Oito mil grávidas vacinadas contra a tosse convulsa em dois meses

Problema de produção a nível mundial fez que a prioridade esteja a ser dada a mulheres com 30 ou mais semanas de gestação. Taxa de cobertura da vacinação é superior a 95%

Nos dois primeiros meses deste ano oito mil grávidas foram vacinadas contra a tosse convulsa. O que ultrapassou as expectativas da Direção-Geral de Saúde no que diz respeito a esta indicação que surgiu no Programa Nacional de Vacinação, em janeiro. Estes dados, conhecidos numa altura em que se volta a falar da importância da vacinação com o aparecimento de dois casos de sarampo em Portugal e a notificação de mais de 500 na Europa e o registo de 126 pessoas com hepatite A no país desde o início do ano, são considerados positivos pelos responsáveis da DGS.

"O Programa Nacional de Vacinação (PNV) 2017 está a decorrer conforme o previsto: elevada adesão da população, como se tem verificado ao longo dos seus 51 anos de existência", destacou Teresa Fernandes, da equipa de coordenação do PNV da DGS, lembrando que Portugal tem "dos melhores resultados a nível mundial" (taxa de cobertura superior a 95%). Com uma aposta "na vacinação mais precoce na vida (ex: durante a gestação), em maior simplicidade dos esquemas de vacinação e em maior imunogenicidade (mais antigénios de HPV)", a expectativa é de que "a adesão possa ainda melhorar".

No que diz respeito à vacinação das grávidas contra a tosse convulsa, Teresa Fernandes adianta que "tem estado a correr muito bem, com elevada procura". No final de fevereiro "já se tinham vacinado cerca de oito mil grávidas no Serviço Nacional de Saúde, número acima do esperado". Este é um grupo que "normalmente não aceita facilmente a vacinação, mas até agora a vacinação da grávida está a ter muita procura, dado que se trata de uma vacina que é segura e tem o objetivo de proteger os seus filhos nas primeiras semanas de vida". Um dos problemas, adianta a responsável, é que "esta vacina tem sido fornecida com algumas limitações, determinadas por limitações de produção a nível mundial". Por isso, "está a ser dada prioridade à vacinação das grávidas com 30 ou mais semanas de gestação, sendo as restantes marcadas para essa data".

Outra novidade do PNV é a administração da vacina contra o vírus do papiloma humano aos 10 anos. "Não temos ainda números sobre a vacinação com esta vacina, mas a HPV9 veio substituir a HPV4, que tem tido uma excelente adesão, pelo que se espera resultados semelhantes, ou até melhores, uma vez que se recomenda agora a vacinação mais cedo. Esta vacina protege contra cerca de 90% dos tipos de HPV associados a cancro do colo do útero", frisou ao DN a técnica superior da Direção-Geral de Saúde.

Desde 2004 sem sarampo

Neste ano foi notificado um caso de sarampo importado da Venezuela, que "não originou casos secundários", e recentemente foi conhecido outro, "que está em investigação". Mas, ressalva Teresa Fernandes, desde 2014 que não ocorriam casos em Portugal. "O impacto das elevadas coberturas vacinais, mantidas ao longo de décadas, pela aplicação do PNV e de campanhas de vacinação, é a eliminação do sarampo e da rubéola, certificados pela OMS Europa desde 2014."

Apesar dos bons resultados, a técnica da equipa de coordenação do PNV refere que há "assimetrias a nível local em que as coberturas para a vacina VASPR são mais baixas, em algumas comunidades de difícil alcance ou com menor acesso aos serviços de saúde, pelo que têm sido tomadas medidas extraordinárias em algumas zonas do país para corrigir essas assimetrias", entre as quais a convocação para a vacinação dos menores de 18 anos que não estão imunizados. "Ou mesmo a deslocação de equipas de vacinação a determinadas comunidades com menor acesso aos serviços de saúde."

Teresa Fernandes alerta para o "risco de importação de casos de outros países, incluindo da Europa", pois trata-se de "uma doença muito contagiosa", o que levou mesmo à emissão de um alerta pela OMS. "Continuam a ocorrer mortes por sarampo na Europa."

Reativar memória das doenças

Para Mário Freitas, médico de saúde pública, "é muito preocupante" o que está a acontecer com o sarampo. Tal como o DN noticiou em janeiro, todos os anos há cerca de quatro mil crianças que não são vacinadas em Portugal. Em alguns casos, a decisão de não vacinar está relacionada com "práticas religiosas e crenças", mas, como se trata de uma doença que carece de imunidade de grupo, "se há jovens que não estão vacinados, chega a uma altura em que se colocam em risco a eles e à comunidade". Na opinião do médico, não faz sentido tornar o PNV obrigatório, "mas sim explicar às pessoas os riscos de não vacinar, que são muitos".

Nas últimas décadas perdeu-se a memória sobre doenças como o sarampo. "As pessoas deixaram de entender o risco porque não têm contacto com a doença. A geração dos nossos avós sabe bem os riscos do sarampo." Segundo o consultor de saúde pública, "a memória tem de ser reativada", pois "são doenças que num passado muito recente matavam". Mário Freitas diz que "o PNV salvou muita gente", mas o problema é que "as pessoas que foram salvas não sabem que foram salvas". E ainda existem mitos em relação à vacinação. "As redes sociais são perigosíssimas. As mentiras propagam-se à velocidade da luz".

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