"O público português ainda não valoriza muito o design nacional"

Luís Carvalho apresentou as suas propostas para o próximo outono-inverno. O desfile aconteceu na passerelle da ModaLisboa e contou com Amilna Estevão e Maria Clara, duas modelos que começaram a sua carreira em terras lusas mas que já conquistaram o mundo da moda.

Qual foi a inspiração para esta coleção?

A inspiração foi o fundo do mar. Mais uma vez fui buscar a inspiração à natureza que é quase sempre uma referência nas minhas coleções. Inspirei-me nos animais, nas plantas, e nas espécies que habitam o fundo do oceano, através da fluidez e das formas mais ondulantes. Nas cores usei os pretos e os azuis-escuros, mas depois com apontamentos de cor que fui buscar aos corais e a alguns peixes que têm cores mais garridas.

Esta coleção também tem muitas misturas de materiais.

Sim, essa foi uma experiência nova no sentido que habitualmente sou muito mais minimalista na minhas coleções e nesta tenho muitas texturas de rendas, transparências, pérolas aplicadas. Acho que é isso que torna a coleção mais apetecível e menos monótona.

Além das sobreposições há também muitas sobreposições...

Sim isso tem que ver com o mar - é algo fluido, ondulante e por isso temos várias camadas, folhos e transparências.

É muito difícil inovar na moda, na medida em que um vestido será sempre um vestido. Como é que se supera este desafio?

Tentamos fazer sempre algo diferente com as misturas de materiais e os detalhes, acho que é aí que me vou reinventando.

As suas primeiras coleções foram muito mais simples do que estas duas últimas. Porquê?

Eu acho que esta ainda é um pouco neutra, porque tem muito preto, depois os contrastes sobretudo nos acessórios é que têm algo diferente. Isto deve-se sobretudo a algum amadurecimento e tem também que ver com o mundo que nos rodeia e as tendências. Se calhar há três anos era tudo muito mais minimal.

Qual é a diferença entre o Luís Carvalho quando começou e o de agora?

A pessoa é a mesma, o designer é muito mais maduro. A minha primeira coleção tinha 20 coordenados esta tem 45. Hoje em dia penso e construo as coleções de maneira diferente. Mas sobretudo penso muito nas minhas clientes.

Quais são as preocupações que tem na construção da coleção?

Primeiro tenho de ter vestidos de noite e vestidos mais curtos, porque é aquilo que as minhas clientes mais procuram. O passo seguinte é pensar no que quero criar e nas matérias-primas, é muito importante haver coerência na coleção, com vários coordenados com os mesmo materiais. Para contar a história é importante que funcione assim.

Qual é o principal desafio de ser designer em Portugal?

É sustentar a marca e inovar constantemente.

Porque é que é difícil sustentar uma marca em Portugal?

Porque o público português no geral ainda não valoriza muito o que é o design nacional. Claro que temos um nicho de clientes portugueses que nos procuram para momentos mais festivos, mas depois a restante coleção que vendemos em lojas multimarca é sobretudo comprada por turistas.

Acha possível ser designer em Portugal sem uma internacionalização da marca?

É possível, mas isso leva-nos a manter sempre o mesmo registo e a desenhar sempre para o mesmo grupo de pessoas - e isso não é desafiante nem para o designer nem para a marca.

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