O clube dos primeiros a irem aos polos, ao Evereste, ao fundo do mar e à Lua

Portugal já se habituou a acolher as estrelas do The Explorers Club. E estão de volta, hoje em Lisboa e de segunda a quinta nos Açores. O DN foi visitar a sede em Nova Iorque e teve como cicerone de luxo Richard Garriott, americano que já foi ao espaço e também às profundezas do oceano.

A placa logo à entrada anuncia "The Explorers Club Famous Firsts". E, traduzindo, esses cinco famosos primeiros que o clube baseado em Nova Iorque reivindica são a conquista do Polo Norte (1909), do Polo Sul (1911), do Evereste (1953), da Fossa das Marianas (1960) e da Lua (1969). Richard Garriott é o melhor dos cicerones para esta visita à sede do The Explorers Club e não apenas por ser o atual presidente. É que ele próprio pode reivindicar um sexto "Famous First": ser o primeiro a ir ao espaço, ao fundo da Fossa das Marianas e a ambos os polos! E tudo começou, contou-me numa entrevista no ano passado, quando o médico de família, que era da NASA, lhe disse aos 13 anos que por causa da miopia nunca poderia ser astronauta como o pai. Passadas umas décadas, e depois de fazer fortuna a criar jogos vídeos, Garriott filho tornou-se em 2008 um dos primeiros astronautas privados, viajando num foguetão russo. À espera dele, depois de 12 dias na Estação Espacial Internacional, estava cá em baixo, na base de Baikonur, no Cazaquistão, Owen Garriott, o pai, que por duas vezes tinha estado no espaço, 60 dias em 1973 e mais dez dias em 1983.

Garriott mostra-me entusiasmado as luvas que Matthew Henson, companheiro de Robert Peary na ida ao Polo Norte, usava e que foram doadas pela família. São feitas de pele de foca, com as técnicas usadas pelos inuit, o povo do Ártico a que nos habituámos a chamar esquimós. "Estes primeiros exploradores já não iam de fato e gravata. Estudaram os hábitos dos habitantes das regiões mais a norte. Imitaram as roupas dos inuit. Por exemplo, na corrida ao Polo Sul, Robert Scott usou na expedição póneis siberianos e roupas de lã e acabaram todos a abater os cavalos para comer e a morrer de frio. Já Roald Amundsen preferiu cães e roupas feitas com peles e acabou por ser bem-sucedido. Amundsen bateu o britânico, que nem sequer sabia que estava numa corrida a dois. Imaginemos qual foi a sua frustração quando chegou ao Polo Sul e lá encontrou a bandeira norueguesa", conta Garriott, que entretanto aponta também para uns esquis, do americano Peary.

A ouvir estou eu e Manuel Vaz, da Expanding World, o português que convenceu o The Explorers Club a criar com ele a GlexSummit, que este ano se realiza já de segunda-feira até quinta nos Açores e que junta astronautas, alpinistas, mergulhadores, cientistas, uma elite global de gente arrojada. "O clube tem 3400 membros, talvez perto de metade americanos, mas apesar da sede ser este edifício aqui junto ao Central Park temos 35 delegações espalhadas pelo mundo", explica o presidente. Fundado em 1904, o The Explorers Club tem as atuais instalações desde 1964 e estas também são paredes e teto cheios de história.

Junta-se a nós, Will Roseman, diretor executivo e antigo piloto de aviões em África, o que se chama um Bush Pilot. "Esta edifício data do início do século XX e pertenceu à família Clark, descendentes do advogado dos inventores das máquinas de costura Singer e muito ricos por causa da patente. Stephen C. Clark, que viveu aqui até morrer, era um filantropo, contribuiu muito para os museus nova-iorquinos. E quis que a própria casa fosse uma obra de arte, com o arquiteto a incluir parte da cabina de um antigo barco, janelas do palácio de Windsor, também partes de um antigo mosteiro francês e lá em cima o teto pertenceu a um palácio dos Médicis, em Florença", descreve entusiasmado Roseman, que é colecionador de arte portuguesa e estará, tal como Garriott, em Ponta Delgada na próxima semana (Garriott participa hoje em Lisboa na Glex Ignition Session, onde estará também James Garvin, cientista-chefe da NASA). A primeira edição da GlexSummit foi em 2019, em Lisboa, associando os 500 anos da expedição de Fernão de Magalhães e os 50 anos da ida à Lua.

"Foram 12 os homens a irem à Lua, 16 se contarmos com os que ficaram nas naves a garantir a segurança da missão. Creio que todos eram membros do Clube", diz Garriott. Uma bandeira do Explorers costuma acompanhar as expedições mais importantes, ainda hoje umas 20 a 50 por ano, e a que foi à Lua em 1969 está exposta e com a assinatura de Neil Armstrong, Buzz Aldrin e Michael Collins. Também para ver está uma das picaretas que o neozelandês Edmund Hillary e o sherpa Tenzing Norgay usaram na pioneira escalada da montanha mais alta do mundo. Garriott põe, entretanto, a tocar um velhíssimo aparelho, ouvindo-se a voz do britânico Ernest Shackleton, outra figura mítica da exploração da Antártida, gravada há mais de cem anos.

