Kintsugi. Arte japonesa transforma problemas em algo sublime

"Eu só queria agradecer-te por teres tido a ideia de a minha mãe e o meu pai se conhecerem", disse, ele. "Porque eu gosto mesmo muito da minha mãe e do meu pai e estou muito feliz por eles se terem encontrado e por eu estar aqui"

Sendo a segunda de oito irmãos, nunca esperei acabar mais próxima do meu irmão Charley, que era o quarto. Em primeiro lugar, Charley era o clássico filho do meio, que se tornava quase invisível para os restantes. Para mim, ele era muito pequeno para brincar e muito crescido para ser tratado como um bebé, portanto tenho poucas memórias de nós a fazermos alguma coisa juntos.

Éramos também pessoas diferentes com caminhos diferentes. Ele era um bom aluno, mantinha o quarto arrumado e o cabelo penteado e passava o seu tempo com carrinhos da Matchbox, a revista Mad e a inventar engenhocas para neutralizar irmãos irritantes, enquanto eu era uma rebelde impulsiva, deixando o meu quarto numa confusão desastrosa enquanto saía furtivamente durante a noite para ir ter com namorados proibidos.

Quando fiz 18 anos, e a relação explosiva que tinha com a minha mãe rebentou finalmente, fugi de casa para viver com amigos antes de abandonar a faculdade na Califórnia e mudar-me para o Texas, onde dois anos mais tarde acabei a ter um bebé sozinha. Quando Charley completou 18 anos, ele mergulhou no mundo universitário e estudou Física em Berkeley, Boston e Bordéus.

Na faculdade, ele começou a escrever-me. Eu respondia-lhe e, pela primeira vez, começámos a conhecer-nos um ao outro. As cartas dele eram poéticas e engraçadas; as minhas eram autoritárias, magoadas e esperançosas. Estávamos os dois sozinhos e desejosos do conforto do amor familiar incondicional. Talvez o facto de termos tido tão pouca história a dois em crianças nos tenha permitido voltarmo-nos um para o outro dessa forma nova, ou talvez tenhamos tido sempre mais em comum do que suspeitávamos.

Um dia, quando Charley tinha 21 anos e estudava na Universidade Northeastern, em Boston, e eu tinha 24 anos e estava grávida do meu segundo filho em Austin, no Texas, Charley enviou-me uma carta dizendo que tinha decidido terminar o seu doutoramento no Texas para poder estar mais perto dos meus filhos e de mim. Algumas semanas mais tarde, ele chegou e tornou-se o tio com que os meus filhos cresceram, aquele que jogava jogos de tabuleiro e de futebol no quintal, que vinha às festas de anos e jantar durante a semana.

Nessa altura, os nossos papéis de infância tinham-se invertido. Eu era a mãe responsável, marcando a hora de dormir e dos trabalhos de casa, a mãe dos raspanetes cansados sobre quem tinha de parar de lutar com quem e ele era o divertido tio Charley, um palhaço crescido e exuberante cujos olhos se iluminavam e sorriam quando via os meus rapazinhos briguentos. Mais do que apenas uma parte importante da nossa família, ele fazia de nós um todo.

Quando os meus filhos estavam na escola primária, eu já me tinha casado e Charley também; ele e a mulher compraram uma casa a uma curta distância da minha. Embora tenha sido uma espécie de tempo feliz, reconheço agora como os nossos casamentos eram parecidos nos seus problemas. De alguma forma, ambos eram baseados na premissa de que nós dois, os desajustados, tínhamos tido a sorte de ter encontrado alguém tolo o suficiente para aguentar connosco. Tornou-se uma piada recorrente dizer que Charley era "despistado" e eu "um caso perdido", mas com o passar do tempo a piada foi tendo cada vez menos graça.

O casamento de Charley foi o primeiro a desfazer-se, numa câmara lenta angustiante. Eu observava impotente como ele, desolado e incrédulo, tentava manter as coisas. Quando deixou de o conseguir e eles se separaram, ele deixou o emprego e mudou-se para a Califórnia, devastado.

Os meus filhos estavam então na escola secundária, com as suas vidas cheias de amigos, desportos e raparigas, e o meu casamento estava a começar a desmoronar-se. Durante o dia, eu era capaz de não pensar no assunto. Mas à noite, antes de adormecer, tinha a consciência arrepiante de que, dentro de poucos anos, quando os meus filhos partissem para a universidade, eles levariam com eles o último pingo de felicidade existente em nossa casa.

Aproximava-se o Dia de Ação de Graças. Tinha passado quase um ano desde que Charley se tinha ido embora e eu sentia a falta dele. Nós tínhamos comemorado este feriado juntos durante quase uma década, por isso convidei-o para vir passar o fim de semana prolongado a Austin connosco. Ele disse que viria.

Depois de termos acertado os planos, mencionei a sua próxima visita à minha cunhada Libby, que vive em São Francisco. "Acho que deves saber", disse ela, baixando a voz para um sussurro, "que eu acho que ele deixou de lavar o cabelo. Deixou crescer um bigode horrível. Tranca-se no quarto e não fala com ninguém. Eu estou a começar a ficar seriamente preocupada, porque acho que ele está lá fechado a escrever um manifesto. Não o vais reconhecer".

