Morreu Daniel Serrão, o grande impulsionador da bioética em Portugal

Especialista em anatomia patológica, o médico nunca conseguiu recuperar do atropelamento que sofreu em 2014, no Porto

"Um homem de dignidade, de uma capacidade intelectual invulgar. Uma pessoa superior". Carvalho Guerra, ex-reitor da Universidade Católica do Porto, não poupa elogios ao "belíssimo professor de anatomia patológica", Daniel Serrão, que morreu ontem, aos 88 anos, vítima de problemas respiratórios provocados por um atropelamento que sofreu há mais de dois anos. "Vai fazer falta à cidade do Porto, ao País, ao mundo".

Daniel Serrão, professor catedrático e investigador, não foi só o pai da bioética em Portugal. "Foi o pai de muitas outras coisas, pelo exemplo que deu com a sua vida de professor e como homem da cultura". Dava conselhos a muita gente, inclusive a Carvalho Guerra, que o conheceu quando foi estudar para o Porto, aos 18 anos. "Vivi a vida inteira a ouvir conselhos dele", recorda o também presidente da Forestis. Daniel Serrão era um homem sábio ao serviço dos outros. "E nunca esperou um agradecimento".

O que mais tocava Carvalho Guerra era "a personalidade vincada de Daniel", um "cristão autêntico que defendia os princípios fundamentais da doutrina cristã", um homem que "criticava a política, quando ela merecia ser criticada". Em Portugal, "foi talvez o primeiro a chamar a atenção para a necessidade de existência da bioética".

"Príncipe da medicina", como lhe chamou Miguel Guimarães, presidente do concelho regional do norte da Ordem dos Médicos, Daniel Serrão nasceu em Março de 1928, em Vila Real, onde fez parte dos estudos. Também estudou em Aveiro e Coimbra. Acabou o curso de Medicina com média de 17 valores e doutorou-se, em 1959, com média de 19. Seis anos após ter concorrido a professor extraordinário de Anatomia Patológica - e ser aprovado por unanimidade -, foi mobilizado para Luanda, onde trabalhou no hospital militar.

Depois de regressar a Portugal, concorreu a professor catedrático, em 1971, tendo assumido a direção do Serviço Académico e Hospitalar de Anatomia Patológica. Entre 1975 e 1976, viu-se impedido de exercer funções devido a um "saneamento selvagem", como escreveu na sua biografia. É então que monta um laboratório privado de Anatomia Patológica, onde, de 1975 até 2002, realizou um milhão e seiscentos mil exames histológicos e citológicos para hospitais públicos e privados.

Daniel Serrão casou-se com Maria do Rosário, antiga professora de ginástica, com quem teve seis filhos, um dos quais o empresário, comentador de desporto e conhecido adepto do FC Porto Manuel Serrão. Perdeu um filho em 1993 e uma filha em 2014. Durante dez anos fez parte do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV) e, por ser membro da Academia Pontifícia para a Vida, foi também conselheiro do papa João Paulo II.

"Foi um médico brilhante, um pensador, que transmitiu muito conhecimento aos médicos e futuros médicos", recorda Miguel Guimarães, que destaca o seu valor humanístico e a sua bondade. Já o jornalista Manuel Queiroz fala de Daniel Serrão como "uma pessoa que sempre foi muito simples", um homem "muito simpático", que se colocava "ao serviço das pessoas sempre que era preciso".

Apesar de uma forte ligação com a cidade do Porto, era "vagamente sportinguista". "Pouco praticante", segundo Manuel Queiroz. Até 2014, foi uma pessoa bastante ativa. "Sofreu o acidente exatamente por ser muito ativo. Andava sempre uma hora por dia. Participava em tudo o que lhe pediam. Estava sempre disponível". Daniel Serrão foi atropelado enquanto atravessava uma passadeira, no Porto, tendo sofrido um traumatismo cranioencefálico grave. Desde então, nunca conseguiu recuperar.

Numa mensagem publicada no site da Assembleia da República, Marcelo Rebelo de Sousa apresentou as condolências à família. "Com o falecimento de Daniel Serrão, desaparece, além de uma personalidade de assinalável dimensão cultural, um professor e investigador notável, que tanto contribuiu para a renovação da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e, depois, para a afirmação da Universidade Católica Portuguesa", lê-se na nota.

Para o presidente da Associação Portuguesa de Bioética, o médico Daniel Serrão foi "um dos grandes obreiros da introdução da bioética em Portugal" e "uma das personagens mais marcantes da vida portuguesa." Sebastião Feyo de Azevedo, reitor da Universidade do Porto, recordou um "brilhante estudante da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto", onde se afirmou "como um dos professores de maior destaque (...) quer pela sua obra científica, quer pela sua vasta intervenção pública em prol dos valores humanistas".

Ao longo da vida, Daniel Serrão recebeu vários prémios e distinções, entre as quais Grã Cruz da Ordem Militar de Santiago de Espada, e destacou-se pelas posições que tomou em temas controversos como o aborto, o clonagem humana e as barrigas de aluguer. O funeral realiza-se hoje, às 09.45, na Igreja da Lapa.

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