Vinho da costa alentejana esteve sete meses no fundo do mar

O vinho das setecentas garrafas que estiveram nas águas do Porto de Recreio de Sines ficou com melhor qualidade

A constante temperatura da água do mar em Sines nos 15 graus, seja no inverno ou no verão, transformou o vinho de 700 garrafas em algo com uma qualidade nunca provada na região. "Tem mais definição, exuberância e conseguimos uma maior fixação da qualidade", explicou ao DN o presidente da Associação de Produtores de Vinho da Costa Alentejana, José Mota Capitão, satisfeito com o resultado desta experiência que começou com o depósito deste vinho no mar de Sines em setembro de 2016. Chama-se Vinho de Mar e os rótulos já estão feitos para serem colados nas setecentas de garrafas que ontem foram retiradas das águas do Porto de Recreio de Sines. Vieram à tona pelas mãos de mergulhadores. Algumas traziam lapas bem agarradas. Estiveram distribuídas por diversas áreas e profundidades, acima dos sete metros, sendo agrupadas em conjuntos de 50, numa posição vertical, em grades metálicas que a água foi corroendo.

Reúnem os vinhos de várias castas dos únicos sete produtores vitivinícolas da costa alentejana e alguns exemplares serão oferecidos aos comandantes das embarcações que vão participar na Regata dos Grandes Veleiros (RDV Tall Ships Race) que passará por Sines entre 28 de abril e 1 de maio.

José Mota Capitão recorda que este método de maturação do vinho já foi testado no Douro e em Alqueva, mas assegura que não é a mesma coisa. "Ali, a água é doce e a temperatura é mais elevada. Em Sines, além da massa de água ser maior, existe a corrente fria que conserva a água nos 14 ou 15 graus no verão ou no inverno", refere, fazendo fé que esta promoção possa vir a conferir "notoriedade" aos vinhos da região, ainda distante da "fama" que caracteriza outros néctares nascidos no Alentejo mais interior.

Mas José Mota Capitão acredita que, se a campanha passar, há futuro para o setor junto ao mar, pegando nos exemplos das suas duas produções. Uma no Torrão (Alentejo mais interior) e em Melides (à beira-mar). "Tenho a certeza de que a costa alentejana é uma das regiões com maior potencial para fazer vinhos de guarda (os que têm grande potencial de envelhecimento) por causa da frescura do mar", explicou ao DN.

Nesta primeira experiência, para se tentar perceber o que o mar oferece aos vinhos locais, não foram observadas modificações significativas ao fim dos primeiros três meses de maturação. Mas o cenário mudou meses depois. Uma nova avaliação comprovou que a qualidade tinha aumentado, lançando otimismo entre os produtores locais.

"Isto é para continuar no futuro, porque uma só vez não permite afiançar que será sempre assim", alerta o mesmo dirigente, revelando que a monitorização é essencial para encontrar o tempo ideal de maturação. Aliás, o vinho terá ainda de ir sendo submetido a análises, para aferir se há modificações a nível da composição química, avaliando depois os sabores e os aromas.

O projeto tem um forte cunho turístico que, além da câmara, chama a si a própria Entidade Regional de Turismo do Alentejo e o Porto de Sines. Os produtores vitivinícolas já acordaram com a autarquia a realização de um evento anual dedicado ao Vinho de Mar, envolvendo provas de degustação nos vários restaurantes da região, dividindo a mesa com o peixe das águas profundas da costa alentejana.

Carlos Silva, da Câmara de Sines, assume o interesse na aposta e quer levar muitos turistas à terra. "Perante esta promoção do vinho numa região onde ele está pouco promovido, é natural que as pessoas tenham curiosidade e venham cá. É algo inédito", refere, admitindo estar aqui aberta uma porta para que o Vinho de Mar ganhe notoriedade como sendo específico da costa alentejana. Apesar de estar enquadrado na Comissão Vitivinícola de Setúbal.

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