Mais bodas, mas lucros são arrasados pela inflação

O número de casamentos disparou este ano, sobretudo à boleia das festas adiadas na pandemia. Aumento dos preços preocupa as empresas que se regem por contratos anteriores à inflação. Noivos não desistem e optam por festas mais pequenas para aliviar custos.

Os fatos saíram do armário ao fim de dois anos. Sem máscaras e com as restrições fora da lista de convidados, os noivos voltam a querer dar o nó este ano e celebrar o sonho adiado. Sem mãos a medir, as empresas do setor desdobram-se para dar resposta à elevada procura e recuperar as tesourarias depauperadas pela covid-19. Mas, ainda que a pandemia tenha saído da equação, há novas nuvens no horizonte. O brutal aumento dos preços da energia e das matérias-primas está a travar as contas das empresas que veem as margens de lucro esmagadas nos contratos assinados em 2020 e 2021. A recente realidade fez disparar os custos do setor entre 20% e 40%, dizem os empresários, mas as matérias-primas são pagas sob a inflação de 2022, ainda que os preços contratuais das bodas aludam aos dois últimos anos.

"Os valores para este tipo de eventos são fechados, muitas vezes, com um ou dois anos de antecedência, pelo que todo este aumento de preços está a ir diretamente à margem das empresas. Apesar de a inflação estar prevista em qualquer contrato, nunca é equacionada uma inflação tão elevada, o que leva a que a margem operacional reduza drasticamente", explica o presidente da Associação Portuguesa de Empresas de Congressos, Animação Turística e Eventos (Apecate), António Marques Vidal.

Os dois anos de interregno que a pandemia colocou aos casamentos deram gás à celebração de bodas neste ano. Até maio, foram celebrados 9909 casamentos em Portugal, de acordo os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE). O valor corresponde já a um aumento de 12% face a igual período de 2019, mas foi em junho que as celebrações dispararam. Só no último mês somaram-se 4546 uniões, revelou o Ministério da Justiça ao DN/Dinheiro Vivo, ou seja, o equivalente a quase metade dos casamentos registados nos primeiros cinco meses de 2022. Os empresários do setor admitem que a agenda está praticamente esgotada para este ano e os novos pedidos estão já a ser alocados a 2023.

A pandemia meteu travão às festas e a maioria dos casamentos celebrados este ano respeitam ainda a eventos adiados. "Este ano, perspetiva-se um número de casamentos em linha com 2019. Se pensarmos que durante dois anos não foram possíveis estes eventos, facilmente se entende que haja agora um pico de procura neste mercado", justifica o representante das empresas de eventos. Os espaços para estas festas estão lotados e sobram apenas datas para os meses de inverno.

O Convento do Espinheiro, Historic Hotel & Spa assinala o recorde de 42 casamentos agendados neste ano, o dobro de 2019. "Este será o ano em que o segmento de casamentos terá maior reflexo na operação, uma vez que é o ano em que teremos o maior volume de casamentos, até hoje, registados no hotel", revela o diretor de vendas da unidade hoteleira em Évora, Ricardo Barreto. Já o Pestana Hotel Group soma 350 casamentos agendados até ao final do ano, entre hotéis e Pousadas, e admite que "o ano de 2022 tem sido atípico neste segmento, no sentido em que existe uma grande procura de espaços para a realização destes eventos". O maior grupo hoteleiro nacional confirma que estão ainda "a decorrer os eventos que foram reservados em 2020 e 2021 e que foram adiados devido à pandemia".

Preços sobem à boleia da inflação

​​​​Celebrar um casamento com pompa e circunstância não é barato. A fatura pesada pode ascender, facilmente, às dezenas de milhares de euros. Os cálculos agravam-se à luz da inflação que atingiu em junho o recorde de 8,7%, ou seja, o valor mais alto registado em 30 anos no país, diz o INE. Os preços subiram por arrasto, o que se reflete nos principais fornecedores do setor dos casamentos.

