"O problema mais complexo para Portugal é a diminuição da precipitação"

Filipe Duarte Santos, pioneiro da investigação sobre as alterações climáticas em Portugal, será um dos oradores na conferência de hoje da EDP e do DN

Foi pioneiro do estudo das alterações climáticas em Portugal. Que conclusões retira após cerca de 15 anos de trabalho do grupo de investigação que criou na Universidade de Lisboa?

Realmente tem sido um percurso já com bastantes anos. Nós começámos com um grupo bastante pequeno, o trabalho inicial que fizemos foi o relatório do SIAM 1 e SIAM 2 [Scenarios, impacts, adaptation measures]- cenários , impactos e medidas de adaptação para Portugal. O SIAM1 foi publicado em 2002 e o SIAM 2 em 2006...

E contribuíram para influenciar políticas em Portugal?

Sem dúvida que sim, porque os dois projetos foram reconhecidos pelos ministérios do Ambiente, pelas várias pessoas que dirigiram o Ministério do Ambiente desde então, e em particular pela Agência Portuguesa do Ambiente, como um trabalho pioneiro nesta área. Hoje em dia, existe uma estratégia nacional para a adaptação às alterações climáticas e existiram planos nacionais do clima, que provavelmente terão sido influenciados [pelas nossas recomendações].Recentemente foi publicado o chamado QEPIC (Quadro Estratégico da Política climática.

Quais são as principais ameaças que Portugal enfrenta devido ao aquecimento global? A subida do nível do mar tem sido um tema recorrente nos últimos tempos.

Esse é um dos problemas, a subida do nível médio do mar, que vai aumentar o risco de erosão, de perda de território, de galgamento, de inundação. Atualmente, a erosão é provocada por um défice sedimentar, porque o nível médio do mar só subiu 20 centímetros, é um valor ainda pequeno. O problema é que projeta-se que suba, até ao fim do século, mais de meio metro, entre meio metro e um metro. Temos de nos adaptar a uma situação e de nos preparar. Mas o problema que penso ser mais complexo para Portugal é a diminuição da precipitação média anual, que tem impactos gravosos, sobretudo no Sul do país, para os recursos hídricos, para a agricultura, para a s florestas, para a vinha...

Esse é um impacto que já sentimos com maior intensidade?

Sim. Desde 1960, a precipitação média tem diminuído por década cerca de 37 milímetros. Se multiplicar 37 milímetros por seis, porque estamos a falar de seis décadas, dá 222 milímetros [ao ano], que é uma número muito significativo em regiões do país em que a precipitação é da ordem de 500 a 600 milímetros anuais. Isto penso ser o mais difícil de gerir. E sobretudo também o facto de que, em Espanha, temos uma situação análoga de redução da precipitação, regiões no Sul de Espanha áridas e que vão ficar ainda mais áridas no futuro. E já há transvases, como o Tejo -Segura...

Vai crescer a disputa pelos recursos hídricos na Península ?

Exatamente. Vai haver uma tendência em Espanha para transvazar a água de Norte para Sul e, assim, corre menos água para Oeste. Ou seja: para Portugal.

Falando agora em termos globais, o lóbi que nega as evidências em torno das alterações climáticas continua poderoso?

Há artigos científicos que quantificam o que algumas grandes empresas, sobretudo ligadas aos combustíveis fósseis, têm gasto para gerar dúvidas em relação à ciência das alterações climáticas. É uma coisa que se sabe. Uma das que está nas notícias hoje em dia é a Exxon/Mobil (ver artigo).

Fala-se em corrida contra o tempo, mas as mudanças são lentas...

A principal causa da mudança climática antropogénica [causada pelo homem] são as emissões de dióxido de carbono. E cerca de 60% dessas emissões provém da queima dos combustíveis fósseis. E a humanidade, nas últimas décadas, 80% das suas fontes primárias de energia são combustíveis fósseis. Não se pode acabar de um momento para o outro com os combustíveis fosseis. É um problema difícil de resolver.

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