Olivais, ou a cidade revolucionária na Lisboa salazarista

Urbanismo. No Portugal de Salazar, uma experiência radical modernista sonhou uma urbe do futuro. Torres no meio de um parque, árvores e jardins planeados a par com os edifícios, uma ideia de felicidade, intercâmbio e comunhão social. Resultou? Quase 50 anos depois, o DN ouviu os filhos do bairro

"Foi um bairro feliz." Miguel Guilherme, ator, 57 anos, viveu lá dos oito aos 27, "num prédio enorme, branco, na Rua Cidade da Beira, numa casa grande, com uns 150 metros quadrados, muito bem construída. Havia jardins lindíssimos, lagos, para criar bem estar na população e por preocupação estética. Mas as pessoas crescidas não usavam. Nunca se sentavam na relva, não passeavam, muito menos corriam - na altura ninguém corria. Mas nós usávamos muito os espaços verdes e era maravilhoso. Passei anos na rua. É no que penso mais quando penso no bairro: brincar na rua." E no cheiro: "Era sempre a relva cortada, molhada."

Era ele, a mãe, separada do pai (que Miguel diz "nunca ter sabido muito bem o que fazia), um irmão e uma irmã. Não sabe como é que, ou porque é que, foram morar para lá. "Aquilo teoricamente era um bairro social, mas acabou por não ser bem, porque havia muitos médicos, muitos juízes, classe média e média alta. Não sei a ideia era misturar, porque também havia pessoas muito pobres. Mas essa mistura nunca aconteceu, havia uma separação. E havia uma zona a que chamávamos "a aldeia dos macacos" onde não se podia passar senão éramos espancados. Mais tarde, depois do 25 de abril, durante o PREC, acabei por ficar amigo de alguns, por razões políticas."

Aliás, mesmo nos próprios prédios a ideia de comunhão, troca e mistura nunca chegou a funcionar. "Foi a última grande obra do regime, mas era um projeto revolucionário, de acordo com o modelo nórdico. Todos os prédios tinham uma sala de convívio. E estavam vazias, ninguém sabia para que é que aquilo servia."

O arquiteto Manuel Graça Dias contextualiza: "A dada altura, Keil do Amaral e Fernando Távora pedem dinheiro a Salazar para fazer um levantamento, de norte a sul, da arquitetura portuguesa, porque o regime tinha aquele mito de que existia um modelo. E conseguem provar que mesmo num país tão pequenino havia uma enorme diversidade. Isso foi fundamental para abrir caminho para a possibilidade de se fazerem projetos modernos." É sob a influência da Carta de Atenas, um documento dos anos 30, pré Segunda Grande Guerra, que resultara de um congresso de arquitetura no qual se debateu a cidade do futuro e que teve lugar num paquete ao largo da cidade grega, que surge o projeto Olivais, pensado para uma zona de quintas (com muitos olivais, naturalmente) na zona oriental de Lisboa, onde já fora construído o bairro da Encarnação (composto por moradias) e um pequeno núcleo urbano, que ficou crismado como Olivais velho.

"A carta, que foi muito importante a seguir à guerra por servir de base para a reconstrução de cidades que tinham sido arrasadas, era contra a cidade tradicional, as ruas estreitas, fazia um corte radical", explica Graça Dias. "Os Olivais foram construídos com base nessa ideia, a de torres num parque. Com estradas serpenteantes, caminhos para as pessoas longe dos caminhos dos automóveis. E há belíssima arquitectura: chamaram os melhores arquitetos da época. Só que a arquitetura só não chega. Aquela ordenação da cidade sofre de vários equívocos, mas tinha de se experimentar, tínhamos de ter uma zona baseada na Carta de Atenas. O modernismo corta com a cidade histórica, e era preciso fazê-lo, mas caiu num certo exagero. Porque aquilo acaba por ser um bocado inóspito, apesar do verde e do parque. Além de que qualquer lisboeta que não tenha nascido nos Olivais perde-se sempre lá."

Para não falar do facto de ser, objetivamente, face ao resto da cidade, um subúrbio - mesmo se à época a palavra não era usada. Zé Pedro, músico , o célebre Zé Pedro dos Xutos e Pontapés, outro nativo do bairro, reconhece que se sentia longe de tudo. "Não sabia bem o que era um subúrbio, mas sentiamo-nos fora da cidade. Era uma aventura ir lá, de autocarro. Agora já não, a cidade já chegou ali."

A sua família, com sete filhos (seis rapazes e uma rapariga) foi das primeiras a mudar-se para o bairro, quando Zé Pedro, agora com 59, tinha seis ou sete anos e ainda estava tudo em construção. "O nosso era um de quatro prédios iguais. O meu pai era militar, oficial, e havia um prédio só com oficiais, mas no meu também havia médicos e juízes. Havia muito essa divisão: também havia a zona dos sargentos. Eu dava-me mais com os filhos dos oficiais. Os filhos dos sargentos davam-se com os filhos dos sargentos, os dos cabos com os dos cabos. Havia um espelhar das classes sociais ali no meio." Elogia a casa, "que era boa e grande" e o bairro, "bastante bonito, arejado. Gostava muito e fiquei agradecido por poder viver num bairro daqueles."

