Patrícia Clímaco: A imobiliária empreendedora que viu (e ajudou a) mudar Lisboa

Patrícia Clímaco, partner e CEO da Castelhana.

Ali mesmo ao lado das ruínas do Chiado, onde ficam os escritórios da Castelhana, há um segredo ainda para muitos lisboetas. Encravado entre escadinhas e fachadas, recuado da plataforma em que dezenas de turistas já voltaram a acotovelar-se lutando pela melhor memória que podem levar no telemóvel enquanto esperam pelo Elevador de Santa Justa, Topo está ainda sereno ao fim da manhã. Há de lotar a esplanada enquanto converso com Patrícia, com quem me estreio num encontro mas sinto que é amiga de sempre. Facilidades do sorriso franco com que me recebe e do encadeamento tranquilo dos temas que tomam conta de nós.

Ri-se logo que lhe pergunto como começou a aventura que a fez trocar uma florescente e promissora carreira em branding e consultoria de telecomunicações em Madrid pela imobiliária que agora lidera, que o pai lhe depositou nas mãos - empresa 100% portuguesa e líder em empreendimentos, no digital e em golden visa. "Eu nunca quis trabalhar em imobiliário, achava aquilo uma coisa arcaica. Era sócia fundadora com o meu pai, mas nunca quis dedicar-me a essa atividade." Era feliz em Madrid a aplicar os conceitos aprendidos na licenciatura em Gestão, lá vivia quando foi mãe, apesar de vir muito a Lisboa, e ainda acreditou que podia conciliar tudo, "com o António, de dois meses, às costas". Até à primeira vez que fez as malas para vir a Portugal: "até chorei, tal era a quantidade de coisas e a logística daquilo tudo".

Estávamos em 2006 e pela primeira vez cederia à vontade do pai, fundador da Castelhana, que a desafiou a ajudá-lo numa proposta para concorrer ao megaempreendimento Metro City. A experiência em consultoria viria a ser determinante para vencerem o concurso, contra todas as expectativas. E para a fazer começar a apaixonar-se pelo negócio familiar. "Vendemos 185 apartamentos nesse ano", recorda Patrícia Clímaco, que se rendeu à evidente vocação - ela chama-lhe herança genética -, vendeu a sua empresa em Espanha e se tornou CEO da Castelhana. "Aquilo parecia uma máquina de fazer dinheiro e de repente veio a crise e parou tudo: o setor, as vendas, o crédito, tudo."

Encomendamos o rico e delicioso brunch do Topo Chiado, com tudo a que temos direito, depois de nos garantirem que as proporções são pequenas - o que a incapacidade abdominal acaba por nos provar não ser bem verdade... Vêm ovos escalfados com tosta e pera abacate, bowls de açaí com granola e fruta, panquecas com doce de abóbora, minicalzones, sumo de laranja e água com limão.

Patrícia vai-me contando como aprendeu a profissão da maneira mais dura: "Tinha de pensar no que podíamos fazer para vender quando ninguém aqui estava disposto a comprar", explica. Se o mercado português estava fechado, começou a fazer prospeção fora, pôs anúncios na Caras Angola, planeou numa viagem a Moçambique, onde já passara um ano a fazer voluntariado, no Bilene. e foi então que veio o contacto de um grupo israelita que confiou à Castelhana o turnaround de três edifícios em Lisboa que estavam há quatro anos parados. "Nem tínhamos budget para limpar tudo; selecionamos alguns apartamentos, fomos ao Ikea comprar cortinas, flores, ligámos luzes para dar um ar decente e habitado àquilo e a verdade é que começámos a vender - no que ajudou termos protocolo com os bancos e conseguirmos crédito numa altura em que a banca também estava semifechada. Foi uma aprendizagem brutal."

Ao mesmo tempo, Patrícia dava a volta à casa, digitalizava a empresa, reorganizava, fazia contactos e parcerias, remodelava a equipa toda - ficou só um comercial, dos então 20, alguns dos quais nem sabiam enviar emails.

