Municípios alentejanos da raia anseiam pela reabertura de fronteiras com Espanha

Falta de clientes espanhóis asfixia a economia já de si empobrecida. Aguarda-se luz verde de António Costa e Pedro Sánchez antes que seja tarde demais

O encerramento das fronteiras terrestres com Espanha, desde janeiro, deixou em situação difícil toda a economia, sobretudo para os concelhos da zona da Raia, como é caso de Elvas, Campo Maior e Arronches, no distrito de Portalegre e Alandroal no distrito de Évora.

A restauração e hotelaria estão dimensionadas para receber entre 40 a 80% dos clientes espanhóis na região alentejana da fronteira. Toda a economia depende direta ou indiretamente da presença dos clientes do Pais vizinho que agora não se deslocam de um lado ao outro, movimento natural e enraizado nos hábitos de vida, com relações familiares e comerciais.

No pico da última onda, o encerramento de fronteiras foi aceite como uma inevitabilidade, mas agora que a pandemia está mais controlada e com o prolongar dos efeitos do encerramento dos estabelecimentos, o restabelecimento das fronteiras está a ser visto como uma penalização acrescida e uma dificuldade maior para a economia regional.

Preocupação em Elvas

Sérgio Ventura, vereador na Câmara Municipal de Elvas, garante que "a autarquia está preocupada com esta situação". "Como sabem, nós somos uma cidade de fronteira. O nosso dia-a-dia é feito em ligação com o outro lado. A atividade comercial e económica da nossa cidade tem dificuldades com as fronteiras fechadas, mas estamos esperançados que brevemente as fronteiras possam abrir e possamos voltar ao normal funcionamento da nossa cidade e do nosso concelho. Obviamente que o impacto não é só em Elvas. Também Badajoz deve estar a sofrer com este encerramento. Vamos ver se no mês de maio os turistas podem vir", acrescentou.

O vereador elvense, Sérgio Ventura, refere que "a decisão de abertura das fronteiras é da responsabilidade dos governos dos dois países. No entanto, a Câmara de Elvas tem mostrado a sua preocupação, tal como todas as localidades vizinhas da zona de fronteira".

A verdade é que, ainda na semana passada, o primeiro-ministro, António Costa, afastou o levantamento para breve das restrições de circulação nas fronteiras terrestres, garantindo que essa decisão será tomada apenas quando Portugal e Espanha concluírem "estar reunidas as condições de segurança".

Comércio de Campo Maior afetado

Desde o final de janeiro que as fronteiras terrestres com Espanha se encontram fechadas, sendo poucas as exceções previstas para que se possa transpor essa barreira entre os dois países. "O comércio local está a sofrer algum revés, o que é normal, porque a vinda a espanhóis a Campo Maior, como de campomaiorenses a Badajoz, também dinamiza a economia, tanto de um lado como do outro", assegura João Muacho, presidente da Câmara de Campo Maior que se diz expectante que as fronteiras possam abrir "a breve trecho".

A restauração de Campo Maior, sente o presidente da câmara, será o setor mais afetado por este encerramento forçado de fronteiras, e com a consequente redução de clientes, até porque os "espanhóis gostam da gastronomia alentejana". "A situação sanitária prevalece sobre a situação económica, é o que existe, de momento, e temos de aceitar", diz ainda João Muacho, assegurando que, assim que as fronteiras possam abrir, o Município de Campo Maior está disponível para retirar, de imediato, as barreiras que impedem a passagem na fronteira do Retiro que liga Campo Maior a Badajoz e é um dos locais de passagem não autorizados.

Por mais que redução de casos de covid-19, nos últimos tempos, tanto em Campo Maior, como Elvas, assim como na Estremadura espanhola, assegura o presidente da Câmara de Campo Maior, João Muacho, pudesse "indiciar a reabertura das fronteiras", o autarca considera que essa mesma reabertura poderá vir a traduzir-se "num aumento de casos num futuro próximo". O município, adianta, não tem outra solução se não acatar as diretrizes da Direção-Geral da Saúde e do Governo.

Apesar dos esforços que o município de Campo Maior, à semelhança de outros, tem feito, para que as fronteiras possam reabrir, "o quanto antes", João Muacho tem reunido com os presidentes das autarquias de Elvas e Badajoz, a decisão é de Lisboa e Madrid.

