Porto testa terapia para doença crónica com apoio dos EUA

Investigadora estuda a doença inflamatória intestinal, que atinge 15 mil portugueses

"Este fármaco não pretende substituir nenhuma terapêutica já existente. O que queremos é atuar no início da doença, de forma simples ou em combinação, e manter os doentes mais tempo controlados, evitando o escalar da terapêutica." A explicação é de Salomé Pinho, investigadora do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto, que lidera um ensaio clínico patrocinado por uma fundação americana - Crohn"s & Colitis Foundation of America -, que tem como objetivo o desenvolvimento de um novo medicamento para a doença inflamatória intestinal (colite ulcerosa e doença de Crohn), patologia incurável que afeta cerca de 15 mil portugueses.

Trata-se de uma terapia "de origem natural - existe no ambiente e é submetida a processos de purificação -, de baixo custo e não tóxica", associada a "pouquíssimos efeitos secundários". Testada em "ratinhos de laboratório", revelou "supressão na severidade e progressão da doença". Será testada enquanto "tratamento simples e em associação com outros fármacos já usados". Numa primeira fase, o ensaio envolve cerca de 40 pessoas com colite ulcerosa e será desenvolvido no Hospital de Santo António, no Porto, em colaboração com o Hospital de São João, também no Porto. Numa segunda fase, contará com a participação de outros hospitais europeus.

A doença inflamatória intestinal é uma patologia crónica que afeta 2,5 milhões de pessoas na Europa. Atualmente, os doentes são tratados de acordo com uma pirâmide terapêutica. "Na base, há terapias anti-inflamatórias normais. Se o doente não responder, é escalada a terapia para corticosteroides e, se não responder, avança a escalada terapêutica para agentes mais agressivos, com mais efeitos secundários e de elevadíssimos custos." No topo está a cirurgia. Segundo Salomé Pinho, com este novo tratamento, o objetivo passa por "evitar a escalada terapêutica para fármacos mais dispendiosos e cheios de efeitos secundários".

De acordo com a investigadora do I3S, esta é a primeira vez que a Crohn"s & Colitis Foundation of America - fundação voluntária e sem fins lucrativos que se dedica à descoberta de curas para doenças inflamatórias intestinais - financia um projeto em Portugal. Em causa está um ensaio clínico da iniciativa do investigador. "Há pouquíssimos ensaios da iniciativa do investigador, porque são caros e é difícil ter este tipo de financiamento", explica Salomé Pinho, que conta também com o apoio da Fundação para a Ciência e Tecnologia.

A colite ulcerosa e a doença de Crohn afetam sobretudo populações jovens - entre os 15 e os 30 anos - e são "altamente debilitantes". "Os doentes enfrentam períodos de atividade e de doença ativa que, após terapêutica, entram no controlo - remissão - mas de uma forma imprevisível voltam a ter ciclos de atividade." Isto acontece ao longo de toda a vida. "E dada esta constante inflamação, há risco de evoluir para cancro do intestino."

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