O ativista que luta pelo ambiente desde os 10 anos criou uma nova associação

Francisco Ferreira é o presidente de uma nova organização, a Zero, criada por quem já não se revia na Quercus. Propõem um futuro com zero emissões, zero desperdício e zero consumo insustentável

Foi na última década um dos rostos mais assíduos do Minuto Verde, na RTP, o tempo exato de um conselho prático e económico pelo ambiente, que se tornou um sucesso de comunicação. Habituámo-nos a vê--lo na televisão, a falar também sobre as cimeiras do clima, as alterações climáticas e as energias renováveis e hoje ainda há quem pense que continua a ser o presidente da Quercus. Mas isso "já foi há mais de dez anos", diz ele a rir. Francisco Ferreira, engenheiro do ambiente, professor e investigador da Universidade Nova de Lisboa, ambientalista desde miúdo, acaba de fundar, com mais uma centena de outros ativistas, uma nova organização de ambiente, a Zero - Associação Sistema Terrestre Sustentável, da qual é agora presidente. "Já não nos revíamos na atual direção da Quercus", justifica.

Menos de dois meses depois da sua criação, a 23 de janeiro, a Zero conta já com mais de 400 associados e está apostada em fazer a diferença. "O nosso horizonte é o do longo prazo, com base nos objetivos do desenvolvimento sustentável", explica o presidente da nova associação, sublinhando que o âmbito de ação da Zero é "nacional, mas também internacional, em colaboração com outras ONG portuguesas, de outros países e em redes europeias, e aproveitando as novas plataformas de comunicação, como os telemóveis e a internet, para mobilizar as pessoas, que estão ávidas de participar".

Exemplo? "Num estudo sobre níveis de ruído urbano, as pessoas podem participar usando os telemóveis para fazer medições e envio de dados", explica. "A realidade está em mudança, as novas plataformas tecnológicas são uma oportunidade para mobilizar a participação e a cidadania, e nós vamos fazê-lo", diz o dirigente da Zero.

O miúdo do Setúbal Verde

Aos 49 anos - faz 50, no dia 14 de novembro -, Francisco Ferreira está a meses de completar também quatro décadas de ativismo ambiental. "Comecei cedo, em 1976. Nesse ano inscrevi-me na LPN, a Liga para a Proteção da Natureza, e comecei a participar nas atividades do Centro Juvenil de Setúbal, acabado de nascer por iniciativa de um grupo de alunos do Liceu de Setúbal", recorda.

Mas foi em casa que tudo começou. "O irmão do namorado da minha irmã, que tinha na altura 20 anos, foi um dos fundadores desse núcleo do liceu e foi lá em casa que comecei a ouvi-los falar das questões ambientais", conta.

O Parque Natural da Arrábida tinha acabado de ser criado e os jovens de Setúbal estavam a apontar alto: queriam também uma reserva no estuário do Sado - o que veio a acontecer quatro anos mais tarde, em 1980.

Para Francisco Ferreira, então na Escola Preparatória de Setúbal, esse foi um período inesquecível em que ele e os outros mais velhos não iam a algumas aulas, para andar de escola em escola, e de turma em turma, a falar do projeto. "Fizemos apresentações com slides, que passávamos para os alunos nas escolas", lembra Francisco Ferreira, que era o mais novo do grupo. "Os professores eram fantásticos, dispensavam-nos de algumas aulas para podermos fazer as apresentações."

A criação da reserva foi um sucesso e deu força ao grupo, que decidiu criar um jornal, o Setúbal Verde, para mobilizar mais pessoas na cidade. Foi por sua iniciativa, por exemplo, que o centro histórico de Setúbal acabou encerrado ao trânsito e devolvido aos transeuntes. "Fizemos uma campanha, as pessoas já nem se lembram disso."

Foram eles que fizeram também o mapeamento, contagem e levantamento das questões legais da construção clandestina no Portinho da Arrábida, que depois culminou na sua demolição - ali, e por toda a costa -, quando Carlos Pimenta esteve na secretaria de Estado do Ambiente.

O Projeto Setúbal Verde cresceu, somou trabalho e vitórias, extravasou a cidade e a região. A tal ponto que acabou por ser o promotor do Primeiro Encontro Nacional de Ecologistas, que reuniu em Troia mais de um centena de participantes, em março de 1985. Herdeira direta do Projeto Setúbal Verde, a Quercus nasceu nesse mesmo ano, para se tornar a maior e uma das mais visíveis ONG de ambiente em Portugal. E os principais nomes que aí vieram a destacar-se - Viriato Soromenho-Marques, José Manuel Palma, José Paulo Martins ou Francisco Ferreira - começaram todos no Projeto Setúbal Verde.

Entre a universidade e o ativismo

Em 1984, Francisco Ferreira poderia ter optado em exclusivo pelo ativismo ambiental, mas percebeu que não lhe bastava. "Fez-me sentido aprofundar as questões a que me dedicava, decidi estudar Engenharia do Ambiente", conta.

Concluiu a licenciatura em 1989 na Universidade Nova de Lisboa (UNL), onde hoje é professor e investigador, e nos dois anos seguintes trabalhou na Reserva Natural do Estuário do Sado - "era o único técnico, além da diretora", conta -, onde fez um pouco de tudo: visitas guiadas, pareceres técnicos, o trabalho no terreno, o contacto com a natureza.

Seguiu-se, em 1991, o mestrado nos Estados Unidos, na universidade de Virginia Tech, em engenharia do ambiente, na área da água, e depois, em 1998, o doutoramento, na Universidade de Cornell e na UNL, a sua casa de sempre, em qualidade do ar. E, a par da vida académica, o ativismo ambiental.

"Entre 1992 e 1998 tive de conciliar o doutoramento, a presidência da Quercus [de 1996 a 2001] e a família. O meu primeiro filho nasceu em 1995, e depois a segunda em 1999", lembra. "Foram anos muitos intensos."

Na Quercus fervilhavam as ideia e as iniciativas. "Mesmo com visões muitas vezes diferentes, as pessoas trabalhavam em equipa, num ambiente coeso, de boas relações humanas, mas nos últimos tempos deixou de ser assim, muitos de nós já não nos revíamos na direção da Quercus", diz.

A Zero - e lá estão de novo alguns históricos na sua fundação, como Viriato-Soromenho Marques ou José Paulo Martins, além de Francisco Ferreira - nasce com aquele mesmo espírito, a pensar no futuro: zero emissões, zero desperdício, zero consumo insustentável. E, claro, com muito trabalho pela frente.

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