediadores no país.

Ontem de manhã, a Casa da Sorte, no Rossio, era um desses locais onde as raspadinhas estavam esgotadas. António Nobre que só compra "raspadinhas e lotaria de cinco euros", acabou por sair da loja de mãos a abanar. "Disseram-me para ir à outra loja na Baixa", responde o apostador. A explicação para esta quebra no stock é dada por Paulo Costa, caixeiro da Casa da Sorte: "Esgotou hoje [ontem]de manhã, tem a ver com plafonds de compras e com a afluência que tem sido grande. Na outra loja não esgotou."

Mas por estes dias a grande aposta tem sido a Lotaria do Natal. "Nesta semana vendemos sempre mais lotaria, este ano até estamos a vender mais do que no período homólogo do ano passado", acrescenta o funcionário da Casa da Sorte. O que não significa que os apostadores habituais deixem os outros jogos. "Normalmente a lotaria são 15 euros, as pessoas pagam com uma nota de 20 e usam os cinco euros de troco para fazer o Euromilhões ou comprar Raspadinhas."

Exceção para o caso de João Rios. "Só compro lotarias e no Natal venho de propósito aqui para comprar". Apostador "há mais de 40 anos", vem de Miraflores ao Rossio porque tem "uma fezada" nesta casa de apostas e até deixa ao critério dos funcionários a escolha das frações que compra. "É o que vier à rede."

A única escolha vai para o 725 - número do autocarro em que teve um problema há uns anos largos -, que vem buscar mais tarde e que compra já mais por tradição do que confiança num prémio - "é o que tem de ser", resume. No bolso para já leva "cem euros" em Lotaria do Natal.

A fama desta casa foi colhida com uma longa tradição de dar prémios - "somos a casa que vende mais e dá mais prémios", sublinha Paulo Costa. No ano passado, "o primeiro prémio foi vendido aqui", por isso, "as pessoas chegam e pedem logo uma fração com prémio". Os números especiais "normalmente são uma data de nascimento ou de casamento".

E há ainda quem insista nos mesmos números ao longo do tempo. "Às vezes são grupos que já compram há muito tempo e pedem para reservar bilhetes. " Ao balcão, um cliente pede dois números específicos. Um não foi atribuído para venda à Casa da Sorte e o outro só existe na outra loja. Pouca sorte tem também o cliente que liga a pedir o 814. "Temos todos os 800 menos esse", responde o funcionário.

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.