Os turistas estão a voltar a Alfama, mas gastam menos que antes da pandemia

Os comerciantes do bairro voltaram a trabalhar bem com o fim das restrições de combate à pandemia. Mas sem chegar aos números de 2019, o que sentem ser difícil, até porque a doença mantêm-se. E há a guerra na Ucrânia. Os dados oficiais confirmam.

O nome "Cristiano Ronaldo da angariação" assenta-lhe bem. Teresa Duarte conquista clientes para os restaurantes de Alfama e estes pagam caro pelo seu "passe". Conhece bem o bairro e tem uma abordagem diferente: pergunta aos turistas se precisam de ajuda e, se for esse o caso, presta-lhes a informação de que necessitam. Quebrado o gelo, rapidamente se sentam à sua mesa. Quando lhe perguntamos se o negócio já voltou aos valores de 2019, é perentória: "Nunca mais." E justifica: "Está melhor, mas o poder de compra acabou, nunca mais se faz o que se fez."

As razões que aponta têm a ver com a pandemia, mas também com a guerra na Ucrânia. "Aquele turista alemão, mais velho, reformado, ainda não perdeu o medo da covid, receia que tudo feche outra vez." Já a guerra... fez aumentar os preços e tornou-se mais caro viajar, mas também trouxe a Portugal nacionais dos países próximos da Ucrânia, como polacos, sérvios, checos e dos países Bálticos, gastam é menos. A maioria são franceses, alemães, ingleses, austríacos, americanos e emigrantes.

Restaurantes, tascas e cafés são porta sim, porta não em Alfama, e Teresa Duarte, 63 anos, licenciada em Direito, acaba de se transferir para o clube dos espaços São Rafael e Alfama Grill. Ambos têm fado, até na esplanada, o que é criticado pelas casas tradicionais. "Onde é que já se viu o fado aos gritos? Sim, porque têm de gritar para se fazerem ouvir", reclama a fadista e proprietária da Taverna D"EL Rey, Maria Jô-Jô.

Teresa continua a a fazer o retrato sociológico de quem os visita: as idades baixaram, há muitas famílias novas e o tipo de turismo mudou. "Vão para o alojamento local, fazem as refeições em casa, até perguntam qual é a cápsula de café da máquina. Antes, o turista fazia as refeições fora, agora não." Resumindo, gastam menos dinheiro nos restaurantes e afins.

Também quer desmistificar que os passageiros dos cruzeiros sejam um bom negócio. "Têm tudo a bordo, não precisam de nada e estão cá umas horas, só se for bom para os souvenirs, para os pastéis de Belém."

Nasceu no Bairro Alto mas também se considera filha de Alfama, tanto o tempo que lá tem passado. Trabalhou na área de direito até o filho nascer, vai fazer 26 anos, tornou-se depois numa mulher dos sete ofícios, desde a formação à banca. Há cinco anos rendeu-se à angariação e acolhimento de turistas, RP (relações públicas), brinca. Gosta do que faz e ganha mais que a média dos portugueses. Quando não está bem ou tem uma melhor oferta, muda-se. "E recebo boas festas da outra parte do mundo."

Abril a junho muito bons

Maria Jô-Jô, 69 anos, é fadista, e foi para cantar que entrou pela primeira vez no Taverna D"EL Rey, logo à entrada de Alfama, quem sobe do lado do Museu do Fado. A casa passou para a família em 1978 e é ela a gerente. Está aberta entre as 18h00 e as 2h00 e a garantia de uma mesa para jantar exige reserva. Não se queixa de falta de clientes. Tem 14 empregados, além dos artistas que atuam todas as noites, onde a patroa se inclui.

"Estamos abertos todos os dias e estamos sempre cheios, finalmente voltámos a trabalhar", exclama Maria Jô-Jô. Este ano tem um painel mais amplo de nacionalidades, mais turistas oriundos dos EUA, Canadá, Países Baixos , etc., e há os que vêm sempre: brasileiros, espanhóis, franceses e alemães.