Arronches lembra "economia frágil" da região

Arronches, ainda no distrito de Portalegre, sofre com o encerramento da fronteira do Marco com La Codosera (Badajoz), pois o único ponto de passagem é a fronteira de Caia, em Elvas a mais de 50 quilómetros. As pessoas, sobretudo da freguesia de Esperança, "fazem vida de um lado de lá e de cá e esta situação veio trazer grandes transtornos", comenta a presidente da Câmara de Arronches, Fermelinda Carvalho, que não esconde que, inicialmente, concordou com o encerramento de fronteiras em 2020, tendo em conta o medo e o desconhecimento que existia em torno do vírus da covid-19. "Mais tarde, percebi que não é por aí, não é isso que faz aumentar ou diminuir os casos", alega a autarca.

Agora, Fermelinda Carvalho assegura que não faz sentido que as fronteiras se mantenham encerradas, mensagem que já foi transmitida ao ministro da tutela. "Há toda uma economia que é importante que funcione, nestas zonas raianas, mas essa economia foi travada por este encerramento de fronteiras", acrescenta. A autarca arronchense lembra ainda "os transtornos provocados por esta situação a quem trabalha do outro lado da fronteira, tendo apenas a fronteira do Caia como passagem autorizada. Nesta fase, já se justificava a abertura das fronteiras terrestres com Espanha", assegura.

Fermelinda Carvalho lembra ainda que a economia nesta região é "bastante frágil". "A restauração, felizmente, já está aberta, e já se provou que não é aí que os contágios acontecem. Nós somos um território com muito poucas pessoas e as pessoas aqui não andam, aos milhares, no mesmo local, pelo que eu acho que as coisas podem funcionar com os devidos cuidados", concluiu a autarca.

A presidente do Município de Arronches recorda também que, por esta altura, são permitidas poucas pessoas nos restaurantes, quando em supermercados e outras superfícies comerciais podem estar, em simultâneo, "às centenas". Os apoios do Governo às empresas, diz ainda, são "muito fracos", situações que, conjugadas, com o encerramento das fronteiras, "empobrecem ainda mais este território".

Alandroal que tentar compensar as restrições

Alandroal, no distrito de Évora, outros dos concelhos que sofre com o encerramento da fronteira com Espanha, vive dias difíceis devido a um surto de 26 casos de Covid, entretanto já resolvido, localizado num estaleiro da Ferrovia Évora-Elvas. Os trabalhadores itinerantes afetados pelo surto que neste momento se encontram no concelho, impediram o Alandroal de avançar no desconfinamento.

O público espanhol tem vindo, ao longo dos últimos anos, a conhecer Alandroal, sobretudo devido à sua gastronomia, traduzindo-se numa "faixa importante dos visitantes" do concelho, situação que, por esta altura, devido ao encerramento de fronteiras, não é uma realidade, referiu-nos o presidente do Município João Grilo.

Apesar de ainda não estarem a funcionar como no resto do Pais que avançou no desconfinamento, os restaurantes do concelho esperam, de acordo com João Grilo, que "quando puderem reabrir a cem por cento, possam já contar com o público espanhol".

"Eu entendo que, durante muito tempo, se justificou esta medida (do encerramento de fronteiras), atendendo à situação pandémica, quer em Portugal, quer em Espanha, mas a situação tem evoluído positivamente, dos dois lados, e à medida que avança o desconfinamento também se torna mais difícil perceber por que é que esta condicionante se mantém", alega João Grilo.

O autarca adianta que gostaria de ver acontecer a reabertura de fronteiras o quanto antes, para que "as pessoas possam começar a circular", até porque "o risco (de contágio) está muito mais baixo". "Temos todos, de alguma forma, tentar compensar as restrições e contribuir para a manutenção da atividade económica", diz ainda.

João Grilo confessa que espera que o assunto "esteja já a ser seriamente ponderado", para que possa ser colocado no terreno, "o mais brevemente possível, face à realidade que se vive este momento e à necessidade que há de possibilitar às pessoas que circulem entre os dois lados".

Desde o final de janeiro, as fronteiras terrestres com Espanha encontram-se fechadas, sendo poucas as exceções previstas para que se possa transpor essa barreira entre os dois países. Em situação difícil, acabou por ficar toda uma economia, sobretudo para os concelhos da zona da Raia.

Serviço especial da Rádio ELVAS para o DN

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