Expansão faz-se a norte

Hoje conta com mais de 60 pessoas na equipa de Lisboa, onde o negócio está focado, e está a expandir o Porto para alargar a Castelhana à cidade e a toda a região do Vale do Ave, onde assegura haver imensas oportunidades e potencial. Quer chegar ao fim do ano com 30 pessoas a norte.

Mas adiantamo-nos. Voltemos à crise imobiliária e ao ponto de retorno, que a apanhou em viagem a Maputo com o pai, onde auscultavam potenciais negócios. "Estávamos lá e o meu telefone estava sempre a tocar com pedidos de chineses que queriam ver casas em Lisboa. Estava a arrancar o programa dos vistos gold e ninguém sabia muito bem quanto aquilo valia." Decidiu então abreviar a viagem e em março já andava por Pequim, contratou chineses, fez parcerias. "Até hoje, a Castelhana é líder em golden visa", orgulha-se. E se no início eram sobretudo chineses - foram 200 a comprar-lhe casa cá, todas acima de meio milhão de euros e sobretudo no Parque das Nações, só no primeiro ano, 2013 -, o mercado foi-se abrindo. Entraram os fundos americanos, os franceses, e as vendas dispararam. "Em 2015 não conseguíamos ter uma casa: se alguém gostava do que mostrávamos tínhamos de dizer que a decisão tinha de ser tomada no dia ou corria o risco de a perder." Ao entusiasmo e descoberta de Lisboa somavam-se os anos de mercado parado, em que o stock, que não era vasto na capital, se esgotou.

"As pessoas já não se lembram bem, mas havia muitas ruas em que estava tudo podre, velho, a cair. Isto parecia a Havana da Europa. Um americano chegou a perguntar-me se tínhamos estado em alguma guerra para termos a cidade naquele estado..." A bolha da reabilitação arrancava por essa altura, muito graças a Lisboa estar na moda e às medidas tomadas para incentivar o investimento privado na reabilitação. E pouco tempo correu até a Castelhana vender o primeiro prédio, o único recuperado numa Rua dos Correeiros meio envelhecida meio abandonada. Vendeu-se a 2750 euros/m2. "O meu pai ainda não acreditava naquilo, dizia que eu tinha enganado os chineses", ri-se.

Mas Patrícia sabia que fazia - além do feeling, aproveitara a crise pata tirar um mestrado em Avaliação Imobiliária e Reabilitação Urbana, com a tese a focar-se no investimento privado na reabilitação. E conhecia bem o potencial da sua cidade. A realidade confirmou-lhe a intuição. Lisboa começou a renascer. "Nessa altura cheguei a passar as noites na Rua de São Paulo, a levar chineses à Pensão do Amor para verem como era o bairro." Aquele e outros, porque além da rua cor-de-rosa, outros marcos da cidade, como o Belcanto, têm dedo seu. E ainda provou ao pai que não estava a enganar ninguém: os investimentos feitos nessa altura triplicaram de valor. Até hoje, esses compradores mantêm as casas - "menos de 2% vendeu e a maioria tem-nos em arrendamentos de longa duração". Se então, em 2014, mais de 80% dos compradores eram chineses, também se abriu o leque de nacionalidades dos compradores, que há dois anos era já de mais de 42, incluindo muitos jovens que viam Lisboa em artigos de publicações internacionais e decidiam investir, mas também residentes não habituais e portugueses expatriados. Hoje, é dinheiro português, aliás, que assegura metade das vendas, garante Patrícia Clímaco. E remata, orgulhosa: "Eu vi Lisboa a mudar. E ajudei a essa mudança! As pessoas desvalorizam o papel dos consultores imobiliários mas fomos extraordinariamente importantes nessa mudança, na captação de investimento para o país."

A arte vai ter sempre lugar

A dona da Castelhana acredita que há um segredo que alimenta o seu sucesso: o facto de trabalhar com os promotores, os arquitetos, de chegar cedo aos projetos, ajustá-los e moldá-los ao que sabe que os clientes querem e aos preços que esses clientes podem pagar. "Normalmente, entramos com dois anos de antecedência. Damos inputs, é uma relação superinterativa."