Julho foi um mês bom, mas os anteriores foram melhores. A fadista confirma a perceção dos condutores de tuk-tuk: "Esteve muito bom entre a Páscoa e os Santos Populares [abril a junho, inclusive], agora está mais calmo. Mas os números não têm nada a ver com os tempos da pandemia, segundo dizem os meus colegas", explica Diogo Carvalho, 29 anos. Tirou o curso de piloto em plena crise de covid-19, ficou literalmente sem asas. O turismo é a fonte de rendimentos, enquanto a aviação civil não retoma em pleno. Começou nos tuk-tuk no início do ano.

Já Vasco Gomes, 29 anos, tem sete anos de experiência. Nos meses em que Lisboa parou teve de se agarrar às duas rodas e entregar comida. Voltou no final de 2021, quando os turistas apareceram, sobretudo a partir do momento em que o país abriu totalmente as portas nos aeroportos.

"Está melhor, mas ainda não voltou aos valores de antes da pandemia", resume Vasco. Ainda assim, dá-lhe um "salário acima da média" e liberdade. "Não podemos esquecer que é um trabalho sazonal, ganha-se no verão para sustentar o inverno", adverte. Quanto a valores, responde que "depende dos anos".

O tour mais pedido é a parte histórica, uma hora que tem um preço de 80 euros, mas que pode ser negociado, sobretudo quando há menos procura. A Sé Catedral é um dos pontos de eleição e é a entrada em Alfama de quem vem do Rossio. Ruas e ruelas que também têm direito a guia turístico para as descrever: os seus encantos e edifícios com história, em especial as igrejas.

É segunda-feira, passam das 19h30, Vasco Gomes terminou o dia precisamente na rua da Sé; começou às 9h00. No café meteu conversa com duas espanholas, vai levá-las àquela que afiança ser a melhor vista de Lisboa: o Miradouro da Senhora do Monte, na Graça.

As valencianas (Espanha) Yolanda Prates, cabeleireira, e Carolina Sebastian, funcionária pública, agradecem a boleia. Têm ambas 49 anos, estão no segundo dos quatro dias de visita a Lisboa. Primeiro estiveram no Funchal, destino de férias a conselho de uma amiga. Estão encantadas. "Gostámos muito da Madeira, Lisboa é muito bonita, adoramos a comida, as pessoas, o clima, tudo."

Mesmo junto à Sé está Shahid Safi, 46 anos, metade dos quais vividos em Portugal, já é cidadão português. Nasceu em Selkot, no Paquistão. Pinta e vende ali há 12 anos, e o forte são quadros em azulejo. Não está satisfeito. "Há muitos turistas, mas são turistas low cost, têm pouco dinheiro. Vendia muito mais antes da pandemia." Os quadros do tamanho de dois azulejos custam 30 euros, os maiores 75. Vendeu um dos mais baratos nesta segunda-feira, que é capaz de ser o dia mais fraco.

Vai uma ginjinha?

No Largo do Chafariz de Dentro está a banca de Olga São João, 73 anos. Pergunta a quem passa se vai uma ginjinha, mas não lhe fazem a vontade. Talvez porque é a primeira paragem de quem sobe para o bairro, ou a última de quem desce, e é impossível contar tantos são os estabelecimentos onde a podem beber.

A "ginjinha da Olga" é fabrico caseiro de um tio. "Não tem estado muito bom, já não vem tanta gente como antes da pandemia, vai ser difícil recuperar, os restaurantes trabalham bem à noite, mas durante o dia não fazem nada."

Outros locais, outras ginjinhas, estão mais confiantes, com a ressalva de que os números ainda não voltaram a 2019. Mas um euro o copo simples, e 1,5 num copo de chocolate, não é conta de monta, sobretudo se o líquido for bom.

Carlos Dias, 68 anos, voltou à felicidade de ter turistas à porta, estrangeiros de várias nacionalidades, mas também muitos portugueses. É a Varandinha da Tia Anita, bem no centro do bairro, junto ao Largo de São Miguel, onde tudo se passa, especialmente durante as festas dos Santos Populares. Licor fabricado pelo próprio. "Já há muita gente que vem diretamente à Varandinha", garante. Serve ainda Porto e outras bebidas.

