Vinho português degustado por especialistas mundiais

Paz Levinson estudava literatura mas acabou num restaurante. Hoje está em França onde nasceu Oakes, o especialista de marketing e publicidade digital. O "professor" Stephen Lin queria os vinhos portugueses promovidos na China. Miguel Cabral fala da internacionalização da cortiça nacional. E há ainda o crítico do New York Times. Todos estiveram em Cascais, onde especialistas de todo o mundo falaram de... vinhos

Com um bom vinho podem juntar-se muitas pessoas diferentes com esse gosto em comum. O mundo vitícola pode ter França, Itália e claro Portugal como destaques, entre outros, mas é algo global como se viu esta semana na Wine Summit. No Centro de Congressos do Estoril juntaram-se americanos, franceses, chineses e da Argentina veio uma das melhores sommeliers. Durante três dias foram discutidos diversos temas, mas o DN foi conhecer melhor alguns dos intervenientes e perceber como nasce esta paixão e o que pensam do vinho português pessoas de áreas tão distintas como do marketing digital ou da cortiça.

Quando se fala de vinhos portugueses, o Porto é o primeiro a ser referido, mas parece já partilha grande parte da sua fama com o vinho da Madeira. Uns sabem mais do que outros, contudo, esta viagem a Portugal teve o condão de gerar maior curiosidade e até há quem pense em explorar mais as regiões vitícolas portuguesas.

E se ninguém dúvida que os vinhos portugueses estão entre os melhores, ficam alguns conselhos para melhor os promover em mercados distantes como o americano e o chinês.

Stephen Li, o educador por excelência

Na China vivem-se tempos de mudança relativamente ao vinho. Stephen Li dedica a sua vida à educação do negócio vitícola. Criou a sua escola, que no último ano letivo contou com mais de mil estudantes. Sorri quando é questionado sobre a qualidade dos vinhos chineses, destacando que há um longo caminho a percorrer no país. "Alguns vinhos chineses são bons. Podem saber bem, mas não são naturais porque os viticultores não têm a filosofia de fazer bons vinhos", referiu.

O especialista explica que muito do vinho vendido na China é estrangeiro e que a produção chinesa é misturada com o "sumo" que é comprado noutros países. Porém, este amante de vinho, de 38 anos, não tem dúvidas: "Temos potencial para ter um um bom vinho. Há investimento em certas regiões, tanto do governo como de empresas."

O interesse dos chineses pelo vinho é relativamente recente, segundo Li, que explicou que a adoção da cultura ocidental está a abrir portas a este mercado. No entanto, por haver um forte interesse do que vem do ocidente, há também tendência para se procurar os vinhos de fora e não o chinês. "Mais de 35% do vinho que temos é francês. Temos também australiano, chileno, espanhol e italiano", contou. E o português? "Gosto muito do Porto e na China também há quem goste." Ainda assim, é o vinho francês e o australiano que tem mais exposição, pelo que Stephen Li lançou o repto a uma melhor promoção do vinho português na China.

Nicholas Oakes, referência do marketing digital

Quando se nasce numa terra chamada Cognac parece quase impossível não se vir a gostar do mundo vitícola. Foi o próprio Nicholas Oakes quem brincou com a situação: "Foi algo natural!" Realçou que, tal como em Portugal, o vinho faz parte da cultura francesa e apesar de ter optado inicialmente por estudar línguas, acabou por mudar de ideias. Mas foi longe da terra natal que deu os primeiros passos numa carreira que aos 34 anos o colocam como uma referência do marketing e publicidade digital, sendo o responsável dessa área no Wine Searcher. O site é quase uma paragem obrigatória para quem procura vinhos e quer saber quanto terá de pagar por eles (www.wine-searcher.com). Com 4,7 milhões de visitas por mês, o site que começou em 1999 é um sucesso.

Depois de quatro anos na Austrália, onde trabalhou numa loja de vinhos e antes numa vinha, o visto expirou e Oakes rumou para a Nova Zelândia e por coincidência soube de uma vaga no Wine Searcher. "Achei que era um sítio excelente para trabalhar. Comecei primeiro na recolha de dados e mais tarde fiquei a liderar o departamento de marketing. Estou lá há cinco anos."

Tem 34 e entretanto deixou a sede para organizar um escritório no sul de França, mas... "acho que estou a apaixonar-me por Cascais!" A conversa muda para os vinhos portugueses e Oakes não podia ser mais sincero: "Tenho vergonha de estar em Portugal e não conhecer bem. Sou um amador!" Foge há regra da maioria dos presentes no Wine Summit, mas Oakes não quer ser um amador quanto a vinhos portugueses durante muito tempo. "Estou a ter a oportunidade de provar e os vinhos são fantásticos. Tenho de cá voltar." Admitiu que não iria embora sem provar um Porto e o vinho da Madeira: "São uma espécie de mito para mim."

Sendo um especialista de marketing e publicidade digital, Oakes deixou bem claro que os produtores têm de se adaptar aos tempos. E deu uns conselhos: "Os utilizadores recorrem cada vez mais aos telemóveis, por isso, os produtores têm de ter sites bons para essa plataforma. E depois há as redes sociais e que permitem que quem não tenha orçamento para contratar alguém, possa ele próprio contar a sua história, da região, dizer porque o seu vinho é diferente. As pessoas querem saber esses pormenores."