E na atual crise houve contração? A gestora garante que muito pelo contrário: "Têm sido dos melhores anos. O que se entende, porque nesta pandemia a casa saiu rainha; as pessoas sabem que vão estar mais tempo em casa, trabalhar em casa, querem espaço para os miúdos estudarem, para o casal ter alguma privacidade, vende-se muito o conceito de áreas +1. E também os espaços livres, abertos, e os condomínios com amenities como piscina, jardim ou ginásio", explica.

Grande parte desse negócio feito em pandemia, fê-lo graças à aposta digital. Conta que lançou o empreendimento Vale Rio em pleno primeiro confinamento e à distância vendeu 37 apartamentos em 8 horas. "Ultrapassou todas as expectativas", assume. Lançou há poucas semanas mais dois que saíram com igual facilidade: do Duo no Campo Pequeno, a 6200 euros/m2 voaram 50 casas numa semana. Um terço dos negócios que faz, conta, vem de parcerias internacionais, incluindo a exclusiva com a CBRE e outras 3 mil, incluindo 500 internacionais, alimentadas com roadshows e feiras - agora em webinar. E acredita, tendo em conta o investimento contínuo, que as mudanças legislativas em curso para o setor não terão grande impacto. "O que mudou foi o tipo de compra dos chineses, que antes vinham cá e se apaixonavam e faziam negócios mais afetivos. Agora é tudo à distância e mais raciona." O que explica a redução do gasto médio desses cidadãos, que antes chegava aos 700 mil euros e agora está a metade. Ainda assim, "quem quer e pode ter uma casa na Avenida da Liberdade, vai sempre comprar". O que já não é verdade nas transversais, que estavam a ser compradas sobretudo por portugueses para arrendamento de curta duração e deixaram de ter relevância com as zonas de contenção e as restrições ao Alojamento Local. "Aquilo era um bom complemento salarial para muitas famílias, mas deixando se poder fazer negócio, os portugueses deixam de olhar para essas zonas", garante Patrícia. E conclui: "Pôr as pessoas todas a viver no centro da cidade é um mito."

Essa vontade, a par do fim do regime especial para a reabilitação urbana, teme que possam fazer voltar a recuperação de Lisboa aos 6% a 8% que era a fasquia há uns anos, e que duplicou. A proporção já está mesmo a cair, para os 12%. E a burocracia e obstáculos legislativos, de licenças, camarários e afins têm desincentivados que ainda olham essa como uma opção. A maioria, porém, virou-se para a construção nova. "É muito mais simples comprar um terreno em Oeiras ou na alta de Lisboa e fazer de raiz", explica Patrícia.

Já com os cafés na mesa, conta-me que a sua vida, quando não está a viajar ou a trabalhar - o que tenta sempre, tendo chegado a fintar os confinamentos mundiais durante a pandemia, escapando-se para onde as coisas estavam menos perigosas e restritas -, se faz pelo Príncipe Real, onde agora já se passeia e toma um copo ao fim da tarde, nesta Lisboa agora aprazível, como a Madrid que recorda ou a Singapura onde adorou viver.

Hoje não trocava Lisboa por qualquer outro sítio do mundo - mas gostava de voltar a fazer voluntariado, como aos 24 anos, de ajudar quem não teve a sorte de nascer num sítio e numa família que lhe permitam chegar tão longe quanto ela chegou. Dar mais de si. E aos 45 anos guarda ainda o sonho que lhe entrou na cabeça aos 14: ser galerista. Foi em arte que gastou a totalidade do primeiro salário que recebeu na vida e nunca se desapaixonou. "Ainda vou ter uma galeria aqui em Lisboa", garante, a abarcar a cidade de cima e a imaginar o seu precocemente comprado Vihls numa das paredes. "É assim que me vou reformar, daqui a uns dez anos."

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