O espaço para todos está cada vez mais perto e Portugal contribui

André Roque é aluno de Engenharia Aeroespacial do Instituto Superior Técnico e apresentou o seu projeto numa das maiores conferências de espaço do mundo.

A corrida espacial já dura há muitos anos, mas está a tornar-se cada vez mais democratizada, com empresas e agências privadas a quererem marcar a sua presença. E foi com o objetivo de ajudar a alcançar esse lugar que André Roque, aluno de mestrado em Engenharia Aeroespacial, apresentou na maior conferência mundial de espaço, em Paris, um projeto que pode ajudar a mudar o acesso ao espaço para jogadores mais pequenos como Portugal.

André Roque teve a oportunidade de apresentar na International Astronautical Congress, um artigo científico que escreveu sobre design automático de sistemas de exploração espacial. Este programa tem a capacidade de desenhar veículos lunares, marcianos ou o que for necessário para a missão, e facilitar um processo que de outra forma é moroso e dispendioso, especialmente para empresas mais pequenas. "O que tem acontecido nas últimas décadas no espaço é que todas as missões espaciais que foram para a Lua e para Marte, aconteceram só uma vez e por isso começamos sempre o design do zero. Em termos de engenharia de sistemas é um processo bastante complexo", explica André ao DN. Sendo o tema da conferência Space for All, André sente-se feliz em apresentar um projeto que realmente leva o espaço todos os atores que o quiserem.

Este projeto permite, assim, dar ferramentas a empresas mais pequenas para conseguirem chegar ao espaço, mas também dar a conhecer ao público alguns veículos que são pouco utilizados e, por isso, quase desconhecidos do público. "Geralmente quando pensamos em veículos lunares ou marcianos, pensamos nos carros com rodas, mas a verdade é que existem uns que saltam, helicópteros, um que parece um ouriço e rebola", distingue André Roque.

Para começar, este programa faz algumas perguntas sobre a missão espacial que se vai fazer. Que tipo de instrumentos científicos vão a bordo, quanto é que pesam, quanta energia é que gastam. À medida que se vai respondendo, as perguntas começam a ficar cada vez mais específicas. "Vai para que planeta, vai para a Lua, para uma Lua de Saturno, os terrenos são montanhosos, mais planos, vai de forma subterrânea. Em função dessas respostas, o programa desenha automaticamente o sistema de exploração". O estudante apresenta o exemplo da Lua que não tem atmosfera e que por isso não faria sentido mandar para lá um helicóptero. O sistema tem em conta situações como esta.

Atualmente André Roque está a tirar o mestrado em Sistemas Espaciais, em Toulouse (França), mas desde pequeno que tem uma paixão pelo espaço e a exploração espacial. Chegou a dar palestras em bibliotecas e universidades sobre o princípio do Universo, quer a jovens, quer a idosos. O apoio que teve da família, dos professores e do ambiente que o rodeava motivou-o a seguir o caminho do espaço. "Quando acabei o secundário e foi altura de escolher o curso, a escolha foi bastante óbvia: Engenharia Aeroespacial, no Instituto Superior Técnico, em Lisboa".

André descreve a oportunidade de apresentar o seu artigo no International Astronautical Congress 2022 como gratificante. "Quando estamos a apresentar, quem está no público é gente muito importante no mundo do espaço, pessoas que já faziam isto há mais tempo do estou vivo. Poder estar aqui à frente deles a apresentar o meu trabalho é uma coisa que me dá muito orgulho", resume.

Falta de investimento

André Roque lamenta, no entanto, a falta de investimento no setor espacial em Portugal. Relembra colegas que não encontraram oportunidades no país e tiveram de procurar por algo fora. "O país sem dúvida precisa de mais investimento e acho que temos de mudar a nossa mentalidade como país. Começar a duvidar menos de nós próprios e perceber os engenheiros incríveis que temos".

Reconhece que Portugal se tem vindo a destacar na conferência, com a Portugal Space, a agência espacial portuguesa, a ser um dos patrocinadores oficiais, mas que tem a oportunidade de o fazer ainda mais. "Estamos na altura do chamado New Space, novo espaço, estão a aparecer empresas mais pequenas, o espaço está cada vez mais comercializado e acho que é a altura perfeita para Portugal se começar a afirmar também". André não deixa de elogiar os colegas com quem se cruzou ao longo dos anos no Técnico, e que considera que podem mesmo ajudar a afirmação do país no setor. Além do investimento, considera que atrair mais empresas para Portugal pode ser uma forma de empregar os engenheiros que saem das faculdades, além de nos ajudar a estabelecer como um jogador relevante no espaço.

André mostra-se orgulhoso pelo trabalho que fez e por ter tido a oportunidade de o apresentar perante figuras relevantes no setor espacial, e que durante tantos anos admirou.

sara.a.santos@dn.pt

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