As críticas de Manuel Carmo Gomes à política do governo antes de deixar as reuniões do Infarmed

Após a reunião desta terça-feira, a ministra da Saúde, anunciou que tinha sido a última participação do matemático Manuel Carmo Gomes, que deverá continuar a participar nesta equipa de peritos, mas sem apresentações públicas. Aqui fica o que defendeu o professor da Faculdade de Ciências na reunião de hoje.

Na última reunião em que participou publicamente, o matemático Manuel Carmo Gomes, da equipa da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que faz a modelação da situação epidemiológica do país, explicou que a curva de transmissão começa a descer, como argumentou, "o país está com o pé na mola", mas o acontecerá depois de retirarmos o pé? Esta foi a questão deixada pelo cientista, defendendo que Portugal deve apostar numa política de testagem reforçada, devendo ser esta a principal arma que se deve usar contra a pandemia e não o confinamento.

Aliás, o matemático argumenta mesmo que, neste momento, os portugueses começam a dividir-se entre confinamento ou não confinamento. Uma situação que poderia ter sido atenuada se o governo não tivesse optado por medidas de confinamento à noite, depois ao fim de semana, depois com escolas a funcionar. Ou seja, sem se ter optado por uma solução definitiva.

Momentos depois, a ministra da Saúde, Marta Temido, prestava declarações aos jornalistas e anunciava que esta foi a última apresentação pública do matemático. Marta Temido referiu que Manuel Carmo Gomes vai continuar a colaborar com a equipa de peritos, mas que a decisão de participar publicamente tem como razão "questões de agenda" do próprio professor.

Perante o Presidente da República, ministros, partidos e outras organizações Manuel Carmo Gomes exemplificou a sua tese como uma imagem apresentada numa das primeiras reuniões do Infarmed, que mostra como a testagem é importante. "Essa imagem mostra que o vírus SARS-Cov-2, que causa a covid-19, se comporta como "uma mola em que é preciso usar uma mão ou um pé para manter a mola pressionada para baixo, caso contrário ela dispara", nesta situação o número de casos aumenta exponencialmente.

"Neste momento, estamos a pôr o pé na mola porque estamos todos em casa (...) mas como vamos sair deste confinamento sem deixar que a mola venha por aí acima outra vez e eventualmente agravada pela presença das variantes", questionou.

No seu entender, a resposta é "uma estratégia de testagem", que inclui "três linhas vermelhas" que são "discutíveis". "Podemos mudá-las, ajustá-las, mas são três linhas vermelhas que se forem ultrapassadas, qualquer uma delas, temos que responder em força preferencialmente com um grande aumento da testagem para evitar o confinamento", defendeu.

Essas linhas vermelhas são ter um 'R' (índice de transmissibilidade) que não ultrapasse 1,1 pelo menos durante demasiados dias. Por isso, defendeu, Portugal tem ter uma percentagem de testes positivos abaixo dos 10%, sendo o ideal cerca de 5% de positividade.

"O resultado que podemos ver na percentagem de testes positivos é que enquanto em Portugal nós andamos sistematicamente atrás da incidência, e depois tivemos esta subida após o Natal, a Dinamarca conseguiu manter a percentagem de testes positivos relativamente baixa devido a esta resposta", observou.

"É preciso fazer um grande esforço para travar a importação das variantes, através de ações decisivas nos pontos de entrada e saída do país", e aumentar a vigilância que o Instituto Ricardo Jorge tem vindo a conduzir.

O objetivo é "muito simples: reduzir o número de casos muito depressa e não permitir que a curva epidémica suba", ganhando tempo para "vacinar o maior número possível de pessoas o mais depressa possível". A incidência não deve ultrapassar os 2.000 novos casos por dia, o que corresponderia aproximadamente a 1.500 pessoas hospitalizadas e cerca de 200 em cuidados intensivos.

Manuel do Carmo Gomes ressalvou que a sua exposição é "uma reflexão" que deve ser feita, olhando para estes critérios que "são muito objetivos". "Devemos publicitá-los e agir decididamente quando uma destas linhas é ultrapassada", vincou. Paralelamente, é preciso fazer "um grande esforço para travar a importação das variantes, através de ações decisivas nos pontos de entrada e saída do país", e aumentar a vigilância que o Instituto Ricardo Jorge tem vindo a conduzir.

Para Carmo Gomes, são necessárias "regras objetivas, conhecidas por todos com antecedência" acerca de quando é que se deve confinar e quando de se pode desconfinar.

"Nós fomos sucessivamente adotando medidas de contingência, estado de emergência, medidas de confinamento, fins de semana etc, e andamos permanentemente sem conseguir travar de forma definitiva o crescendo da epidemia", disse, advertindo que "a sociedade começa a dividir-se", entre os que acham que as medidas são excessivas e os que consideram que são escassas.

A justificação da ministra da Saúde

A ministra da Saúde afirmou que a saída do epidemiologista Manuel Carmo Gomes do painel de peritos que faz o ponto da situação da covid-19 no Infarmed se deveu a motivos profissionais.

"Por razões da sua vida profissional, optou por pedir para continuar a apoiar o grupo, mas não fazer apresentações técnicas", disse Marta Temido à saída de uma reunião virtual com especialistas que decorreu no Infarmed, em Lisboa.

Questionada sobre se a saída de Carmo Gomes tem a ver com discordâncias em relação à estratégia de combate à pandemia adotada pelo Governo, a ministra afirmou que "não serão essas as razões, pelo menos da parte do Governo, que colocam qualquer um dos nossos peritos ou mais presente ou nos bastidores durante algum tempo".

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