"Não tive receio da vacina... Os benefícios suplantam as dúvidas"

O autoagendamento teve início na semana passada, mas é preciso a confirmação por SMS. Ao Pavilhão Desportivo da Ajuda as pessoas chegam, em geral, mais cedo do que a hora marcada. Saem com um sorriso e "lanchinho".

Há um livro de capa vermelha à saída do posto 5 de vacinação de Lisboa, no Pavilhão Desportivo da Ajuda, mas não é o de reclamações. É o Livro de Elogio, tantos eram os que recebiam que os responsáveis do posto criaram um espaço para ficarem registados. Fica na saída de quem já tomou pelo menos uma dose da vacina. Respondem pela última vez à pergunta: "Está tudo bem?" Com a afirmativa, entregam-lhes um lanchinho: garrafa de água, bolachas de água e sal e uma maçã. Se não tiverem transporte para regressar a casa, podem chamar um táxi, pago pela Câmara Municipal de Lisboa.

"Está tudo bem, não tenho sintoma nenhum. Muito bem organizado. Deviam ter aqui um livro de elogios em vez do de reclamações", observa Ana Rio Branco quando vê um exemplar idêntico ao que conhece para reclamar. "Mas é um livro de elogios", explica Américo Fernandes, da proteção civil municipal, que está na última etapa de todo o processo de vacinação.

Desfeito o engano, Ana Rio decide escrever. Justifica ao DN: "Desde o início até à última pessoa que me atendeu, foram impecáveis. A simpatia e a eficiência são coisas muito importantes, mas não as devemos misturar. Eu tive as duas." Jurista nascida no Brasil, vive em Portugal há 27 anos, mora em Belém. Prefere não dizer a idade, mas tem 65 ou mais, neste momento a faixa etária a partir da qual se pode inscrever para levar a vacina.

A passada quarta-feira foi o primeiro dia em que se vacinou quem fez o autoagendamento. Houve quem aparecesse sem que a marcação fosse confirmada, o que é obrigatório. Tiveram de voltar para trás e quem morava perto deixou o contacto para o caso de haver sobras, o que aconteceu com quatro utentes. Não pode haver sobras de vacinas, por isso, quando há a mais, chama-se quem está na lista.

Qual é a vacina?

Os enfermeiros estão a administrar neste dia a da Pfizer, só por agendamento e a quem já levou a primeira dose. Os mais ansiosos ficam contentes por não ser a da AstraZeneca (agora rebatizada Vaxzevria). "Quando são convocados e percebem que é a da AstraZeneca, alguns dizem que não; outros acabam por recusar quando aqui chegam. Quando estamos a administrar a da Pfizer há menos faltas", diz António Sousa, um dos enfermeiros responsáveis pelo posto de vacinação. Sublinha, no entanto, que as desistências representam uma pequena parte, cerca de 1%. Tem 51 anos e pertence à Unidade de Saúde Familiar das Descobertas.

Ao conteúdo de cada frasco é adicionado soro fisiológico, o que dá para seis doses e tem de ser usado num período de seis horas. Daí a necessidade de ter alguém em pré-aviso para chamar ao fim do dia de vacinação se há sobras.

"As desistências são situações residuais e ultimamente não tem havido tantas", acrescenta o segundo coordenador do posto, Paula Ramos, 47 anos, da USF Santo Condestável (Campo de Ourique). Mas a principal pergunta continua a ser: "É a da AstraZeneca?" Quem está ansioso fica um pouco menos se a resposta é negativa. A ansiedade é o principal problema de quem está preocupado em levar a vacina contra a covid. Terá sido o motivo do registo no posto 5 da única complicação nos 30 minutos após a vacinação. Não é febre ou dores, um efeito secundário habitual das vacinas, nomeadamente a da gripe.

Luís e Isabel Ribeiro, ele com 74 anos e ex-profissional de seguros; ela com 70, informática, esperam pelo fim dos 30 minutos de recobro após a toma da vacina. Garantem que não estavam minimamente preocupados com qual era o laboratório que a fabricou. "Nem sequer tentámos perceber", diz o Luís, acrescentado: "Moramos numa zona onde há muitos velhos. [Chelas/Marvila] e, sexta-feira, fizemos logo o agendamento. Não há razão para recusar. Os benefícios suplantam todas as dúvidas".

Um autocolante com a hora a que receberam a vacina, permite o controle do tempo de recobro. Numa escala de 0 a 20, dão 20 ao atendimento. E seguem felizes, até ao dia 26 de maio, em que tomarão a 2.ª e última dose. "Vai alterar muito as nossas vidas. Vou poder abraçar os meus netos e o meu pai, que vai fazer 93 anos e teve covid", congratula-se Isabel Ribeiro.

O posto 5 de vacinação está instalado no Pavilhão Desportivo da Ajuda. Cobre as freguesias de Alcântara, Ajuda, Belém e parte de Campo de Ourique. São os utentes dos centros de saúde das respetivas freguesias que ali se têm deslocado para receber a vacina, situação que mudou desde quarta-feira. Foi o primeiro dia disponível para quem fez o agendamento e este pode ser marcado para qualquer zona do país.

"Estamos a vacinar pessoas de todo o lado, inclusive alguns que não são de Lisboa. É uma questão de saúde pública e o processo é muito mais rápido. O auto agendamento é centralizada, as pessoas podem escolher onde vão. E não é um administrativo das unidades de saúde que liga duas e três vezes para um utente", sublinham os coordenadores.

