Vasco Calado: "Há um agravamento do consumo do álcool nas mulheres"

Os padrões de consumo de álcool em Portugal não melhoraram com a nova lei. Na conferência Lisbon Addictions, que arrancou ontem, Vasco Gil Calado, investigador do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) falou ao DN das novas tendências

Os padrões de consumo de álcool em Portugal não melhoraram com a nova lei. Na conferência Lisbon Addictions, que arrancou ontem, Vasco Gil Calado, investigador do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) falou ao DN das novas tendências

O SICAD fez estudos em 2014 sobre a perceção da nova lei do álcool na população jovem e estudantil, que foram referidos aqui numa sessão pela sua colega Elsa Lavado. Ficou-se com a ideia de que há pouco conhecimento da lei entre os jovens e também pouca fiscalização aos retalhistas ou pontos de venda. Já têm novos indicadores ou ainda é assim?

Esses estudos não foram replicados. Porém, temos alguns indicadores positivos em relação aos jovens, nomeadamente do estudo do Dia da Defesa Nacional , que é feito aos jovens de 18 anos que vão aos centros militares e são inquiridos sobre a perceção da lei do álcool. Verificámos que nas últimas duas edições, em 2015 e 2016, houve um aumento das respostas dos jovens no sentido de estarem mais bem informados sobre a lei. Só é perguntada a idade mínima legal de consumo para as bebidas espirituosas, cerveja e vinho e eles souberam responder que era os 18. Mas para termos uma perspetiva mais aprofundada tínhamos de fazer um novo estudo no SICAD direcionado para esta população, o que ainda não aconteceu.

Que indicação tem sobre os atuais padrões de consumo dos jovens e dos adultos, quatro anos depois de a lei ter entrado em vigor?

Um estudo já deste ano sobre a população geral, levado a cabo pelo Professor Casimiro Balsa, da Universidade Nova de Lisboa, concluiu que a idade média do início de consumo de álcool passou dos 16 para os 18 anos e na população dos 15 aos 24 anos houve uma redução do consumo binge (consumo compulsivo periódico de bebidas), o que não se verificou em faixas etárias superiores. Pelo contrário, houve um agravamento do consumo de álcool nos adultos. Verifica-se em vários grupos etários de adultos, tanto nos mais velhos como nos que têm 35 a 45 anos. Mas nas mulheres ainda é mais grave. Houve um agravamento maior do consumo que nos homens.

Mas se há esse agravamento do consumo do álcool nas mulheres, estão a equacionar o desenvolvimento de campanhas públicas dirigidas ao público feminino?

Vai ser feito o novo plano de ação até 2020 e necessariamente estes dados terão de ser equacionados para ver em termos de intervenção o que pode ser feito.

Nota-se na Lisbon Addictions a preocupação com o consumo entre as mulheres grávidas. Como é esse consumo em Portugal?

É considerado um grupo prioritário e foi feita uma campanha após um estudo feito em 2015 pelo SICAD junto das mulheres grávidas que iam às consultas. Não há padrões elevados de consumo nas grávidas mas sabemos continuam a consumir álcool durante toda a a gravidez. Não está atestado a nível científico se o que faz mal é um copo, dois ou três por isso, em princípio, são padrões de consumo nocivos mas não alarmantes.

O que bebem hoje em dia os adultos portugueses?

É curioso porque o consumo da população jovem é muito diferente do da população adulta. No estudo "O Álcool, os Jovens e a Lei" constatámos que havia um padrão de consumo associado a determinados contextos. Não bebem diariamente. Na altura dos examessão capazes de não beber álcool e depois exageram nos consumos quando decorrem as festas académicas ou concertos e festivais de música. Havia algumas diferenças também entre as mulheres jovens, que tendiam a preferir as bebidas espiruituosas e a não gostar tanto de cerveja, ao contrário dos homens jovens. O vinho era o menos referido pelos mais novos. Nos adultos verificamos que continuam a ter o padrão de consumo mediterrânico, o vinho às refeições, sempre e numa base diária, e ocasionalmente a cerveja.

Mas esse consumo diário de vinho devia ser eliminado?

Depende do consumo. A literatutra científica evidencia que um copo de vinho à refeição não tem os mesmos danos do que beber dois ou três fora da refeição. Portugal até tem estado bem posicionado em relação a outros países. Esses hábitos mediterrânicos até acabam por ser protetores de outros comportamentos nocivos, como a embriaguez ou o binge drinking (consumo compulsivo).

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