Investigadores duvidam que astrolábio seja da frota de Vasco da Gama

Empresa acredita que instrumento encontrado ao largo da costa de Omã pertenceu à nau Esmeralda

Um grupo de arqueólogos marinhos afirma ter encontrado o objeto de navegação mais antigo da história: um astrolábio português, que terá sido construído entre 1495 e 1500. A descoberta ocorreu ao largo da costa de Omã e os investigadores acreditam que faz parte dos destroços da Esmeralda, uma nau da frota de Vasco da Gama, que naufragou em 1503. Da análise dos brasões não restam dúvidas - o astrolábio é português - mas os investigadores contactados pelo DN são cautelosos quanto à sua origem. Não há provas, alertam, que seja um astrolábio da Esmeralda.

"É uma descoberta extremamente rara. É uma peça excecional. Há apenas uma semelhante em Las Palmas. A questão é que surge num contexto de intervenção um pouco nebuloso. Não conhecemos os contextos da intervenção arqueológica e surgem muitas reticências quando esta é feita por uma equipa com antecedentes de caça ao tesouro", diz José Bettencourt, arqueólogo subaquático.

De acordo com o investigador do Centro de História de Além-Mar da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, o trabalho da empresa Blue Water Recoveries "parte da presunção de que aqueles vestígios são parte da nau Esmeralda e todo o questionamento é feito para provar essa hipótese". Contudo, sublinha, "em arqueologia, exploram-se os dados e só depois, cruzando com informação histórica, se pode colocar a hipótese".

No entanto, não restam dúvidas de que aqueles materiais "são restos de um naufrágio muito antigo, da primeira metade do século XVI, com grande probabilidade de ser português, até porque nessa altura a navegação europeia no Índico era dominada pelos portugueses". Mas "não há dados suficientes que mostrem de forma definitiva que pertence à Esmeralda".

David Mearns, da Blue Water Recovery, disse à BBC que foi "um grande privilégio encontrar algo tão raro, algo historicamente tão importante, algo que vai ser estudado pela comunidade de arqueólogos e que vem preencher uma lacuna". Descoberto em 2014, entre quase três mil artefactos, o disco de bronze tem 17,5 centímetros de diâmetro e cerca de dois milímetros de espessura. Foi analisado pela Universidade de Warwick, em Inglaterra, e apresenta dois brasões: um português e outro de D. Manuel I, rei português.
João Paulo Oliveira e Costa, professor catedrático da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, considera que é uma descoberta "particularmente interessante, porque são pouquíssimos os objetos que temos relacionados com essa fase tão antiga da história de Portugal". No entanto, refere, "se este astrolábio pertence à tripulação do Vicente Sodré, é o mais antigo [artefacto de navegação encontrado], mas se pertencer a outro navio português que se tenha perdido mais tarde, pode não ser". Embora saibam como é que os aparelhos eram feitos através de desenhos e descrições, ao vê-los é possível ter "uma noção muito mais clara de como eram fabricados e usados". "Tudo o que for achado em contexto de arqueologia subaquática será sempre uma ilustração do que temos descrito", acrescenta.

Contactado pelo DN, o historiador António Borges Coelho destacou que se trata de "uma descoberta importantíssima" do ponto de vista "histórico, arqueológico e técnico". "Dá-nos informações preciosas sobre o tipo de construção dos navios que descobriram o cabo da Boa Esperança", afirma.
Segundo João Paulo Costa, como Portugal ratificou a convenção de 2001 da Unesco, os achados pertencem ao país onde foram encontrados, mas podem ser estudados por investigadores portugueses. De acordo com a BBC, este é apenas o 108.º astrolábio a ser confirmado e catalogado.

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