Videntes de Fátima serão os mais jovens santos da história da Igreja

A cura de uma criança brasileira foi considerada decisiva para a canonização de Francisco e Jacinta Marto. Em Aljustrel, a casa onde nasceram já é uma espécie de santuário

Na pequena aldeia de Aljustrel ainda moram sobrinhos-netos de Francisco e Jacinta Marto, os dois videntes de Fátima que em breve serão os mais jovens santos da Igreja Católica. A notícia de que o papa Francisco considerou válido o milagre que conduz à sua canonização foi recebida sem surpresa nem entusiasmo acrescido numa terra que há 100 anos vive dos dividendos das visões das crianças. E que pelo menos há 50 se habituou a ver venerar os mais ilustres filhos do casal Manuel Pedro Marto e Olímpia de Jesus Santos, a par de Lúcia de Jesus, a prima mais velha.

"É uma enorme satisfação, mas não foi uma surpresa", admitiu o Bispo de Leiria-Fátima, D. António Marto, em conferência de imprensa, poucas horas depois de ter sido contactado pela Rádio Vaticano, para uma declaração sobre a boa-nova. Pouco depois, um SMS do chefe de gabinete oficializava a informação da Santa Sé: o Papa Francisco acabara de validar o milagre da cura de uma criança, no Brasil, atribuindo-a aos beatos Francisco e Jacinta Marto.

Sobre isso, porém, a Igreja continua a fechar-se. A irmã Ângela Coelho, postuladora desta causa, deixou claro que o novo regulamento - promulgado pela Congregação das Causas dos Santos, em 2016 - "refere explicitamente que, quer ao autor da causa, quer ao postulador, não é permitido dar pormenores sobre a cura obtida por interceção de Francisco e Jacinta, sobretudo neste caso, porque envolve uma criança, que é preciso proteger".

O processo do milagre começou a ser estudado em 2013. Era preciso aguardar "a evolução do facto, para comprovar que não há sintomas da doença. Foi a comissão científica que aprovou o primeiro passo", disse Ângela Coelho, que acompanhou o bispo de Leiria e o reitor do Santuário de Fátima no encontro com os jornalistas.

Beatos desde 2000

Francisco e Jacinta foram beatificados a 13 de maio de 2000, pelo papa João Paulo II, durante a última visita que fez a Fátima. De então para cá aguardava-se que o desfecho do processo conduzisse à canonização. "São os mais jovens santos na história da Igreja", sublinha a postuladora.

Francisco faleceu com 10 anos de idade e Jacinta com apenas nove. Os relatos históricos destacam que, na sequência das aparições, os dois irmãos foram influenciados porque "terão visto o inferno" durante a terceira aparição (em Julho de 1917). As três crianças (mas particularmente Jacinta) praticavam mortificações e penitências. É possível que prolongados jejuns os tenham enfraquecido, ao ponto de terem sucumbido à epidemia gerada pela pneumónica que assolou a Europa em 1918, na sequência da Primeira Guerra Mundial. Francisco morreu em casa, em 1919, e Jacinta, que sofria de pleurisia e não podia ser anestesiada devido à má condição do seu coração, foi assistida em vários hospitais, e acabou por falecer a 20 de fevereiro de 1920, no Hospital de Dona Estefânia, em Lisboa. Do total de nove irmãos, cinco faleceram nessa época. Depois da morte dos pais e dos quatro rapazes sobreviventes (o último em 2003) a casa da família tornou-se numa espécie de santuário na aldeia de Aljustrel, dominada pelo comércio de artigos religiosos à beira da estrada.

À entrada da pequena moradia térrea, uma ampla sala guarda as arcas onde eram armazenados os cereais. Nos dois quartos estão as camas que serviram de leito na doença dos irmãos, bem como diversos objetos da época. Todos os dias as casas de Francisco e Jacinta, bem como a da prima Lúcia, são visitadas por muitos turistas e peregrinos. No ano passado um total de 996 mil pessoas passaram por lá, esperando-se um aumento, na sequência da canonização. Note-se que só em 2010 o Santuário de Fátima tomou posse definitiva das residências, que adquirira à família Marto em 1994. Durante anos, os descendentes não abdicaram de fazer o acolhimento dos visitantes. Ambas estão abertas todos os dias, ao longo de todo o ano.

"Eu tinha uma esperança que, durante o ano centenário, tivéssemos a canonização. Só fui apanhado de surpresa quanto à data", sublinhou D. António Marto, considerado o autor da causa, interposta há meio século pela diocese de Leiria-Fátima. "Além disso, os pastorinhos são originários da diocese", motivo que traz ao bispo redobrada satisfação. "Falta agora a etapa decisiva, que compete ao Santo Padre - escolher a data e o lugar da celebração da canonização", concluiu o prelado, que aguarda pelo consistório em que o Papa Francisco há de "comunicar isso em primeiro lugar ao senado do cardeais e através deles a toda a igreja", numa reunião marcada para 20 de Abril. Em Fátima, acredita-se que a canonização acontecerá cá, e não em Roma, como é usual.

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