Nos casinos ilegais todos os vícios são livres de impostos

Os clientes de salas fora da lei, como a vivenda de Porto Salvo fechada pela PSP, vão à procura de dinheiro fácil, drogas e até sexo

Era uma vivenda em Porto Salvo (Oeiras) onde funcionava um casino ilegal que a PSP encerrou, na quarta-feira à noite. Tinha três pisos, cinco mesas de jogo para póquer, uma zona para swing (troca de casais) e acesso a prostitutas. Tinha ainda cocaína e haxixe a circular pelos clientes, alguns da "alta roda", caras conhecidas da televisão. Foram até detidos dois atores que se encontravam na casa quando o Grupo de Operações Especiais (GOE) da PSP lá entrou, e ainda 32 outras pessoas, entre elas os arrendatários do espaço e que o terão convertido, alegadamente, em casino ilegal.

O que atrai os clientes nestes espaços clandestinos ao ponto de arriscarem serem presos pela prática de jogo ilegal? Dizem fontes policiais que é o acesso a dinheiro fácil, prémios com lucros elevados no póquer e ainda a outros vícios como drogas e sexo. Como os donos destes casinos não pagam impostos, isso permite-lhes "ter lucros e percentagens sobre o jogo mais favoráveis ao cliente", explica, por sua vez, Mário Assis Ferreira, administrador da Sociedade Estoril Sol. O responsável garante serem "às dezenas" as salas ilegais em todo o país.

De resto, nos casinos legais os clientes também não pagam impostos sobre os prémios, ao contrário do que acontece nos Jogos da Santa Casa a partir de prémios com montantes superiores a cinco mil euros. Mas nas salas clandestinas "todos podem jogar, inclusive os clientes que foram interditados nos casinos legais por dois a cinco anos pelo mau comportamento", adianta Mário Assis Ferreira.

As entidades que detêm a concessão do jogo, como a Estoril Sol (que detém os casinos do Estoril, Lisboa e Póvoa do Varzim), têm de pagar 60% de imposto sobre a receita bruta que obtêm. Os clandestinos não pagam nada ao Estado.

Um ex-jogador do Casino Estoril assegura que "todas as terras têm um ou mais sítios para se jogar o póquer clandestino", nomeadamente em casas particulares. Esse jogador, que se diz curado do vício do jogo há mais de uma década, frequentou uma única vez um casino ilegal e nunca mais voltou. "Aquilo tinha gente com quem não interessava conviver", contou, referindo-se a "gente da pesada". Pessoas que não hesitam em punir com violência uma dívida de jogo. Essa única experiência serviu também a este homem para perceber que nos casinos clandestinos os jogadores de póquer "dão uma percentagem mínima do bolo à casa".

Em caves e salas soturnas

Em Lisboa, a PSP tem fechado poucas casas e nenhuma com a "sofisticação" apresentada pela vivenda de Porto Salvo, equipada como se de um verdadeiro casino se tratasse, como adiantou fonte da investigação criminal da polícia ao DN.

As salas de jogo ilegal que têm sido encerradas na capital e arredores funcionam em casas rudimentares, garagens, divisões soturnas e caves, como uma na Avenida Almirante Reis, em Lisboa, que uma investigação descobriu e desmontou.

Segundo a mesma fonte, também não é muito frequente neste tipo de salas para clientes de baixo estrato haver droga ou prostituição à mistura. Esses vícios estão disponíveis em espaços para uma clientela de nível superior, como acontecia na vivenda de Porto Salvo.

Os 33 detidos pela PSP são suspeitos de jogo ilegal e exploração ilícita de jogo, lenocínio e tráfico de droga.

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