Meio milhão por beatificação e casas a custo zero. Os novos pecados do Vaticano

Em Itália, saem hoje dois livros sobre o império financeiro do Vaticano. Gianluigi Nuzzi, que já tinha escrito sobre o Vatileaks, volta a abalar a Cúria

Via Crucis, o livro da autoria do jornalista Gianluigi Nuzzi, chegou às livrarias italianas esta quinta-feira, mas a polémica em relação ao conteúdo da obra precede a sua publicação. Sobretudo desde que, no início da semana, o Vaticano confirmou ter detido para interrogatório um prelado e uma especialista em relações públicas, que são suspeitos de passar informação sigilosa ao próprio Nuzzi. Os visados - o espanhol Lucio Angel Vallejo Balda e a italiana Francesca Chaouqui - faziam parte da COSEA, na sigla em italiano, uma comissão criada pelo Papa Francisco para estudar as reformas na Igreja Católica, designadamente ao nível económico e burocrático.

Segundo os media italianos, o relatório que resultou da análise desta comissão foi entregue ao Papa no ano passado, mas terá sido facultado igualmente ao jornalista. O Vaticano não o nega e, em declarações à comunicação social após as detenções, o porta-voz da Santa Sé admitia que tanto o livro de Nuzzi como o de Emiliano Fittipaldi - outro jornalista que publica esta semana mais uma obra sobre a Cúria Romana - são o resultado de "traições graves" da confiança do Papa Francisco.

Mas a figura do Papa parece ficar salvaguardada no rio turbulento de informações que o livro de Nuzzi, Via Crucis, traz à luz do dia. Segundo o autor, que publicou em 2012 Sua Santidade. As Cartas Secretas de Bento XVI - que destapava os casos de corrupção no Vaticano - Francisco tem tentado pôr ordem nas finanças da Santa Sé, apesar de encontrar pelo caminho inúmeros obstáculos.

Na sua nova obra, Gianluigi Nuzzi revela os dados dos escândalos financeiros que foram descobertos pela COSEA; a própria comissão admitia que existia "total opacidade" e "descontrolo" nas contas do Vaticano e os documentos que Nuzzi reproduz ao longo de 35 páginas do livro, indica o El Mundo, deverão comprovar a veracidade dos factos. A documentação não foi roubada, garantiu o editor do livro, Lorenzo Fabio, mas cedida voluntariamente ao autor.

Sobre as beatificações e santificações, diz Nuzzi que são uma autêntica "máquina de fazer dinheiro" e que por cada uma o Vaticano chega a cobrar uma média de meio milhão de euros. Só para abrir o processo podem ser necessários 50 mil euros, exigindo-se depois mais outros 15 mil para cobrir os custos da operação, escreve o jornalista. Afinal, o que conta não são os milagres do futuro santo ou beato, mas o dinheiro que isso poderá trazer à Santa Sé.

A caridade é outra das matérias exploradas por Nuzzi, que aprofunda a gestão do Óbolo de São Pedro, o fundo constituído pelas esmolas dos fiéis. Todos os anos, o Vaticano publica as verbas angariadas, mas não indica o seu destino final. Segundo o jornalista, dos 53,2 milhões de euros obtidos em 2012, 35,7 milhões foram para a Cúria Romana, 6,3 milhões foram guardados como fundos de reserva e apenas 11 milhões foram, efetivamente, empregues na ajuda aos mais desfavorecidos.

Sobre o património imobiliário da Santa Sé em Roma, Nuzzi escreve que a Igreja recebe tratamento privilegiado e em muitas ocasiões está isenta de pagar alugueres ou impostos. De acordo com o jornalista, a Santa Sé tem cinco mil imóveis no centro de Roma e na cidade do Vaticano: no que diz respeito à capital italiana, Nuzzi detalha que as rendas cobradas por 115 imóveis vão dos 1,72 euros aos 100 euros mensais, sendo que os apartamentos têm áreas entre os 700 e os 200 metros quadrados. No livro, o jornalista chega a identificar os cardeais, os apartamentos em que vivem e o valor pago aos senhorios.

Nuzzi debruça-se ainda sobre os benefícios fiscais na Cidade do Vaticano, onde não se cobra IVA e "ninguém paga impostos". Só as pessoas que vivem dentro dos limites da cidade do Vaticano ou os funcionários dispõem de um "cartão de aquisição" que lhes permite desfrutar destes benefícios fiscais. Mas, assinala o jornalista, entre habitantes e trabalhadores, deveriam existir 6000 cartões - há mais de 40 mil em circulação. Ou seja, existirá quem faça compras a baixo preço no Vaticano para revender noutros países.

O Vaticano já respondeu às revelações e, apesar de não ter negado nenhuma das informações recolhidas pelo jornalista, destacou em comunicado que são possíveis diferentes leituras dos mesmos dados. Sobre a distribuição das esmolas, por exemplo, o porta-voz da Santa Sé, Federico Lombardi, diz que as obras de caridade são uma das finalidades essenciais, mas os fiéis não excluem que o Papa possa avaliar as situações de emergência e responder "da maneira que considere melhor para o bem da Igreja universal".

Além do livro de Nuzzi, chega às bancas italianas também esta semana a obra de Emiliano Fittipaldi. 'Avareza' numa tradução do italiano, faz uma descrição pormenorizada do império financeiro do Vaticano, remetendo para a utilização "pouco ética" do dinheiro que é feita por alguns dos sacerdotes e a alegada reforma do Banco do Vaticano que, segundo Fittipaldi, não chegou a acontecer.

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