Ministro admite mais mortos. Especialista fala em "surto estranho"

Adalberto Campos Fernandes prometeu "agir com toda a firmeza" no "apuramento factual" da origem do surto de legionella no São Francisco Xavier. Marcelo Rebelo de Sousa espera relatório sobre as causas dentro de uma semana

Onze dias após o primeiro caso confirmado de legionella no Hospital de São Francisco Xavier, o surto já matou quatro pessoas, o número de infetados continua a aumentar e há mais doentes graves internados nos cuidados intensivos: já são sete. Ontem, foi confirmado o 44.º caso e o ministro da Saúde admitiu que podem surgir mais mortes. Passado o período de incubação - que se prolonga até dez dias -, o especialista ouvido pelo DN fala num "surto estranho". E o Presidente da República espera um relatório sobre as causas do surto dentro de uma semana.

Lamentando as mortes, o ministro da Saúde admitiu que "é possível que possa vir a acontecer um ou outro caso porque se trata de doentes com grande vulnerabilidade". Adalberto Campos Fernandes diz que "o risco está presente e vale a pena falar verdade aos portugueses porque essa probabilidade existe".

Até agora, explicou ao DN o pneumologista Agostinho Marques, o número de mortes está dentro do expectável. "O número de mortes por pneumonia nesta população com comorbilidades e com idade está mais ou menos dentro do esperado. São 10%. Morreriam mais se não houvesse cuidados intensivos", adiantou o diretor do Serviço de Pneumologia do Centro Hospitalar de São João.

Relativamente ao aumento do número de pessoas internadas em cuidados intensivos, o especialista acredita que poderá estar relacionado com "a gravidade da doença" ou mesmo com a "mediatização". "É uma questão de precaução. Quando o doente tem insuficiência respiratória, vai para os cuidados intensivos. É o procedimento normal quando há agravamento da situação e questões de risco", diz ao DN o professor catedrático de medicina.

Pouco tempo depois de ser anunciada a terceira morte - a de uma mulher de 68 anos no Hospital de São Francisco Xavier - surgiu um novo balanço da DGS: quatro óbitos e sete doentes nos cuidados intensivos. Um desses infetados está internado no Hospital da Luz e encontra-se estável. Todos os doentes já tinham problemas de saúde crónicos e a maioria tem mais de 70 anos.

Na opinião de Agostinho Marques, "o surto é estranho". "Normalmente quando há fuga de água com legionella, aparece uma contaminação brusca e vão aparecendo casos ao longo do tempo, mas ao fim de dez dias deixam de aparecer. Isto faz pensar que o que quer que tenha causado o surto manteve-se a contaminar água com a bactéria."

O primeiro caso surgiu no dia 31 de outubro e, desde então, o dia 4 de novembro foi aquele em que foram identificados mais doentes (13), tendo sido registado um decréscimo nos dias seguintes. Graça Freitas, diretora-geral da Saúde, acredita que o surto esteja a entrar "numa fase decrescente" e que será "dado como controlado dentro de poucos dias".

Em curso estão agora as investigações. Adalberto Campos Fernandes lembrou, ontem, que "está a decorrer "um conjunto de inquéritos" e que "é fundamental perceber como é que equipamentos que têm contratos de manutenção, de vigilância, que estão subcontratados, podem, ao que tudo indica, ter libertado para a atmosfera estas bactérias". Garantiu, ainda, "agir com toda a firmeza e determinação sobre aquilo que for o apuramento factual das responsabilidades".

Já Marcelo Rebelo de Sousa recordou que o ministro espera um relatório sobre as causas dentro de uma semana e frisou que "é muito importante, por uma questão de transparência num serviço público, saber se a causa se localizou nesse serviço público, qual foi a causa e, portanto, a que conclusões chega o inquérito administrativo antes da investigação do MP".

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