Overdoses de drogas e álcool causaram a morte a 77 pessoas

Heroína provocou 52% das mortes e a canábis 30%. João Goulão (SICAD) defende as salas de chuto, depois de anos a recusá-las

Quarenta pessoas morreram por overdose de drogas em 2015 e 37 por intoxicação com álcool. São 77 mortes, no total, mais de seis por mês por causa dos excessos com estupefacientes e com bebidas.

No caso das drogas, verificou-se um aumento de 21% das mortes por overdose face a 2014. Já os casos de intoxicação mortal por álcool diminuíram de 44 em 2014 para 37 em 2015 e, em 51% das situações, foram causados por bebida apenas (sem misturas).

Por detrás do aumento das mortes por overdose de drogas está a substância que regressou em força às ruas: a heroína. Misturada com outras substâncias, tomada isoladamente ou com álcool, a heroína foi responsável por mais de metade (52,5%) das mortes por overdose com drogas, 21 no total. Logo seguida pela canábis, que causou 30% dos óbitos por overdose, num total de 12, superando por um óbito a cocaína (27,5% dos casos, num total de 11).

"Temos um regresso da heroína nos últimos anos, de uma realidade das ruas que se via há 20 anos no Casal Ventoso, mas também um regresso da cocaína e da cocaína injetável", admitiu, em declarações ao DN, o presidente do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), comentando os relatórios anuais divulgados ontem, pelo serviço que dirige, em matéria de drogas e álcool.

Salas de chuto já fazem sentido

"Na população mais velha, dos 40 anos para cima, com um passado de portas giratórias no mundo da droga, de entrada e saída de tratamentos, que viu as suas condições de vida piorar nos últimos anos, há um "rebound" dessa realidade". João Goulão sublinha que é preciso "ir buscar soluções inovadoras" e até admite a resposta das "salas de consumo assistido", ou salas de chuto, uma ideia que já tinha rejeitado há uns anos. "Deixei de defender as salas de chuto nos últimos anos porque assistimos a uma queda quase vertiginosa dos consumos por via injetável. Agora, com base no pragmatismo que sempre me orientou, temos de ter abertura para voltar a pensar nessa ideia".

Canábis mata mais adultos

Os óbitos revelam, para além do fator heroína, que foi a primeira vez nos últimos cinco anos que se registou um número tão elevado de mortes por overdose por canábis, ainda que misturada com outra substâncias. Como referem os registos do Instituto Nacional de Medicina Legal , citados no relatório, em 30% das overdoses de 2015 foi detetada a presença de canábis em 12 casos, em associação com outras substâncias. Mais: cerca de 45% dos casos tinham idades iguais ou superiores aos 45 anos e 18% idades inferiores a 35 anos. É muito, sobretudo quando se olha para trás: em 2014, 2013, 2012 e 2011 registaram-se, respetivamente, 8,4, 1 e 3 casos de overdose com a presença de canábis. Entre 2008 e 2010 não houve sequer um único caso, como refere o relatório.

Também foi em 2015 a primeira vez que a cocaína foi ultrapassada pela canábis como agente causador de overdoses mortais. Em 2014 a cocaína tinha sido responsável por 63,6% dos óbitos por overdose, tendo causado então a morte a 21 pessoas (um número que caiu para metade em 2015).

Por todos estes motivos, a popular "erva" - a droga preferencialmente consumida pelos portugueses e a que os jovens atribuem um menor risco de saúde - merece particular atenção. "A canábis era considerada uma droga leve mas está longe de o ser", frisa o presidente do SICAD. "Há hoje diferenças significativas da concentração de THC [substância ativa] nos produtos de canábis comparativamente ao que havia no passado". Uma boa prova disso, sublinha,"é a quantidade de pessoas nos centros de tratamento para ultrapassar a dependência da canábis".

Como refere o relatório, na procura de tratamento por problemas relacionados com o uso de drogas, "pelo quarto ano consecutivo, a canábis surgiu como a droga principal mais referida (51%) pelos novos utentes do ambulatório" - por 806 utentes.

O psiquiatra Luís Patrício, ex-diretor do Centro das Taipas, que continua a intervir nos comportamentos aditivos, garante que "a perceção e constatação do incremento de consumo de álcool, canábis, cocaínas e substâncias sintéticas e de outros comportamentos de risco aditivo sem substancias é inegável, para além do que aparece nos números oficiais". Também já concluiu "há muito mais recaídas e internamentos". Luís Patrício desenvolveu o projeto Mala da Prevenção, para educar jovens, pais e profissionais para os riscos das drogas.

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