A jornalista Ana Sousa Dias, 59 anos, também filha de um oficial (major à época), vizinha de Zé Pedro, chegou com oito anos. "O prédio onde vivíamos era dos Serviços Sociais das Forças Armadas [vários prédios pertenciam a obras sociais ou corporações] e as casas eram atribuídas pelo número de filhos." Só na escola primária, construída de raiz no bairro, houve mistura de classes. "Nós de algum modo crescemos contra essa estratificação que mesmo ali, onde era suposto quebrar-se, estava tão clara."
Nessa fase inicial, em que havia ainda muito poucas lojas e o grande supermercado Pão de Açúcar que abriu antes do 25 de Abril ainda não existia, era preciso, conta Ana, ir ao mercado fazer compras. "Depois começaram a aparecer as mercearias à volta das praças. Até lá só havia no bairro da Encarnação, de era de moradias e mais antigo, feito para os quadros do regime." Reflete: "Os Olivais são um bairro precursor em termos de urbanismo. É engraçado pensar que isso sucedeu em pleno regime fascista, e tem a ver com o facto de haver à frente da Câmara pessoas com ideias mais arrojadas. Há momentos históricos em que é possível planear uma cidade. Aconteceu muito mais tarde com a Expo 98 e o Parque das Nações."

Hoje, a nostalgia combina-se com desencanto. "Foi um bairro que se foi degradando. Não sei se gostava de lá viver. Passo lá às vezes porque tenho um filho a viver na Expo." Miguel Guilherme, cuja mãe morreu em 1994, sendo a casa então vendida, tende a concordar. "Às vezes vou lá ainda. E acho que aquilo tem cada vez mais prédios. Era inevitável que acontecesse qualquer coisa. Há partes ainda intocadas mas as zonas verdes estão muito abandonadas." Mesmo assim, quando recentemente lhe perguntaram qual o seu sitio preferido, indicou o Vale do Silêncio, a zona mais arborizada, de parque, pensada para o bairro como a grande área de lazer.

A "cumplicidadezinha" que Ana Sousa Dias diz haver entre quem viveu no bairro - e que deu mesmo origem a pelo menos um blogue, o Olivesaria -, é testemunhada com entusiasmo e militância pelo advogado Rogério Alves, 54 anos, outro oliverense (poder-se-á dizer assim?). "O meu prédio continua a fazer jantares, todos os anos. Chegamos a ser 100, desde polícias [o pai do ex-bastonário era polícia] a juízes, empregados de seguros, médicos, estilistas - o João Rolo, por exemplo, era meu vizinho."
Aquilo a que Alves chama "espírito gregário" marcou-o, como, pelos vistos, aos restantes habitantes do prédio. "Formei muito da minha personalidade ali. E o facto de as ruas serem muito para as pessoas, não serem para os carros, haver muitos espaços para brincar, permitiu que o espaço público físico se transformasse num espaço público vivo, um espaço em que se criava intimidade, cumplicidade." O discurso ganha balanço. Conta como foi ali, nessa ágora, nos debates com o grupo, que ganhou à-vontade, se habituou a falar em público. "A partir de uma certa altura fazíamos debates. Falava-se de deus, de droga - houve uma altura em que apareceram as drogas ali - sentido da vida, estudar ou não estudar. Aquilo era um recinto de vida a sério, fervilhava muito ali."

Hoje, discorre, "se calhar não seria possível fazer este bairro. Seria considerado discriminatório por acantonar as pessoas por profissões, porque as casas iam sendo melhores à medida que se subia na escala social." Afinal, apesar do aspeto revolucionário do desenho e do idealismo que lhe estava subjacente, "o ADN da corporatização e da guetização", que caracterizavam a sociedade pré-democrática, "estava ali presente, naquela mini câmara corporativa. Mas mesmo assim acabou por ser possível alguma mistura."

Até porque veio outro tempo, outro vento, e toda a sociedade mudou. Nascido em 1961, no ano do início da guerra colonial, aquele em que os primeiros habitantes dos Olivais novos chegaram, o advogado saiu "aos 20 e picos". Nunca mais regressou (houve quem o fizesse), mas foi para perto - mora em Sacavém, ao pé da Expo, numa zona que descreve como "muito arborizada", semelhante de algum modo àquele que assume como o "seu" bairro, uma espécie de primeiro amor. "Não tem nada a ver com muitos outros bairros que também têm carisma e pedigree, mas adoro os Olivais. Gosto tanto que preciso de lá passar. Muitas vezes, por exemplo quando vou para o Campus da Justiça, desvio a minha rota e lá vou eu."

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