Pneumologista considera que Portugal deve antecipar 4.ª dose para idosos e vulneráveis

A pneumologista Raquel Duarte, que apoiou o Governo nas propostas de desconfinamento, defendeu ao DN que o país está em condição de passar à fase seguinte, mas deve antecipar a 4.ª dose para os mais vulneráveis, como recomenda o ECDC. Carlos Antunes, analista da Faculdade de Ciências, concorda em que há condições para assumir o risco moderado do alívio das medidas, mas sobre a 4.ª dose receia que a sua antecipação desgaste a adesão da população à vacinação. O Governo ainda não tomou decisão sobre este tema. Mas, na reunião de hoje de Conselho de Ministros, deve prolongar o estado de alerta.

O Governo prolongou o estado de alerta até sexta-feira, dia 22, e hoje, na reunião de Conselho de Ministros deve alargar o prazo. Pelo menos, foi o que deu ontem a entender o secretário de Estado Adjunto e da Saúde, António Lacerda Sales, ao referir que o país deve continuar a "tomar medidas com segurança para o cidadão", sublinhando que, "nos próximos dias, já será possível analisar se houve ou não impacto do período da Páscoa" na incidência e na mortalidade. "Não havendo, estamos em condições de reverter as medidas".

A pneumologista Raquel Duarte, que a convite do Governo de António Costa liderou a equipa que teve a seu cargo a elaboração das propostas de desconfinamento com vista à redução da propagação da covid-19, disse ontem ao DN ter considerado "sensato" deixar-se para depois da Páscoa uma tomada de decisão sobre as medidas que envolvem o estado de alerta, já que este "foi um período de grande mobilidade", mas, defendeu, que o país "vive uma situação de estabilidade que lhe permite dar o passo seguinte" em relação a estas medidas. O importante "é mantermos a proteção dos mais idosos e vulneráveis" e, nesse sentido, é preciso "antecipar a 2.ª dose de reforço, ou 4.ª dose, uma vez que a maioria desta população, está acima dos 65 anos e foi vacinada há mais tempo".

Na sua perspetiva, "o compasso de espera após a Páscoa, pareceu-me sensato e vem reforçar a atitude de precaução que Portugal tem tido durante a pandemia", mas, a verdade, "é que estamos a atingir uma fase de estabilidade, que é muito fruto do factor protetor da vacina, já que a primeira dose de reforço está associada a uma redução elevada das formas graves da doença - ou seja, não estamos a ter um grande efeito em termos de hospitalizações nem de mortalidade. Portanto, eu diria que o cenário atual impõe uma necessidade, que é a de proteger as populações mais velhas e as mais vulneráveis, aquelas que correm maiores riscos de desenvolverem formas graves da doença".

E esta necessidade passa, não só pelas medidas de proteção individuais, sendo esta uma responsabilidade de cada um, nos locais onde há concentração destas pessoas, e, "obviamente pela vacinação. Portanto, o que é preciso agora é vaciná-los, antecipando a segunda dose de reforço, tal como até já foi recomendado pelo próprio ECDC, Centro Europeu de Controlo e de Doenças e como alguns outros países da União Europeia estão já a fazer", sublinhou.

Máscara nas escolas já deveria ter sido abolida

A médica do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia e professora na Faculdade de Medicina do Porto reforça o que tem vindo a defender há algum tempo. "O país chegou a uma fase da pandemia em que o importante não é manter as medidas como obrigatórias, mas desenvolver a perceção do risco da população para que esta tome os devidos cuidados de proteção, sobretudo quando está em contacto com os mais idosos ou vulneráveis".

Em relação ao resto da população, "está na altura de se deixar cair a obrigatoriedade da máscara mas manter a sua recomendação, porque, é óbvio, a pandemia não acabou e o vírus continua a circular. O que é preciso é que cada cidadão saiba quando deve manter as medidas de proteção", disse.

O mesmo argumentou sobre escolas, considerando que a máscara já deveria ter sido abolida. "Não faz sentido estar a exigir-se às escolas um comportamento diferente daquele que se propõe para outros locais. O que é preciso nesta altura é manter as escolas arejadas e com uma ventilação adequada para os seus espaços".

A médica reforçou ainda que a necessidade de antecipar a 4.ª dose tem a ver lestamente com o facto de todos se poder reduzir as medidas em outros setores. "Quando falo da segunda dose de reforço é precisamente para que se possa avançar com a redução de medidas, mas protegendo as populações que mais sofrem com as formas graves da doença", sustentou.

"Não podemos esquecer que as populações mais idosas foram as primeiras a receber a vacina e se queremos, de facto, proteger esta população, devemos vaciná-la nesta fase. E, depois, voltar a vaciná-la, na altura em que houver maior risco de infeção", porque "é a vacinação que nos permite fazer uma vida o mais normal possível".

Raquel Duarte chama, mais uma vez a atenção: "Ainda há vírus a circular e há uma série de comportamentos adquiridos que vieram para ficar, mesmo depois de a pandemia acabar." Hoje, em dia, e independentemente da infeção por SARS-CoV-2, "há comportamentos que não serão aceitáveis, como, perante a possibilidade de a pessoa estar infetada com um vírus respiratório, ir trabalhar com sintomas, com febre ou tosse, ou sem máscara. Esta pessoa deve facilmente poder justificar a sua ausência do local de trabalho sem penalização". Mas, destaca ainda, esperar que todos, população, trabalhadores, empresários, etc, tenhamos aprendido a lição de que "é necessário ventilar os espaços adequadamente".

Em relação às medidas que comporta o estado de alerta, isolamento de infetados e uso obrigatório de máscara em espaços fechados, Raquel Duarte considera que Portugal pode avançar. "O uso de máscara deve ser só recomendado ou fortemente recomendado, com algumas exceções, serviços de saúde e lares, para proteção dos mais vulneráveis", porque até nos "transportes públicos penso que deve ser só fortemente recomendado para as pessoas com mais de 65 anos e nas horas de ponta, que foi o que fizeram alguns países, não propriamente pelo risco per si, mas por uma questão de paz social".

Carlos Antunes receia que 4.ª dose para já, desgaste população

O professor Carlos Antunes, que integra a equipa que faz a modelação da evolução da covid-19, desde o início da pandemia, concorda que o país atingiu uma estabilidade que permite correr o risco moderado de se avançar para a queda da obrigatoriedade de máscara e decretar a sua recomendação. No entanto, este risco tem de ser bem transmitido à população para que aqueles que têm mais contacto social com idosos ou doentes com mais comorbilidades possam reforçar a proteção junto destes.

O analista, que também defende a queda da obrigatoriedade de máscara nas escolas e em outros espaços, à exceção dos serviços de saúde e lares, diz que o governo tem duas hipóteses: ou aceita correr um risco moderado e avança já para o alívio das medidas ou, se pretende manter a meta política dos 20 óbitos por milhão de habitante, vai ter de esperar, não duas semanas, mas mais um mês ou mês e meio. Isto porque a descida de óbitos, os quais ocorrem em 95% acima dos 70 e 80 anos, está a ser muito lenta, e se se verificar algum impacto do período da Páscoa na incidência, com aumento do número de casos e até na mortalidade, esta meta até será atirada mais para a frente.

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