Paz Levinson, da literatura a sommelier

Vive em Paris, onde tem um restaurante, mas tudo começou na sua Argentina. Paz Levinson nasceu na Patagónia e mal sabia que ao inscrever-se no curso de literatura ia acabar como uma especialista de vinhos. Hoje fala com um enorme entusiasmo sobre o que faz. "Trabalhei num restaurante para pagar os estudos e foi lá que encontrei essa paixão", contou. Nunca pensou ser sommelier, mas o gosto foi crescendo e foi sendo desafiada pelo sommelier do restaurante onde trabalhava: "Eu adoro estudar, aprender, pelo que é perfeito, pois estamos sempre a aprender, temos de estar sempre atentos aos desenvolvimentos recentes, estudar as origens... Encontrei uma profissão que me assenta bem."

Aos 38 anos é uma respeitada sommelier, tendo sido por duas vezes nomeada a melhor na Argentina e uma vez das Américas. Mas afinal como se alcança este estatuto? "É provar, provar, provar! Há que dispender muito tempo para sermos bons e ir melhorando. No final é o cliente que tem o melhor serviço porque também nos tornarmos em especialistas melhores", salientou. Confessou que é de facto ainda um mundo de homens: "Num concurso, em 60 participantes só quatro eram mulheres." No entanto, disse que não considera que tenha sido mais difícil para ela chegar tão longe por ser mulher.

É uma apaixonada por vinhos portugueses e claro que o Porto e o vinho da Madeira são presenças garantidas no seu restaurante, tal como os vinhos do Douro e da Bairrada. Apesar de estar em Paris, revelou não se sentir pressionada em recomendar os vinhos franceses: "Recomendo muito os vinhos portugueses. Eu gosto quando os vinhos mostram as suas origens."

Miguel Cabral, quando a cortiça é uma referência

O vinho português é bom, como se pode confirmar ainda mais pelos comentários dos especialistas referidos, contudo tem uma forte concorrência de outros países. Já no que diz respeito à cortiça, a portuguesa é mesmo a referência. Estados Unidos, Itália, França, Espanha, Alemanha, África do Sul, Chile, Argentina... em qualquer destes países (e não só) é muito provável encontrar-se cortiça made in Portugal, com a Amorim & Irmãos em destaque. Professor na Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, Miguel Cabral (56 anos) é o responsável pelo Departamento de Investigação e Desenvolvimento nessa empresa.

Desde 1999 que abraçou a cortiça e a sua especialidade são as rolhas. "São segmentadas pelos vinhos nos quais são aplicadas. Há rolhas para vinhos de curto estágio em garrafas e para longo estágio, há as de champanhe..." A variedade é grande, a exigência enorme: "95 ou 97 por cento do que produzimos na Amorim & Irmãos é exportado. Nós somos de facto o país do mundo com maior produção de cortiça, mas Espanha, Itália e no norte de África também há produção", explicou Miguel Cabral.

E que não existam dúvidas que uma boa rolha faz toda a diferença: "Uma rolha de qualidade vai contribuir para o envelhecimento balanceado do vinho. Uma rolha de má qualidade vai permitir a aceleração desse envelhecimento, contribuindo para a não potenciação de todas as características do vinho."

Eric Asimov, o crítico do New York Times

Uma boa ou má crítica pode fazer toda a diferença e quando se fala do New York Times ninguém quer ter uma má. Eric Asimov é uma autoridade nesta área, sendo também autor de alguns populares livros. Mas afinal, como é que alguém se torna crítico de vinhos de um dos jornais mais importantes? "Pergunta difícil de responder... Certamente que não tinha intenções de o ser, mas sempre tive um fascínio pela comida e pelo vinho", contou. Asimov começou no jornal como jornalista no Nacional, mas a sua paixão pela comida vê-lo escrever sobre esse tema e conseguiu mudar para essa secção. Quando o crítico de vinhos reformou-se, Asimov foi convidado a substituí-lo.

Já são mais de 30 anos na área, seja como crítico ou a escrever sobre os vinhos e Asimov, de 59 anos, salientou: "Sei exatamente como começou esta paixão." É preciso recuar aos anos 70 quando o viajou pela primeira vez à Europa com os pais. Em Paris diz que foi exposto pela primeira vez a uma comida com "sabores tão vivos, vibrantes, deliciosos e puros". Nos EUA recorda como os enlatados, comida instantânea ou de pacote ainda eram o normal. "Fiquei muito interessado em comida e como vi frequentemente como o vinho fazia parte da experiência com comida, interessei-me também pelo vinho", referiu.

Como crítico já sabe que nem sempre vai agradar a todos. "Obviamente que as pessoas discordam de mim. Acontece muito. Por vezes as coisas tornam-se pessoais e as pessoas são más e disso não gosto." No entanto, admitiu que nunca teve grandes problemas, principalmente quando comparado com quando foi crítico de restaurantes: "Cheguei a receber ameaças de morte."

Mas vamos lá às críticas do vinho português e desde logo o vinho da Madeira é elogiado, com Asimov a dizer que o adora. "Portugal tem o benefício de ter uma variedade distinta de uvas, tem vinhos tradicionais", afirmou. Relembrou como a certa altura os produtores tentaram "adotar um estilo internacional", mas que foi uma tendência que foi revertida. "É uma direção inteligente." E é essa identidade que Asimov gostaria de ver ser mais promovida nos EUA. "Acho que a primeira impressão de Portugal é o Porto, mas também as uvas do vinho tinto do Porto. Precisamos de explorar melhor o vinho branco." E fica mais um conselho de um especialista, agora para o mercado americano: "Há poucos restaurantes portugueses. O vinho vem muitas vezes com a comida. Nos anos 90 e no início do século houve uma explosão de restaurantes italianos, com comida específica de determinadas regiões, o que lhes permite apresentarem os vinhos deles. Gostava de ver o mesmo acontecer com Portugal."

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