Há um bar no clube, claro, e Garriott explica que muitas missões começam ali. Um jovem membro pensa, por exemplo, ir à Amazónia; um mais velho, mesmo de outra área científica, dá-lhe dicas de como chegar, instalar-se, etc.; e um veterano, geralmente um membro já com alguma idade e muitos meios, disponibiliza-se para financiar. Originalmente um clube masculino, o Explorers passou a aceitar mulheres em 1981, com uma carta do cientista Carl Sagan, o autor do livro e da série televisiva Cosmos, a ser decisiva. A bióloga marinha Sylvia Earle foi uma das pioneiras, mas hoje, se visitar o clube, notará certamente serem muitas as mulheres, como a astronauta Siam Proctor, com a qual combino logo uma entrevista.

"A política está o mais ausente possível do clube, pois a ideia é fazermos ciência e a ciência une. Mesmo durante a Guerra Fria o meu pai, tal como outros astronautas, era amigo de cosmonautas soviéticos. Às vezes não é fácil. Ainda há dias, aqui no bar, um membro que é russo, e que tem uma visão muito própria do que se está a passar na Ucrânia, iniciou uma conversa com outros membros sobre a guerra e depressa todos acharam que era melhor mudar de tema", nota.

Subimos para os andares superiores (são cinco pisos) e cada sala tem as suas surpresas. Por exemplo, no gabinete de Garriott, umas moedas de prata espanholas são o que sobra de um investimento que fez no resgate de um galeão afundado junto do Panamá e em que depois de uma mudança de governo os mergulhadores descobridores passaram a ser vistos como piratas. Fico também a saber que nisto de tesouros, o presidente do Explorers pode reivindicar um terreno na Lua por ser proprietário de um veículo que lá andou.

Na sala que serve de gabinete a Roseman, uma série de quadros na parede ganham sentido quando o antigo piloto os explica. Todos exibem um pedaço de tela das asas de aviões que fizeram história, como o dos irmãos Wright ou o de Amelia Earhart, a primeira mulher a sobrevoar sozinha o Atlântico. Ficou o desafio, meu e do Manuel Vaz. Para conseguir algo alusivo ao hidroavião usado por Gago Coutinho e Sacadura Cabral na primeira travessia aérea do Atlântico sul.

Prosseguimos a visita, e de novo um objeto curioso, o chicote não de Indiana Jones, mas do naturalista Roy Chapman Andrews, que terá inspirado a figura interpretada no cinema por Harrison Ford.

A visita continua com Garriott a explicar uma pintura antiga, que mostra homens numa paisagem inóspita de terreno gelado. "Tenho-me dedicado a estudar os primeiros presidentes do Explorers, gente dessa era heroica em que ser explorador implicava sério risco de perder a vida ou um braço ou uma perna. E uma das histórias dramáticas aconteceu logo com o que viria a ser o primeiro presidente, Adolphus Greely, que em 1881 comanda uma expedição à Gronelândia e acaba por perder 20 dos 26 membros por falha no sistema de fornecimento de mantimentos. "Um deles estava tão deprimido por ter de viver numa ilha sem nada que roubou comida só para ser condenado ao fuzilamento, espécie assim de suicídio. E quando os mecanismos de disparo não funcionaram por causa do frio, aproximou-se e juntando as mãos junto à boca, com o próprio bafo aqueceu as espingardas. Por fim, pediu aos amigos que disparassem a matar", acrescenta Roseman.

A última história épica é contada junto ao quadro do explorador dinamarquês Peter Freuchen, um gigante que usava uma pele de urso polar nas suas aventuras no Ártico. "Um dia foi apanhado por uma tempestade de neve e acordou preso num casulo de gelo. Salvou-se usando a técnica que aprendera com os inuit: fez uma faca com as próprias fezes congeladas e furou o gelo. Mais tarde, noutra expedição, e tendo um pé a gangrenar, amputou-se a si mesmo", relata Garriott, sem dúvida admirador da tal era heroica. E ele próprio, acaba por contar meio em jeito de brincadeira, tem uma cicatriz da cirurgia que teve de fazer de última hora, antes de ir ao espaço, para extirpar uma parte do fígado que tinha uma anomalia congénita e que se na Terra era inofensiva, lá em cima podia revelar-se fatal e, portanto, o deixava de fora de concretizar o sonho de fazer com o pai dupla de astronautas.

leonidio.ferreira@dn.pt

O DN viajou a convite da GlexSummit

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