"O movimento de turistas não tem comparação com o que era antes da pandemia, mas sente-se que está a melhorar. Em junho não tive razões de queixa", diz Carlos, a quem os visitantes melhoraram os rendimentos. Mas "o turismo faz falta, o que não faz falta é correrem com as pessoas do bairro".

O Turismo de Portugal indica a retoma, ainda com valores inferiores a 2019. Entre janeiro e maio, inclusive, 8,6 milhões de hóspedes alojaram-se em unidades hoteleiras do país, divididos por 4,8 milhões internacionais (55,8 %) e 3,8 milhões nacionais (44,2 %). Representam menos 900 mil (9,4%) do que em igual período de 2019, mas praticamente triplicaram em relação ao ano passado. Um resultado alcançado sobretudo com a vinda de estrangeiros, oito vezes mais do que em 2021.

As contas para os concelhos da Área Metropolitana de Lisboa denotam melhorias, mas não tão notórias como na generalidade do país. Recebeu 2,6 milhões nos primeiros cinco meses do ano, menos 16, 1% do que em igual período de 2019 (3,1 milhões). O mês de abril (Páscoa) foi o que teve menos quebras comparativamente a 2019, apenas caiu de 697.925 para 673.247.

Europeus lideram

As principais nacionalidades dos estrangeiros que pernoitaram em Portugal foram o Reino Unido, Espanha, França, Alemanha, Estados Unidos e Brasil, quase idêntico a 2019. A diferença é que antes da pandemia havia mais brasileiros do que estado-unidenses.

A Alemanha é a origem de dois casais de turistas a quem convenceram que os caracóis são o melhor petisco, regados com cerveja. Conchita Lourenço, 56 anos, com mãe portuguesa e pai espanhol, é a autora do desafio. O marido, Olaf Hahu, 53 anos, fica-se pela cerveja. Os amigos Meier, Claudia, 50 anos, e Olaf, 55, provam e gostam. "Good, good."

Vivem em Unna e resolveram fazer um cruzeiro num navio que leva cerca de cinco mil pessoas a bordo, mais do que algumas cidades portuguesas. Começam e terminam em Palma de Maiorca. Conchita está feliz em mostrar as suas origens, a mãe nasceu na Azambuja e emigrou para a Alemanha. "Venho a Portugal sempre que posso, é pena só podermos estar um dia em Lisboa [das 16h00 às 16h00, com dormida no navio], mas já dá para ver alguma coisa. Começámos por Alfama, amanhã pensamos ir até Belém, ver os Jerónimos e comer pastéis de nata."

Sentados numa das escadarias que sobe até à Graça, o casal austríaco Marie Fritz e Christhophe Ebna, ambos com 31 anos e professores, ele de pessoas com necessidades especiais, recuperam o fôlego. É o segundo dia de quatro na capital portuguesa e têm aproveitado para a conhecer a pé. "É uma cidade muito bonita, com muitas subidas, escadas, com ruas pequenas e estreitas", descreve Christhophe.

Vêm numa viagem de duas semanas, que começou em Faro. Também querem visitar o Porto e Peniche. "É um país muito bonito, com praias e bom tempo. As pessoas são muito simpáticas, ajudam quando precisamos. Ah, e adoro o sumo de laranja", avalia Marie.

Os estrangeiros não são apenas turistas. Cristina Rossi, 33 anos, trocou há sete meses Milão por Lisboa. Trabalha para uma agência e acompanha os grupos italianos, nacionalidade estrangeira que foi a oitava no país, com cerca de 200 mil hóspedes nos primeiros cinco meses de 2022. Veio trabalhar para um call center, não gostou. "Todo o dia agarrada ao telefone para ganhar 600 euros, não. Como guia turística, estou com pessoas, conheço a cidade, os bairros históricos, como Alfama." Passeio ao ar livre, há melhor que isto?
ceuneves@dn.pt

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