"O Parque Natural da Serra da Estrela é a área protegida que mais arde em Portugal"

A energia libertada pelas chamas na Serra equivale a 25 bombas da Hiroxima. Ambientalistas defendem que o dado permite avaliar a dimensão, mas o mais grave é a sua contribuição para a destruição do ecossistema e do clima.

O incêndio que destruiu numa semana parte do Parque Natural da Serra da Estrela libertou uma energia equivalente a 25 bombas de Hiroxima - 766 terajoules. Mas o que é que isso significa? A unidade de medida de energia ajuda a explicar a dimensão e intensidade das chamas mas, segundo a Zero e a Quercus, mais importante é o que destruiu no ecossistema, e levará décadas a recuperar, e a sua contribuição para as alterações climáticas. Ambas as associações defendem a avaliação do que se passou com este fogo e o que foi destruído, o que também irão fazer.

Parque tem 88 850 hectares

"Mais dramático é percebermos o que é que ardeu, o que corresponde a ecossistemas com centenas e milhares de anos, dependendo do que está em causa. Mais do que a energia em si, há um valor, em alguns casos único: paisagens, espécies autóctones, únicas, temos que avaliar as que se mantêm. Sinceramente, falar da energia associada ao incêndio é um dado interessante para se ter a noção da sua dimensão, mas o fundamental é falar dos prejuízos das pessoas, ambientais, económicos, e olharmos mais uma vez para as questões do clima", defende Francisco Ferreira, presidenta da associação Zero.

No mesmo sentido vai a explicação do engenheiro florestal da Quercus, Domingos Patacho. "Quando se fala na energia libertada no incêndio pretende-se evidenciar a sua intensidade e que poderá explicar a dificuldade no combate direto pelos meios terrestres. E mesmo os meios aéreos estavam impedidos de atuar devido a essa intensidade, que foi a explicação dada. Mais graves do que a energia libertada são as emissões de partículas e de dióxido de carbono para a atmosfera, que vai contaminar o ar e contribuir para as alterações climáticas".

Os ambientalistas defendem a necessidade de uma avaliação do que se passou esta semana, depois de as chamas terem deflagrado às 03.00 de 5 de agosto e até terem sido controladas, ao final de dia 12. Entretanto, este sábado houve um novo foco, que os bombeiros controlaram. Mas o Parque Natural da Serra da Estrela tem vindo a ser consumido pelas chamas desde 2017.

"Entre 2017 e 2021 arderam praticamente 22 mil hectares, o que corresponde a um quarto da área do Parque, este ano, são quase 15 mil. É a área protegida que mais arde em Portugal e que é muito importante. Tem geossítios classificados pela UNESCO, como o Vale da Glaciar do Zêzere e as moreiras da Lagoa Seca - com grande valor geológico e uma biodiversidade enorme - que foram afetados; tem zonas de floresta de carvalho, etc", sublinha Francisco Ferreira.

38 841 hectares ardidos desde 2017

O desmantelamento dos ecossistemas é, também, o "problema sério" dos incêndios para Domingos Patacho. "A destruição da floresta, todos os habitats que fazem parte do Parque Natural, alguns raros, é o pior. Também tem a ver com a falta de absorção do solo que não é igual em todo o lado. Por exemplo, nas encostas do Vale do Zêzere, como são muito íngremes, o risco de erosão a arrastamento de areais e pedras vai ser bastante elevado quando vierem as chuvas intensas. Além de poluírem as águas do rio do Zêzere, fazem com que seja mais difícil regenerar a floresta, porque parte do solo é arrastado com a erosão, com impactos negativos grandes".

A quantidade de libertação de energia durante o incêndio da Serra da Estrela foi uma informação avançada este sábado por Miguel Cruz, segundo comandante nacional de Emergência e Proteção Civil, que atualizou os hectares ardidos para 14 757. "O total libertado de energia por este incêndio foi de 766 terajoules, sendo que o máximo registado foi de 242 terajoules no dia 10 de agosto", referiu em conferência de imprensa. E salientou: "Representa cerca de 25 bombas de Hiroxima do ponto de vista de energia libertada. É um valor muito elevado, se considerarmos o quantitativo global".

Os ambientalistas querem uma análise de toda a situação e criticam a falta de medidas desde os grandes fogos de 2017, nomeadamente a nível de ordenamento do território, com consequências na destruição da floresta e do clima.

"O fogo teve maiores proporções porque estamos numa situação de seca significativa e não conseguimos combater as chamas na fase inicial como seria desejável. Temos uma atmosfera com cada vez mais dióxido de carbono, isso leva ao aquecimento global que se traduz em alterações climáticas, entre elas, secas mais violentas, persistentes e frequentes; com ondas de calor também mais intensas e frequentes", explica Francisco Ferreira. Acrescenta: "A incapacidade de combate destes mega-incêndios que, mais do que energia, libertam dióxido de carbono que ali estava retido e que, agora está na atmosfera, contribui para agravar as alterações climáticas, ou seja, para o aquecimento global. É um ciclo que temos de saber quebrar".

ceuneves@dn.pt

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