A funcionar desde 12 de fevereiro, o posto aumentou de 800 para mil o número de administrações diárias, o que significa iniciar o processo às 09:00 e terminar às 19:00, também ao sábado, com a possibilidade de esticar os horários diários. Tem a ver com um maior número de doses de vacinas que Portugal está a receber. Neste centro administraram 21 mil doses de vacinas: 80 % da sua população com 65 e mais anos levou pelo menos uma dose, percentagem que sobre para 85 % nos maiores de 79.

Passo a passo

Foi a filha de António Marques Lopes, 69 anos, que fez o agendamento. Estava marcado para as 17:15 mas ele chega mais cedo, às 16:50, o que acontece com a maioria. Confirma o nome com o Cartão do Cidadão, tiram-lhe a febre e desinfeta as mãos. "O meu centro de saúde é o mesmo da minha mulher, temos o mesmo médico, a mesma idade e o nome dela também começa por A (Alice,) e foi chamada há 15 dias e eu não, não sei qual é a explicação". Repete aos profissionais com quem se cruza. António admite estar um "pouco ansioso e nervoso", fica feliz por acabar com um tormento e, ainda mais, por levar a Pfizer. "Tenho mais medo da covid do que quando andei na guerra da Guiné. Lá, se havia um fogacho [tiro] metíamos num buraco, aqui não sabemos onde está o inimigo".

À mesma hora entra Maria Manuela Tiago, 65 anos. Agendou na sexta-feira, recebeu a confirmação no sábado, para as 17:03 de quarta-feira. Traz uma máscara comunitária e recebe uma cirúrgica. Não se preocupou em saber qual era marca da vacina. "Levava qualquer uma. A vacina é fundamental para termos a nossa vida", frisa.

António e Maria passam ao interior do pavilhão, onde um funcionário das juntas locais lhe fazem uma série de perguntas de saúde. Margarida Ferreira, jurista na Junta de Freguesia de Belém, fica com António Lopes. Algumas das perguntas: "Como se sente? Tem tosse? Dificuldades respiratórias? Teve contacto com alguém que teve covid? Recebeu alguma vacina recentemente? Alergias a medicamentos? Tem boa coagulação? Toma anticoagulantes? Fez recentemente algum transplante, quimioterapia ou radioterapia?". A tudo, António responde "não", que apenas tem ácido úrico e a tensão alta. "Está ótimo", diz Margarida e encaminha-o para a vacinação.

São oito equipas de vacinação, com dois enfermeiros cada, um de uma unidade de saúde (fato azul) e outro contratado pela Câmara Municipal de Lisboa de uma bolsa de enfermeiros (amarelo). Confirmam as respostas dadas. No caso de António, o registo é feito por Margarida Pires e é Patrícia Rodrigues quem dá a vacina. "Venho preparado. Trago uma camisa de manga curta", brinca o vacinado.

Quando tomar a 2.ª dose, António "precisa de dar à sola para o Norte". Tem casa na Ajuda e em Oliveira do Hospital, onde ele e a mulher costumam passar o verão, no último ano ficaram por lá. "Os filhos não me queriam aqui. Cheguei há 15 dias, quando a mulher foi chamada para a vacina. Tive um ano sem ver os meus filhos [2] e os netos [3]. Vi agora, mas foi de fugida e com a máscara. Depois da vacina, vai ser muito diferente", congratula-se o António.

Maria Manuela Tiago está no recobro. Demorou sete minutos entre a chegada e a toma da vacina. "Rapidíssimo, é um serviço de 5/6 estrelas, de excelência. Bem organizado, as pessoas simpatiquíssimas", diz. Mora no Areeiro, mas dava-lhe mais jeito ir a Alcântara. O companheiro também ali tinha sido vacinado e deu boas referências. É arquiteta, funcionária pública. Quando ela tomar a 2.º dose, o casal espera voltar a viajar, como faziam com frequência antes de 2 de março de 2020, quando se registou o primeiro infetado com SARS-CoV-2 em Portugal.

"Tenho muitas saudades das viagens, o resto, como passear e comer fora, temos feito. Com todos os cuidado e, até hoje, nenhum de nós apanhou", explica Maria Manuela. E, no meio de toda a gravidade que trouxe a pandemia, encontra um fator muito positivo. "Os sítios, os equipamentos, nunca estiveram tão limpos". No final de maio, vai poder visitar o filho que vive no norte. E conviver com menos limitações com os seis filhos do companheiro, com quem nunca deixaram de ter contacto.

A coordenação dos posto de vacinação cabe à Câmara Municipal de Lisboa, já todo o procedimento de vacinação ao Ministério da Saúde, através dos enfermeiros das unidades de saúde. António Sousa e Paula Ramos são os primeiros a chegar, às 08:00, e os últimos a sair. Um tem de estar sempre presente, o que, no verão, significa tirar apenas alguns dias de férias.

Paula Ramos resume: "Apesar de ser muito trabalhoso, encaramos isto como uma missão. Desde o momento em que soubemos que vínhamos para o pavilhão, sabíamos que ia ser complicado, mas grande parte do que pode voltar a ser a vida em sociedade, depende de nós e de todos os colegas",

Na mesma linha, acrescenta António Sousa: "É uma tarefa gigantesca, mas venho todos os dias bem disposto. É um passo gigante para ver se acabamos com isto, para termos uma vida normal. Todos os dias a trabalhar, sem folgar quando é preciso, tentamos fazer o nosso melhor e tem corrido bem".

ceuneves@dn.pt

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