Penela tem futuros doutores e até um futebolista

Dois meses depois de quatro famílias sírias e sudanesas terem chegado, as crianças estão na escola, alguns adultos frequentam a universidade e há até um jogador de futebol

Este domingo, Belal não conseguiu assistir ao jogo do Penelense, frente ao Águias de Arazede, porque a partida foi fora. O sudanês de 22 anos que chegou a Penela em novembro, integrado no grupo de refugiados que Portugal acolheu, é já uma das atrações da equipa da terra. Ainda não joga, mas não perde um treino do clube, nas noites de terças, quintas e sextas. Mas não é só o jovem futebolista que já se sente à vontade entre os portugueses. Dos mais de 40 refugiados que chegaram há dois meses, ao abrigo do número anual de reinstalação definido pelo governo português, já há adultos a frequentar a universidade, as crianças estão na escola, e nem as consultas no dentista foram esquecidas.

As dez semanas que já passaram em Portugal mudaram a vida destas quatro famílias sírias e sudanesas, que ontem foram presenteadas com um passeio na Serra da Lousã, que assinalou o Dia do Migrante e do Refugiado. "Dois meses ainda é muito pouco, mas temos feitos alguns progressos, sim, devagarinho", disse ao DN Natalyia Bekh, que dirige o Centro de Instalação de Refugiados Paz/Peace, integrado na Fundação de Miranda do Corvo, responsável por este projeto de acolhimento. É ela que lida diariamente com as alegrias e as angústias daquela comunidade instalada nuns apartamentos cedidos pela Câmara Municipal de Penela. Ela e a jovem Asma, uma tunisina contratada pela Fundação como intérprete, para descodificar a língua árabe que, por ali, ninguém entende.

Crianças e adultos têm aulas de português no Centro, todos os dias, mas há um grupo de cinco que agora frequenta um curso intensivo na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. "São aqueles que já têm licenciatura ou formação académica ao nível do 12.º ano, e que só com equivalência das habilitações poderão, por exemplo, inscrever-se no Centro de Emprego", conta Natalyia, a diretora de origem ucraniana que sabe bem o que quer dizer integração. Chegou a Portugal nos anos 1990, arrumou na mala o passado como professora e diretora de um liceu, e aceitou o emprego como ama em casa de uma família de Coimbra. E foi nesse tempo que se matriculou no curso de Direito, na cidade universitária, onde viria a ser a melhor aluna do seu ano. Por estes dias acumula o (muito) trabalho como diretora do Centro com a vontade de terminar o douramento.

O exemplo de Natalyia é inspirador para os refugiados. Três homens e duas mulheres sentam-se agora nos bancos da faculdade, onde aprendem a dominar a nossa língua e esperam conseguir equivalência das suas habilitações. Um deles é Fouad Mahmasa, de 44 anos, economista com pós-graduação em contabilidade. Veio com a mulher (que o acompanha agora nessas viagens a Coimbra) e os três filhos, entre os 9 e os 13 anos. A mais velha, Tasneen, já festejou o aniversário em Portugal, em novembro. Quando o DN lá esteve, em casa da família, um dia depois da chegada, tudo o que queria era uma festa de anos. E assim foi. O Centro mobilizou todos para um convívio, à semelhança do que tem acontecido, amiúde, com as outras famílias.

As 12 crianças da Síria e Sudão começaram a ir à escola no início de dezembro, divididas entre a creche da Santa Casa da Misericórdia e a EBI de Penela. Os mais novos são, afinal, os que dão maiores sinais de envolvimento com a comunidade, papel que terá sido muito facilitado pelas crianças da vila, quando, logo ao início, tomaram a iniciativa de escrever algumas frases, para serem posteriormente traduzidas em árabe, e encetar a comunicação entre todos.

O primeiro grande contacto com a população local aconteceu durante um magusto, na vila, quando os refugiados levaram algumas comidas típicas para partilharem. De resto, tem sido importante o apoio dado pela comunidade islâmica de Lisboa, que não só visitou as famílias como faz chegar regularmente alimentos específicos e roupas da cultura árabe, para as mulheres. Aos poucos, os poucos habitantes da pequena vila de Penela já se habituaram ao véu negro da mulher de Fouad (que só retira quando está apenas na companhia de mulheres). Os cinco almoçam (gratuitamente) na cantina da universidade e o grupo inteiro tem frequentado os serviços sociais, sobretudo para tratamentos dentários, uma das necessidades mais sentidas, ao nível dos cuidados de saúde. Fouad mantém o mesmo sorriso afável, determinado que está a arranjar um trabalho em Portugal e sustentar a família. Como ele, Sameer, Mamoud e também o jovem Belal Ibrahim, que passou oito anos num campo de refugiados no Egito, depois da morte do pai, durante a guerra no Sudão.

Belal gostava de terminar por cá o curso de Geografia, mas tem a seu cargo os dois irmãos mais novos e a avó. Por enquanto, usa o futebol para dar um passo de gigante na integração, conforme testemunha o treinador, Nuno Raquete: "Como já começa a perceber e a falar algumas palavras em português, os jogadores combinam coisas com ele e incluem-no no grupo de amigos". Belal está em Penela com a avó, Hawa, de 70 anos, e os dois irmãos gémeos, um rapaz e uma rapariga de 13 anos, que leva com ele aos treinos e aos jogos do Penelense. E são as responsabilidades familiares que o levam a admitir que se não puder tentar a sorte como jogador de futebol, só quer mesmo é trabalhar.

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