O "LisbonLiving+" quer "contribuir de forma afirmativa para a melhoria do bem-estar da população"

Consórcio entre universidades, empresas e entidades públicas tem por objetivo promover o envelhecimento ativo. O pró-reitor da Universidade de Lisboa, Rogério Gaspar antecipa a primeira conferência do consórcio que se realiza esta segunda-feira

Qual o objetivo deste consórcio?

O consórcio Lisbon Living + (LL+) foi formado, em outubro de 2013, para desenvolver atividades inovadoras no âmbito social e económico, baseadas na transferência e valorização do conhecimento, como contributo significativo para a promoção da vida saudável e do envelhecimento ativo. O consórcio foi instituído para responder a estes desafios societais pondo em prática a abordagem protagonizada pelo EIT (European Institute for Innovation and Tecnhology) na constituição de redes europeias dedicadas à inovação e ao empreendedorismo em áreas temáticas, as KIC (Knowledge and Innovation Communities). Um dos seus aspetos basilares é a constituição em cada região (nó da rede) de uma colaboração ativa entre os setores académico, de investigação e empresarial, sob a forma de um "triângulo do conhecimento" (TC).

Quantas entidades estão envolvidas?

Estão envolvidas 35 entidades dos setores académico, empresarial e social, envolvendo também câmaras municipais e empresas internacionais de grande dimensão.

Já há algum projeto em funcionamento?

Existem vários projetos desenvolvidos pelos parceiros no quadro da sua livre iniciativa e associação, envolvendo parceiros da plataforma a geometrias variáveis. A plataforma é também inovadora porque não impõe a criação de uma entidade jurídica própria, com custos de infraestrutura que seriam um desperdício de recursos valiosos, e promove interações mais do que dirige projetos. No entanto, gostaria de destacar o ALHTOUR, projecto financiado pelo Horizon 2020 ("TWINNING") e que está a criar um Living Lab (comunidade de práticas e com vocação demonstrativa orientada para a inovação) na área das tecnologias assistidas para o turismo de saúde, com parceria internacional de três grandes centros europeus, dois dos quais membros do EIT-Health oriundos da Bélgica e Holanda. O espírito de colaboração entre as entidades envolvidas promoveu também alterações de pensamento estratégico e de orientações para atividades inovadoras nesta área que realinharam a atividade de vários dos parceiros.

Em síntese, diria que para além do que já foi realizado no âmbito de concretização em projetos, o mais importante foi criar uma comunidade e um pensamento estratégico que permitirá muito mais realizações no futuro próximo e um alargamento geográfico e de áreas de intervenção, capaz de incrementar o potencial transformador do espírito desta plataforma.

Como é que Lisboa se pode afirmar como exemplo no envelhecimento ativo?

Lisboa possui um plano estratégico para esta área iniciado pela Câmara Municipal de Lisboa há vários anos, ainda antes do atual Portugal 2020. Faltava juntar as capacidades de colocar conhecimento e intervenção no terreno, aliadas num momento espaço e com um mesmo plano estratégico. Esse é um trabalho de construção em curso, já muito consolidado, mas nunca acabado. O quadro estratégico da RIS3 de Lisboa (estratégia inteligente de especialização regional) contribui para consolidar esses diferentes aspetos no quadro das tecnologias e saúde, do turismo e das indústrias criativas, mas pode ter também uma determinante inclusiva no âmbito da mobilidade e transportes olhando para espaços urbanos precocemente envelhecidos.

Que papel pode ter o processamento de dados de grande volume (big data)?

As características fundamentais daquilo a que se convencionou chamar "big data" terão muito a ver com os seus quatro "V" (volume, variedade, velocidade e veracidade ou validação). A sua implementação em aspetos concretos da vida quotidiana é uma realidade. O que gostaríamos de ver surgir na área da saúde e em Portugal, é a colaboração internacional estruturada que se torna necessária e que vem sendo desenvolvida de forma ocasional neste ou naquele projeto. A questão central, para além das questões óbvias de cibersegurança, são as relacionadas com a validação de dados para a sua utilização com "veracidade". O grande risco é um fenómeno de "trash- in/ trash-out", ou seja, se carrego dados inúteis ou errados, as respostas serão desastrosas. O papel dos investigadores da área da saúde e das ciências sociais, ao lado dos engenheiros e dos matemáticos, é determinante para a validação dos dados e do seu contexto. A Universidade de Lisboa atual que percebeu bem esta equação no quadro da fusão das duas anteriores universidades, ocorrida há quase quatro anos, estará sempre na primeira linha destas parcerias multidisciplinares e de vocação internacional. As parcerias com empresas e outros players em espaços alargados de inovação como o EIT Health serão sempre absolutamente essenciais.

Quais os próximos passos e apostas deste consórcio?

A plataforma "Lisbon Living +" constitui-se num momento de oportunidade perante um desafio em concreto mas rapidamente encontrou um desafio maior que é o de contribuir de forma afirmativa para a melhoria do bem-estar da população, através da promoção de estilos de vida saudável e do enquadramento de um envelhecimento ativo, perante desafios sociais e demográficos exigentes, e com alcance para as próximas décadas. A sua atual centralidade na região de Lisboa e Évora resulta apenas de circunstancialismos históricos decorrentes da sua formação e poderá em breve alcançar uma dimensão geográfica mais ampla, envolvendo todos aqueles que querem contribuir de forma ativa para os seus objetivos e missão. Estamos particularmente atentos aos novos desafios colocados pelos últimos três anos do Horizon 2020 e o arranque do futuro FP9, mas igualmente à procura de estabilizar uma plataforma colaborativa em torno de todos aqueles que podem contribuir para criar impacto na vida diária das populações, através de intervenções em que a inovação tecnológica estará presente, mas as determinantes sociais e de saúde são o núcleo central de preocupações. Sempre no quadro do espírito fundador do "triângulo do conhecimento" do EIT (European Institute of Innovation and Technology) e desenvolvendo soluções próximas de chegar à vida quotidiana de todos nós (no jargão do EIT com TRLs de 6-9, ou seja desenvolvendo soluções que estejam a 2-3 anos da sua aplicabilidade e implementação no terreno).

Exclusivos