Uma análise realizada pela Fixando para o DN/Dinheiro Vivo deslinda que os preços dos serviços de decoração de festas e eventos dispararam 99% face a fevereiro. A plataforma online de contratação de serviços adianta que a subida dos valores no aluguer de equipamentos para festas se fixou em 79% e a mão-de-obra para eventos encareceu 60%, em comparação com o segundo mês de 2022. Já os serviços relativos à organização de eventos estão 13% mais caros.

As contas de somar são já o dia-a-dia de Ana Batalha, proprietária da Quinta do Roseiral, na Ericeira. A responsável pelo espaço de eventos assume a ginástica contabilística para conseguir realizar as celebrações e sublinha a subida de preços em todos os itens da festa, do catering à decoração. "Um pacote de cem velas custava quatro euros e agora custa 6,75 euros. Estamos a falar de milhares de velas que compramos. Um quilo de salmão, por exemplo, custa agora 24 euros, o dobro do preço. Os balões de hélio, que comprávamos por um euro e pouco, custam agora mais de três euros cada um. Um ramo de rosas era-nos vendido a 12 euros e agora subiu para 20 euros. De semana para semana recebemos aumentos de preços", enumera.

A Quinta do Roseiral tem 72 casamentos contratualizados para este ano, valor que supera já as celebrações de 2019. Uma parte desses eventos diz respeito aos casamentos adiados na pandemia e é aqui que as contas se complicam. Os contratos assinados há dois anos, com preços fixados nos 115 euros por convidado, não podem ser alterados e a proprietária admite que já teve "situações de prejuízo" e exemplifica. "Numa fatura de fogo de artifício, por exemplo, o fornecedor cobrou este ano mais 450 euros além do valor contratualizado com os clientes e esse aumento teve de ser suportado pela Quinta do Roseiral. Num outro contrato de 2020, o preço do disc jockey (DJ) era 300 euros inferior e, mais uma vez, pagámos nós a diferença", explica, justificando que os "contratos assinados têm de ser honrados" e que os clientes se recusam a pagar mais além do acordado no passado.

"Não podemos aumentar preços e isso implica entrar na nossa margem de lucro. Viemos de uma pandemia e tivemos quase dois anos sem trabalhar e agora com um aumento de preços terrível acabamos por não ter lucro que compense o prejuízo que existiu", lamenta a empresária.

Os pacotes de casamento vendidos este ano foram já atualizados para os 125 euros por convidado e, em 2023, serão vendidos a 145 euros por pessoa, de forma a refletir o aumento dos custos. Ana Batalha adianta que os novos contratos celebrados com futuros noivos irão ainda incluir uma cláusula de proteção relativamente à inflação. O objetivo é salvaguardar a empresa da subida de custos, acordando com os clientes que os preços possam ser atualizados face à data de assinatura.

Também a empresa Taste, Catering & Events, que organiza casamentos com serviço de catering em venues próprios, admite subir as tarifas no próximo ano em 20%. Ou seja, o preço base será de 115 euros por convidado e não 96 euros, como vigora atualmente.

"A maioria dos contratos que estamos a concluir foram fechados há bastante tempo. Esta subida de preços súbita fez com que não pudéssemos alterar o que estava contratado. Inclusive, ainda não atualizamos os preços e estamos a sofrer nas margens de lucro por causa disso", admite o diretor de desenvolvimento de negócios da empresa, Manuel di Pietro, que assume que o impacto dos custos anda na ordem dos 19%. "A alimentação, como a carne e o peixe, aumentou imenso. Um quilo de novilho custa 30 euros, antes custava 16 euros. Tudo refletido na execução do menu traduz-se em redução de margem", confirma.

