Urnas, mortos e mau cheiro. "É altura de acabar com isso", avisou a Censura

O Portugal de 1967 era um país onde coronéis riscavam títulos, textos e fotografias dos jornais. A Censura queria limitar a dimensão de uma tragédia de que nunca se conheceu a verdadeira realidade. No terreno, os jornalistas também recebiam instruções sobre o que escrever. "Evita coisas macabras, que o coronel já telefonou." Os textos eram ditados ao telefone, as fotos iam de moto

A mensagem é curta e chega por telegrama: "Não falar no mau cheiro dos cadáveres." A 29 de novembro de 1967, as páginas dos jornais ainda se enchem de reportagens e notícias sobre as "chuvas diluvianas" da noite de 25 para 26 em Lisboa e nos arredores e a Censura aplica outras instruções aos jornais. "Inundações: os títulos não podem exceder a largura de 1/2 página e vão à CENSURA." O "Dr. Ornelas", capataz do lápis azul, avisa ainda a redação do Jornal de Notícias no mesmo telegrama: "Actividades beneméritas de estudantes - CORTAR." As maiúsculas gritam a ordem.

No Portugal cinzento da ditadura de Salazar, a tragédia tinha de ser limitada e amaciada. "É conveniente ir atenuando a história. Urnas e coisas semelhantes não adianta nada e é chocante. É altura de acabar com isso. É altura de pôr os títulos mais pequenos", escreve o "Tenente Teixeira", logo a 27 de novembro.

No terreno, um dos jornalistas do DN, António Valdemar, recebe instruções. "Não venhas com coisas macabras, evita coisas macabras, que o coronel já telefonou", indica-lhe o subchefe da redação, Sebastião Cardoso, referindo-se ao censor do Secretariado Nacional de Informação, responsável pela censura. Aos 80 anos, António Valdemar guia o DN pelas páginas do jornal daqueles dias e destapa as suas memórias.

Naquela noite de há 50 anos, António Valdemar tinha jantado com amigos e, no Cais do Sodré, telefona para João Coito, chefe da redação, a avisar de que já havia inundações. Chovia torrencialmente, recorda, e Coito responde-lhe: "Comece por aí. Siga até onde puder e diga pelo telefone em que local está."

O jornalista foi andando até Alcântara, descrevendo carros submersos, água a rasar as janelas de um elétrico, prédios alagados, pessoas em pânico. Estava longe de imaginar o que nos dias seguintes iria ver e noticiar. É enviado ainda nessa noite para Loures, acompanhado de um fotógrafo. Trabalhará com dois, nesses dias: Jaime Santos e Raul do Nascimento. As fotografias guardadas nos arquivos do DN quase nunca identificam os autores das imagens da tragédia. Os textos não saem assinados.

Nos dias seguintes, António Valdemar vai dando conta do que se passa nesse concelho, do Olival Basto até ao Cabeço de Montachique. Dorme no quartel dos bombeiros, dita os textos para a redação por telefone, "o Idálio Amaro recebia os textos por telefone", numa época em que telemóveis e computadores eram ficção. "Tínhamos que ir a sítios onde havia telefones", conta, em dias em que as comunicações estavam cortadas em muitos dos locais atingidos pela tragédia.

Os rolos com as fotografias chegam à redação graças à ajuda de agentes da então Polícia de Viação e Trânsito. "O subchefe Oliveira Nunes arranjava polícias que levavam os rolos das fotografias", recorda sem que a memória o atraiçoe nos nomes e factos.

António Valdemar relata a morte do médico e das duas filhas num carro soterrado pela lama e de como uma delas é encontrada com as mãos petrificadas a segurar um caderno de apontamentos escolares. Ou o relato do avô que vivia numa cave com duas netas e as viu morrer afogadas, sem conseguir valer-lhes. "E o cheiro? Não pode calcular", relembra, 50 anos depois.

As notícias repetem-se. "Ambiente de piedade e desolação na martirizada região de Loures", diz um dos títulos da página 9. "Este título não é meu, eu não escreveria "piedade". Isto é do Sebastião Cardoso, que era católico e monárquico", recorda o antigo repórter do DN. Num texto que regista queixas de bombeiros, autarcas e outras pessoas, que lamentam a falta de assistência, a Censura corta a eito aquilo que falava de "ausência de infra-estruturas e falta de apoio e segurança às populações".

Guilherme Esteves, 77 anos, bombeiro voluntário de Odivelas, ajudante de comando na altura, recorda ao DN que, "mesmo depois das cheias apareciam pessoas mortas, um dia um, no outro dia vai buscar outro". Mas o silêncio era obrigatório: "Só fomos autorizados a pôr no jornal 400 e tal pessoas mas morreram 600 e muito. Nós não podíamos dizer nem os jornais derivado à censura, Salazar não autorizava. O Salazar não gostava de expandir os acontecimentos, as desgraças."

No Diário de Lisboa, nesse dia, há três tiragens, todas "visadas pela Censura", como se lê na primeira página. O primeiro título desse dia do vespertino é "Chuva e Morte: mais de 200 vítimas"; o segundo altera os números falando "centenas de vítimas" e o terceiro é sobre a morte que atingiu uma aldeia ribatejana: "Só silêncio na aldeia das Quintas".

Outro vespertino vê nesses dias muitos dos seus títulos retalhados e cortados. O carimbo da Censura lá está, a atestar o lápis azul no Diário Popular: "Noite de tragédia na capital e arredores: mais de cem mortos devidos a enxurradas e desmoronamentos - Famílias sem lar, comunicações paralizadas" - tudo cortado; "Dramático amanhecer nas regiões devastadas pelo temporal" - corte total; "A chuva justifica tudo?" - cortado de alto a baixo; "Muitos mortos e desaparecidos em Alenquer - 104 vítimas da tragédia foram a enterrar nos cemitérios Vila Franca e Castanheira" - depois dos cortes, só se lerá: "Em Alenquer - 104 vítimas foram a enterrar Vila Franca e Castanheira".

Por esses dias, estudantes (e muitos da JUC-Juventude Universitária Católica) vão para o terreno ajudar no socorro (ver págs. anteriores). A Censura não gosta dessa generosidade e os coronéis riscam tudo. Do título "Nas regiões sinistradas de Odivelas e Loures - Estudantes contam histórias às crianças enquanto os pais recebem agasalhos e alimentos" não sobra nada. Outro título, "Solidariedade nacional - Juventude presente!", é cortado a metade. Desaparece a referência à juventude.

Num "Caderno de Reflexão", editado pelas direções gerais da JUC, escreve-se que os jornais omitiram, "com excepção da notícia do Diário de Lisboa", "distribuída no Norte", "referências à acção das AAEE [associações de estudantes] e da JUC de Lisboa na mobilização e coordenação dos esforços dos universitários". Esta "ausência" era "certamente provocada pelos condicionalismos que limitam a Imprensa".

Em julho passado, entrevistado no DN, depois da tragédia de Pedrógão Grande, o Presidente da República recordou as cheias de 1967 para estabelecer uma distinção entre o que se passou há 50 anos e a democracia. Marcelo Rebelo de Sousa, que também foi um dos estudantes que ajudou naquele tempo, notou que "ainda agora, quando se fala de alguns desses factos não se sabe o número total de vítimas, volvidos 50 anos; mas nós estamos em democracia, em democracia não há desaparecimento de vítimas, não há, como se contava de algumas ditaduras estrangeiras, aviões que lançam no mar corpos, não há enterrar corpos, isso não existe."

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