Ela tinha razão, não o reconheci. E não era apenas o cabelo ou o bigode. Charley já não era Charley. Durante os quatro dias da sua estada, ele esteve lacónico e taciturno, não sorriu uma única vez, muito menos se riu.

No domingo de manhã, decidida a animá-lo, levei-o para uma caminhada em redor do lago, salpicando a nossa conversa com ditos espirituosos e trocadilhos inteligentes, duas das suas coisas favoritas. Nenhuma resposta. Em desespero, disse-lhe: "Olha só para as belas cores dos plátanos."

Ele virou-se para mim, triste. "para", disse. "Simplesmente para."

O coração partido de Charley estava a partir o meu.

Naquela mesma semana, eu estava na sala comum da equipa de marketing no trabalho quando uma nova contratada entrou para dizer olá. O nome dela era Regan; tinha acabado de ser transferida para o escritório de Austin vinda da sucursal da nossa empresa na região nordeste. Ela decidiu apresentar-se partilhando bolachas e histórias das suas dificuldades em se adaptar à vida do Texas: a cultura, o clima, a flora e fauna - se é que se pode chamar "fauna" àquelas gigantescas baratas voadoras.

"Mas o que é aquilo?", perguntou ela com uma indignação cómica enquanto nós comíamos as deliciosas bolachas recheadas. "Elas não são insetos. Os insetos são pequenos e fogem quando nos veem. Aquelas coisas são enormes e não são tímidas. Juro que estava a ver televisão ontem à noite e uma delas passou por mim e acenou, como quem diz "ei, vou só buscar uns cereais"."

Toda a gente se riu e, de repente, eu tive uma visão de Charley sentado no canto, a rir-se connosco. Novamente bonito e bem tratado, de pernas traçadas e os braços cruzados sobre o peito, ele estava a olhar para Regan e os seus olhos iluminaram-se. Depois, a visão desapareceu.

"Devias conhecer o meu irmão Charley", exclamei. "Porquê, ele é careca?", perguntou ela.

"Não", respondi.

"Não que haja alguma coisa de errado com isso", continuou ela. "É só porque todos os homens que as pessoas me têm apresentado ultimamente têm sido carecas. É uma tendência, aparentemente."

"Aqui está ele," disse eu, mostrando-lhe uma fotografia antiga que tinha em cima da minha mesa. "Ele vive na Califórnia."

Ela assobiou baixinho.

Assim que ela saiu, mandei um e-mail a Charley dizendo que eu tinha encontrado a mulher dos seus sonhos e que ele devia voltar para cá, casar-se com ela e viverem felizes para sempre. No fim incluí o endereço do e-mail profissional dela. Dez minutos depois, Regan reapareceu à nossa porta, de mãos nas ancas. "O que é que escreveste no e-mail para o teu irmão?", perguntou ela.

"Ui, porquê?"

"Acabei de receber um e-mail dele a pedir-me em casamento."

O escritório ficou em silêncio. Toda a gente estava a olhar para mim.

"Oh, desculpa", disse eu, sentindo-me a corar. "Ele pode ser um bocado... eu deveria ter... oh, meu Deus. O que é que ele disse?"

"Ele disse: "A minha irmã diz que tu és perfeita para mim e eu confio na minha irmã, por isso queres casar-te comigo?""

"E tu respondeste?", perguntei timidamente.

"Sim! Eu disse: "Claro, eu caso contigo. Não tenho mais nada para fazer neste fim de semana."" Depois afastou-se a rir.

Nos meses que se seguiram passei pelo meu próprio divórcio e encontrei o meu verdadeiro amor, David, que dois anos mais tarde estava ao meu lado no casamento de Charley e Regan.

Para resumir uma história já de si curta: Charley e Regan continuaram a trocar e-mails a seguir àqueles dois iniciais, até que, finalmente, decidiram entrar num avião e conhecerem-se. Durante o seu primeiro encontro, Charley pediu Regan em casamento e ela disse que sim.

Nas fotografias do casamento deles, todos nós temos um ar incrivelmente feliz.

Numa noite, não há muito tempo, depois de eu ter acabado de ler aos três filhos deles uma história para adormecer, estava deitada com eles no escuro, ouvindo as suas respirações, até que uma vozinha cortou o silêncio.

Era Sam, o irmão do meio. "Tia Maddy?"

"Sim querido?"

"Eu só queria agradecer-te por teres tido a ideia de a minha mãe e o meu pai se conhecerem", disse ele. "Porque eu gosto mesmo muito da minha mãe e do meu pai e estou muito feliz por eles se terem encontrado e por eu estar aqui."

Fiquei recentemente a conhecer o kintsugi, a arte japonesa de usar metais preciosos em pó para reparar a cerâmica partida. Baseia-se na crença de que o partir faz parte da vida de um objeto, e que, quando remendada com ouro, platina ou, no meu caso, o terno amor de um filho do meio muito amado, as rachas feias são transformadas em algo sublime e único.

"Eu estou muito feliz também", respondi-lhe.

Escritora e instrutora de esqui em Avon, no Colorado. Exclusivo DN/The New York Times

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