Aumentos não afastam procura

Para os noivos que assinem contratos este ano, os aumentos são inevitáveis e não respeitam apenas aos serviços do espaço do copo de água. Também as alianças, elemento indispensável na cerimónia, pesam mais na carteira. "O único fator que impactou os preços foi o aumento dos valores da matéria-prima. O ouro, com a pandemia e com a guerra, valorizou e, como tal, o aumento das joias subiu", atesta Fátima Santos, secretária-geral da Associação de Ourivesaria e Relojoaria de Portugal (AORP). A porta-voz admite que a procura de joias de casamento aumentou e que as vendas são já superiores a 2019. "Tal como a paragem destas e outras celebrações, como batizados, contribuiu para as dificuldades vividas no setor em contexto pandémico, a sua retoma trouxe, automaticamente, um maior volume de vendas das joias que lhes são, por norma, destinadas, sabendo-se, claro, que as alianças são as mais procuradas pelos noivos", diz.

Apesar de o orçamento dos casamentos estar a ficar mais caro, o aumento dos preços não preocupa o setor que acredita que os custos mais elevados não impactarão as futuras cerimónias. "Os preços não afastam a procura, mas será exigido maior racionalismo e cuidado nas opções. Hoje exige maior criatividade para manter orçamentos, como seja optar, por exemplo, por convites digitais em vez de papel, entre outras soluções. A vontade de contrair matrimónio e partilhar essa felicidade com a família e os amigos é mais importante do que as dificuldades que possam surgir do ponto de vista da necessidade do investimento", acredita António Brito, responsável pela Exponoivos.

A opinião é partilhada pelo empresário Manuel di Pietro, da Taste, Catering & Events. "O lado sentimental sobrepõe-se à questão financeira. Não é que não haja alguma influência, mas não deixam de se fazer casamentos por causa do preço. O casamento é uma festa importante que custa o que custar, as pessoas sabem que não é por haver um agravamento de preços que vão deixar de o fazer. Os noivos podem começar a ter outros requisitos na festa, mas vão fazê-la na mesma", acrescenta.

Casar fora da época alta, ou seja, entre novembro e abril, ou em dias de semana, são já algumas estratégias que os noivos estão a adotar para tentar minimizar os custos da boda. E com os preços nas quintas e hotéis a subir, a lista de convidados está também a ficar mais curta. "Há cada vez mais a tendência de se optar por casamentos com menor número pessoas. Na procura para o próximo ano, registamos muitos casamentos com menos de cem convidados", indica a proprietária da Quinta do Roseiral.

Pedidos de crédito para casar aumentam

Recorrer ao crédito ao consumo tem sido cada vez mais uma estratégia adotada pelos noivos para fazer face às despesas do casamento. A Younited Credit, plataforma digital para a concessão de crédito a particulares, concedeu 21,3 milhões de euros a portugueses até junho para casar, revela a empresa ao DV/DN. No total, foram solicitados 2853 créditos à fintech francesa este ano, um valor acima dos 2377 créditos pedidos em 2019. Também o valor concedido superou os 17,7 milhões de euros emprestados antes da pandemia.

"Durante a pandemia, devido ao medo e restrições, muitas pessoas tiveram de adiar o seu casamento. Não só estamos a recuperar de um período pandémico devastador, mais do que duplicando o número de pedidos, mas vemos mesmo um aumento de 20% em relação ao período pré-pandémico, o que provavelmente significa que as pessoas que tiveram de cancelar o seu casamento conseguiram finalmente tornar realidade o seu projeto", explica Pablo Ripol, diretor de marketing da Younited Iberia. Maio foi o mês com maior procura, com 514 pedidos, mas foi em março que se registou o maior valor solicitado: 3,9 milhões de euros.

Os números revelam aumentos de 107% no número de pedidos e de 110% no valor solicitado face a 2021. No primeiro semestre do ano passado, foram solicitados à Younited Credit Portugal, na mesma categoria, 1374 créditos, num valor total de 10 milhões de euros. Já valor médio por pedido registou poucas flutuações entre 2019 e 2022, fixando-se nos 7500 euros.

Rute Simão é jornalista do Dinheiro Vivo

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