Pandemia. "Os riscos de retrocesso na igualdade de género são elevados"

A afirmação é de Sandra Ribeiro, presidente da CIG, durante o debate promovido esta manhã pela Confederação Empresarial de Portugal sobre equidade no mercado de trabalho. Líderes de grandes organizações nacionais discutiram medidas para acelerar a transformação na sociedade.

Apesar de existir quem desvalorize a importância de discutir temas como a igualdade de género no Dia Internacional da Mulher, assinalado esta segunda-feira, Sandra Ribeiro defende que, este ano, a celebração "ainda é mais importante" pelos efeitos da pandemia sobre as mulheres. "Os impactos socioeconómicos da pandemia estão a ser muito mais devastadores para as mulheres do que para os homens", alertou a presidente da Comissão para a Igualdade Género (CIG) no debate promovido esta manhã pela Confederação Empresarial de Portugal (CIP).

A conversa, que contou com moderação da diretora do DN, Rosália Amorim, juntou líderes femininas e masculinos para discutir os desafios das empresas portuguesas no que respeita à diversidade da força laboral. Através de uma mesa-redonda virtual, personalidades como Isabel Barros (Sonae MC), Isabel Vaz (Luz Saúde), Jorge Magalhães Correia (Fidelidade), José Luís Arnaut (ANA Aeroportos), Paulo Macedo (Caixa Geral de Depósitos) e Salvador de Mello (Grupo José de Mello) partilharam experiências e medidas que promovam a igualdade.

Sandra Ribeiro, que participou na abertura do evento, fez questão de sublinhar que "os riscos de retrocesso na igualdade de género são elevados" em tempo de covid-19, nomeadamente no emprego. Aliás, de acordo com dados do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), as mulheres ocupam o maior número de desempregados inscritos. "Sei bem que há quem revire os olhos quando se fala em igualdade de género no trabalho", afirmou a presidente da CIG, defendendo o impacto positivo de uma sociedade mais equilibrada no crescimento económico. Para lá chegar, diz ser necessário aumentar a presença feminina nos cargos de gestão e decisão das empresas, um caminho que reconhece ter vindo a ser percorrido ao longo dos últimos anos.

Isabel Barros, membro do conselho executivo da Sonae MC, admite que existe um "desequilíbrio que precisa de ser restabelecido" que só será possível atingir com a mudança de "comportamentos e mentalidades". A gestora disse ainda que conceitos como "women take care e men take charge" estão a diluir-se com uma progressiva atenção das gerações mais novas para este tipo de questões. Jorge Magalhães Correia concorda e acredita fazer parte da "última geração de líderes" para quem o balanço entre géneros é um problema a enfrentar. O responsável da Fidelidade realçou ainda a importância de garantir a cooperação entre homens e mulheres, até porque, defende, "os homens não estão apetrechados sociologicamente para esta discussão porque não vivenciaram o problema da desigualdade de género".

Se, como defende a responsável da CIG, algumas das conquistas neste campo podem estar ameaçadas, Isabel Vaz diz ser importante recordá-las em permanência, em particular em datas como o Dia da Mulher. "Costumo dizer à minha filha que, não há muitos anos, a avó não podia sair do país sem autorização do avô", lembra.

Quotas impulsionam a mudança

Sandra Ribeiro aponta a implementação da lei das quotas, em 2017, como um catalisador para uma progressiva igualdade de género nas empresas. "A presença feminina nos órgãos de administração passou de 18% em 2018 para 22% em 2019 e hoje chega quase aos 30%", diz. O desejado crescente papel das líderes na cúpula das organizações traduz-se com números concretos e reais de instituições como a Vinci, que gere a ANA Aeroportos. De acordo com José Luís Arnaut, "em 17 lugares da administração, sete são mulheres", um sinal de que o grupo olha a diversidade como "uma vantagem competitiva" num setor tradicionalmente masculino.

A Caixa Geral de Depósitos (CGD) é outro dos exemplos da transformação. "Na CGD, mais de metade dos colaboradores são mulheres, assim como na gestão intermédia e quando chegamos à gestão de topo temos cerca de 28% de líderes femininas", esclareceu o presidente Paulo Macedo. Ainda que admita não conseguir fazer uma distinção entre o sucesso da paridade de géneros nas empresas públicas e privadas, o gestor não tem dúvidas de que são elas quem, nos processos de recrutamento, "sobressai claramente em termos de competências". O antigo ministro da Saúde sublinha a importância de "ter um plano, querer convergências e ter políticas concretas" para garantir uma estrutura mais atenta às questões da diversidade.

Para Arnaut, é essencial que as organizações apostem em medidas de equilíbrio entre a vida profissional e pessoal, mas também no apoio "à maternidade e paternidade". O presidente executivo do Grupo José de Mello complementa a ideia defendendo a necessidade de "assegurar condições de trabalho que permitam às mulheres desenvolverem-se" e exemplifica com o esforço realizado em empresas como a Brisa. "Queremos ter as principais empresas do grupo certificadas como familiarmente responsáveis", diz.

Continuar a discussão

A CIP cumprirá o papel de apoio e fomento que lhe compete, afirmou António Saraiva, relembrando a criação do programa Promova para o "desenvolvimento de talentos femininos para funções em altos cargos de direção". Comprometida com a transformação no seio das empresas, a instituição vai promover ao longo do próximo ano um conjunto de conversas mensais, no dia 8 de cada mês, sobre o tema para "que o debate da igualdade não se faça apenas hoje, mas que seja uma realidade todo o ano".

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