"Não há uma linha clara que divide a direita e a esquerda"

Trabalho, esforço, dedicação, são palavras que Maria Pereira repete ao longo da entrevista. Também porque sente que o seu trabalho tem sido reconhecido. Uma cientista, que sempre praticou desporto e que não foi por isso que deixou de ter as notas mais elevadas, desde miúda. Mandatária de Marcelo Rebelo de Sousa na campanha para as presidenciais, não põe de parte um novo envolvimento político, mas acha que deve ser dada prioridade aos mais novos. Esquerda ou direita; Portugal ou outro país; nos projetos que desenvolve atualmente ou outros, o importante para esta jovem, que vai fazer 32 anos, é seguir o caminho das oportunidades. E apostar na formação.

Leia a primeira parte da entrevista:

Ficou surpreendida com o convite de Marcelo Rebelo de Sousa para ser sua mandatária na campanha para a Presidência?

Sim, não conhecia pessoalmente o professor Marcelo, o Presidente Marcelo agora [ri], e realmente fiquei bastante surpresa com a iniciativa. Entendi isso como uma vontade dele em fazer algo diferente dos candidatos anteriores e foi isso, sem dúvida, que me fez aceitar. Precisamos de pessoas diferentes, que valorizam coisas diferentes, e ele, ao convidar-me, mostrou isso.

É da sua área em termos ideológicos?

[Ri].

Leiria, onde nasceu e residiu, é um distrito PSD.

Sim, mas não tenho cor política. Há questões com as quais me identifico à direita e há coisas com as quais me identifico à esquerda. Sinceramente, esquerda e direita faz-me uma certa comichão porque entendo que não há uma linha clara que divide uma coisa da outra. Há ideias boas de um lado e ideias boas do outro.

Mas não há temas que são mais sensíveis para a esquerda e outros para a direita, diferentes abordagens?

Depende dos temas. Eu tenho tendências mais liberais, sem dúvida, mas esquerda/direita...

Achou interessante a experiência?

Bastante interessante, também foi uma campanha diferente, muito simples, sem grandes formalidades, o que me surpreendeu pela positiva. Uma campanha política não muito estruturada, informal, baseada no contacto com as pessoas, na informalidade, na proximidade. Participei em alguns desses eventos e, para mim, foi gratificante e interessante ver a proximidade do professor Marcelo, do Presidente Marcelo, com as pessoas.

Uma experiência para repetir, eventualmente numa recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa?

O tempo o dirá. Em 2016, o professor Marcelo ao escolher-me queria mostrar uma geração nova, que está a ter impacto não só em Portugal como no mundo. Tenho a certeza de que há outros exemplos para puxar no futuro e isso é bastante importante. Procurar pessoas que estão a ter impacto lá fora e que podem contribuir para Portugal e ajudar a melhorar a imagem do país, acho que essa deve ser a prioridade.

Depois de Boston foi viver em Paris. Como é a vida na capital francesa?

Gosto de Paris, posso admitir que, inicialmente, a língua foi uma barreira. No primeiro e no segundo anos, a língua foi uma barreira que tive de ultrapassar [ri]. Na minha geração, o francês não é muito usual. Tive aulas de francês - quando estava na faculdade inscrevi-me em francês mas por diversão -, tinha bases, mas foi muito difícil toda a parte técnica. Os franceses têm tendência para falar francês mesmo que saibam inglês e rapidamente tive de me habituar. Paris é uma cidade de muita diversidade, também é caótica, por isso, digo que é boa para alguns anos, não é uma cidade boa para o resto da vida mas também não sei o que é uma cidade boa para o resto da vida. O que gosto é de ir atrás das oportunidades. No futuro, talvez queira assentar num sítio, por agora não é o objetivo.

Trabalha muitas horas?

Fazem-se muitas horas diárias, é uma startup, há de haver sempre falta de recursos e todos temos de fazer um pouco de tudo, mas é o que torna a experiência gratificante. Uma startup é correr contra o tempo para conseguir objetivos que às vezes parecem impossíveis, mas uma pessoa consegue com trabalho e dedicação da equipa.

O que é que faz nos tempos livres?

Viajo bastante, venho algumas vezes a Portugal, tento vir uma vez por mês e gosto de descansar no sábado e no domingo. Trabalho muito durante a semana e gosto de chegar ao fim de semana, fazer o reset [reconfigurar]e viajar, no interior de França ou fora. Está no Centro da Europa e é muito fácil viajar para outros países. Paris também tem muito a cultura das saídas, dos cafés, de estar na conversa.

Quando vem a Portugal vem a Leiria?

Também, mas o meu namorado tem casa em Lisboa, onde moro desde que me mudei de Boston para Paris.

Onde vota?

Em Lisboa. Como às vezes não vou a Leiria, mudei a minha morada.

Isso há cinco anos. Lisboa hoje está muito diferente?

A principal é que cada vez sinto menos diferença de preços com Paris, sobretudo nos restaurantes, e, claro, há muitos mais turistas.

O namorado é português?

Sim, conheci-o em Boston, também está ligado à parte das ciências da saúde. É investidor em empresas da saúde e está entre Portugal, França e Bélgica, ligado a alguns investimentos de risco.

Está ligada ao homem da massa, é isso?

[Ri] Ajuda-me a ter alguma perspetiva de como é que os investidores pensam e isso é importante, educou-me um bocadinho nesse aspeto.

E as férias?

Normalmente em agosto venho a Portugal, fico pela costa alentejana, dou uma volta por Leiria, os meus avós são da Guarda, os meus pais têm quintas em Seia, e é por esses sítios que passo as minhas férias

A questão do terrorismo está sempre presente entre os franceses?

