Portuguesas preferem a pílula, depois o DIU ou o preservativo

Sob o lema "Eu escolho" é feito um alerta para a importância de os jovens acederem aos métodos contracetivos. Em Portugal fazem-no de forma irregular.

As portuguesas são grandes utilizadoras da pílula como método de contraceção, mas o uso do DIU (dispositivo intrauterino) tem vindo a crescer desde 2015, desfeito que está o mito de que causa infertilidade. Situação que também acontece com o implante. No entanto, Fátima Palma, presidente da Sociedade Portuguesa da Contraceção (SPC), teme que no último ano e meio se tenha recuado na utilização destes dois métodos. Por isso hoje, no Dia Mundial da Contraceção, é feito o alerta para a possibilidade de utilização destes dois métodos.

"A sociedade evoluiu e há muitos métodos contracetivos, mas as portuguesas continuam a preferir a pílula. Com a pandemia, as coisas complicaram-se não só em Portugal como em todo o mundo, e muitas mulheres voltaram a tomar a pílula, o que terá a ver com o que aconteceu no último ano e meio. Se não conseguem pôr um DIU ou um implante porque os centros de saúde tiveram de dar prioridade à covid-19, é mais fácil tomar a pílula", explica Fátima Palma.

Um estudo da IQVIA Portugal realizado no início de 2021 inquiriu 1508 mulheres em todo o país, 46% das quais não tinham filhos. Refere que 13% mudaram de método no último ano, sendo que praticamente metade (47%) de pílula para pílula. Mas 12% trocaram a pílula pelo DIU e 5% pelo implante. E foram 6% as mulheres que substituíram estes dois métodos pela pílula. A ginecologista sublinha que é inquirida uma pequena parte da população feminina fértil e foram 196 as que mudaram de contracetivo. Em 2019, as Nações Unidas realizaram uma avaliação sobre o uso de métodos contracetivos e Portugal situava-se entre os mais desenvolvidos a nível europeu. O país estava entre os primeiros no uso da pílula e em 9.º na utilização do DIU.

Um inquérito recente no país concluiu que mais de dois terços usavam a pílula, com o DIU em segundo lugar, mas com uma utilização muito inferior. Seguem-se o preservativo e o implante.

A pílula é mais usada no grupo dos 20 aos 29 anos (79%), já o DIU tem uma maior adesão na faixa entre os 40 e 49 anos (15%). São as mulheres que têm entre os 15 e 19 anos que mais usam o preservativo (12%), seguindo-se a pílula. "As mais jovens usam bastante o preservativo, o problema tem a ver com a irregularidade", sublinha a presidente da SPC.

É a inconstância no uso de métodos contracetivos entre os mais jovens que faz com que o Dia Mundial da Contraceção deste ano tenha como lema "Eu escolho". É uma forma de sublinhar a importância do acesso dos mais novos aos métodos contracetivos, "para que possam ter uma sexualidade responsável".

Há desigualdades mundiais mas também regionais, por exemplo quem vive na Europa de Leste tem mais dificuldade em aceder à contraceção. Inclusive, há médicos que se recusam a prescrever um método destes. Segundo Fátima Palma, a taxa de aborto nestes países é superior à Europa Ocidental, onde é fácil aceder à contraceção.

Mesmo em Portugal há desigualdades, apesar de a legislação de planeamento familiar ser de 1984 e incluir consultas de planeamento e contracetivos gratuitos. "Nos grandes centros há consultas de planeamento, mas há outras zonas onde não são tão acessíveis. Existe uma lista de métodos contracetivos gratuitos, mas que não é igual em todo o lado, e as pessoas podem ter dificuldade em fazer o seu aconselhamento contracetivo", explica.

A SPC e a Associação para o Planeamento da Família (APF) destacam neste dia, que é assinalado desde 2007, os desafios a enfrentar. Registam que 40% da população não frequenta consultas de planeamento familiar, subindo para 90% entre os adolescentes. A maioria da população feminina sexualmente ativa apenas conhece a pílula, o preservativo e o DIU. E 15% dos adolescentes desconhecem a pílula de emergência, tal como 20% das mulheres com mais de 40 anos. Segundo o estudo da IQVIA, 6% das mulheres recorreram à pílula de emergência no último ano, sobretudo as mais novas.

A SPC e APF sublinham que, "ao fazer escolhas informadas, a mulher tem mais oportunidades para aceder à educação e ao trabalho remunerado, criando bases para uma participação mais ativa na vida pública, promovendo a igualdade de género e a melhoria da literacia na família". Logo, a contraceção contribui para a redução dos fatores geradores de pobreza.

ceuneves@dn.pt

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