Pais portugueses solidários com greve aos TPC em Espanha

Confap compreende e subscreve preocupações da congénere espanhola mas diz que não pensa fazer um protesto semelhante

"Solidários" e igualmente convictos de que "é preciso repensar" o sistema. É esta a posição da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap) em relação à greve aos trabalhos de casa ao fim de semana que a sua congénere espanhola - a CEAPA - convocou para todo o mês de novembro. O Ministério da Educação português afasta, para já, a hipótese de intervir nesta matéria.
"Esta é uma discussão importante. Pela qualidade do tempo, quer nas escolas quer em casa com as famílias", admite ao DN Jorge Ascenção, presidente da Confap, confirmando que o assunto tem estado na ordem do dia, quer no interior das associações de pais quer no diálogo com os parceiros educativos, mas admitindo que o tema do possível excesso de trabalhos para casa não é consensual. "Conversamos com representantes de professores e há a ideia de que é preciso repensar", diz. "Mas nem todos pensam da mesma forma. Também há famílias que acham que os trabalhos de casa são muito importantes", reconhece.

As preocupações das associações de pais espanholas são subscritas pelas portuguesas que no entanto afastam a hipótese de poderem vir a tomar posições semelhantes: "Estamos solidários com a nossa congénere espanhola, independentemente de agirmos ou não com medidas idênticas, mas a preocupação é semelhante", explica, acrescentando que a preocupação dos pais portugueses não se centra apenas na questão dos TPC e, antes, na necessidade de ser feita uma reflexão sobre o que deve ser prioritário no trabalho com os alunos. "É preciso repensar. Olhar para os programas, falar com as escolas, há uma série de fatores que devem ser ponderados para se perceber o que é verdadeiramente importante no processo educativo."

O Ministério da Educação, recorde-se, criou um grupo de trabalho para debater a definição de "currículos essenciais", dando indicações às escolas e aos professores sobre os elementos dos programas que devem ter tratamento prioritário e dando-lhes margem para gerirem parte do tempo letivo com maior autonomia, dedicando-o por exemplo à consolidação de conhecimentos, trabalho individual com os alunos e ao maior desenvolvimento de outras competências para além da memorização.

No entanto, questionado pelo DN a esse respeito, o gabinete do ministro Tiago Brandão Rodrigues assegurou que "não está prevista qualquer alteração" no que respeita a indicações às escolas sobre os TPC.

Quatro horas semanais

Em Espanha, de acordo com o relatório de 2012 dos testes PISA, da OCDE, os alunos passam em média seis horas por semana a fazer trabalhos de casa. Os estudantes portugueses, segundo o mesmo relatório, dedicam quatro horas semanais a estas tarefas.
Esse estudo - o próximo relatório PISA será divulgado ainda neste ano - associava também o maior número de tempo passado a realizar trabalhos de casa a desempenhos mais elevados na matemática.
No entanto, uma análise mais detalhada dos dados - promovida pelo projeto aQeduto, do Conselho Nacional de Educação, e divulgada em julho deste ano - revelou que "a nível agregado [das diferentes áreas avaliadas nos testes PISA], não se observa uma relação entre maior número médio de horas dedicadas à realização de trabalhos de casa e score médio dos países.

Entre os argumentos da confederação de pais espanhola contra os TPC está o facto de estes colidirem com o princípio do "desenvolvimento integral" das crianças, por lhes retirarem tempo para brincar livremente e estar com a família e os amigos. Um argumento subscrito, por exemplo, pelo psicólogo Eduardo Sá, que tem sido um ativo crítico de práticas que diz fazerem das crianças "modelos normalizados".

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