Os franceses reagiram muito naturalmente aos atentados terroristas, o que que me surpreendeu pela positiva, pelo menos em Paris. As pessoas não mudaram as rotinas. Claro que se vê mais segurança, mas as pessoas não se deixarem intimidar. Por exemplo, comparativamente aos Estados Unidos, a atitude foi diferente. As pessoas em França reagiram mais naturalmente, se calhar, não ficaram tão paranoicas como os americanos. O Charlie Hebdo é muito perto do meu escritório, também o Bataclan é na mesma zona, são ambos bastante perto de onde trabalho e moro e não vi as pessoas mudarem as rotinas. É uma nova realidade, com a qual temos de saber lidar, mas deixarmo-nos intimidar é a pior coisa. Isso é deixar o terrorismo vencer.

É o maior problema da atualidade?

Não acho que seja o maior problema. Realmente, pensando em números, não é o maior problema. Tem impacto psicológico na sociedade, mas, para mim, um dos principais problemas é a falta de adaptação de algumas pessoas aos avanços tecnológicos. Com todos os avanços, como é que vai ser o emprego daqui a 20 anos? Isso é uma coisa que a sociedade tem de pensar. Temos de pensar como é que vamos formar e educar as pessoas para que todos tenham o mesmo tipo de oportunidades, pois o emprego vai ser diferente do que era há 20 anos. Toda a parte de educação vai ser cada vez mais e mais importante, porque vamos ter máquinas para fazer o trabalho manual. Há que investir nas pessoas para darem esse salto. Portugal tem feito um trabalho importante, tem investido na educação e há que continuar a investir para que todos possam adaptar-se a estas novas realidades

Quem não estudar, não tiver formação, fica apeado?

Sim, vão sempre existir novas oportunidades, mas há determinados empregos, por exemplo nas fábricas, que não vão existir daqui a 20 anos.

Sentiu os efeitos de alguma desqualificação que possa existir na emigração portuguesa. Chama-se Maria: em Paris esperam que seja porteira?

[Ri] Não, pelo menos à minha frente nunca o disseram. Os franceses têm essa noção dos portugueses como porteiras e operários da construção civil, mas há toda uma nova geração de portugueses em França que não tem essa conotação e isso começa a ser reconhecido. Não sou caso único. E também existe a conotação de que os portugueses trabalham bem, seja porteiro, operário da construção civil ou investigador, o importante é a dedicação ao trabalho e o brio que têm.

Dá-se com a comunidade portuguesa?

Conheço bastantes portugueses, estão bem integrados, não se coloca essa questão de espaços para franceses e espaços para portugueses.

Quais são novos projetos na Gecko?

Estou a trabalhar em três projetos muito interessantes e que vão dar origem a novos produtos, mas não posso falar muito.

São semelhantes à cola?

Um deles sim, os outros dois são com base no mesmo material mas com aplicações diferentes.

Em Paris, como mata as saudades? Ou isso também não se usa?

Quando estava em Boston tinha necessidade de matar saudades, mas em Paris não, não é assim tão longe de Portugal. Confesso que nunca fui a um restaurante português em Paris. Já comi pastéis de nata mas geralmente faço isso quando quero levar alguém a conhecer um pouco da cultura portuguesa, não é para matar saudades.

E de que forma a solução governativa do país desperta curiosidade?

Quando foram as eleições francesas, falou-se no tipo de governação portuguesa, inclusive Macron veio a Portugal ver como era. Em geral, há uma perceção positiva dos esforços que Portugal está a fazer para sair da crise. Há esse reconhecimento lá fora.

Comparando os métodos de trabalho, Portugal poderia aprender alguma coisa com os outros países?

Todos temos talento, uma coisa que falta em Portugal é o trabalho em equipa, a competição é saudável se for uma coisa construtiva e não destrutiva. As pessoas em geral, e as instituições em particular, têm de pensar que estamos todos a trabalhar para o mesmo fim. Tem-se um pouco a mania de pensar: "isto é o meu trabalho, é a minha quintinha" e não vamos mais longe precisamente por não trabalharmos em equipa. Isso aprendi em Boston, as pessoas competem entre elas, sim, mas também sabem trabalhar em equipa. A formação existe, temos pessoas de topo, mas falta trabalhar em equipa e em conjunto para um fim maior.

Ganha muito mais do que se estivesse em Portugal?

O custo de vida é diferente e não faço o que faço pelo dinheiro, não é a recompensa monetária que é gratificante.

Está bem, mas independentemente disso.

O custo de vida é caro e, quando se avalia a qualidade de vida, não é a questão monetária, é a cidade onde se vive, o stress.

Não tem qualidade de vida?

Tenho, mas acho que a qualidade de vida em Lisboa é melhor, por exemplo. Não é só uma questão de dinheiro.

Já disse que está hoje em Paris, amanhã em outro sítio. O local hoje tem uma dimensão diferente?

Tem. Apanha-se um avião e é tudo muito mais perto do que há uns anos. A facilidade de mobilidade muda um bocadinho como se pensa o trabalho e onde se quer estar a viver.

E onde quer estar daqui a 20 anos?

[Ri] Não sei, não sei mesmo. É importante que esteja a desenvolver projetos que me fascinem e motivem, agora a localidade, o país. não sei. Mas acho que ficarei mais pela Europa

E Portugal?

Não está de todo fora da lista, mas é uma questão que depende mais das oportunidades do que propriamente do país.

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