Universidade vende palácio classificado para sede dos ismaelitas

Atualmente funciona no imóvel, vendido por 12 milhões, a prestigiada Nova School of Business and Economics

Custou 12 milhões de euros em ajuste direto, justificado em Resolução do Conselho de Ministros por "excecional interesse público", e a sua reabilitação e adaptação, que serão entregues a arquitetos portugueses, deverá somar mais seis milhões à despesa do Imamat Ismaeli (Comunidade Ismaelita) com aquela que será a primeira sede mundial deste ramo do islão xiita. Construído na primeira década do século XX, o palácio conhecido ora pelo nome do homem que o mandou construir, Henrique de Mendonça, ora pelo do famoso arquiteto que o desenhou (Casa Ventura Terra) inclui um parque verde de três hectares e está classificado desde 1982, albergando atualmente uma parte da prestigiada Nova SBE (School of Business and Economics).

O valor da alienação, efetivada há duas semanas, vai todo para a Universidade Nova, proprietária do palácio desde 1990 e que até 2013, a crer numa reportagem publicada no Diário Económico, tencionava, apesar da mudança da Faculdade de Economia para o novo campus de Carcavelos, mantê-lo como "centro nevrálgico da Nova SBE". O então CEO da Formação Executiva, o libanês Nadim Habib, assumia-se "grande entusiasta do espaço", descrevendo-o como "um ambiente propício" e como um dos fatores de atratividade da escola que em 2014 surgiu em 28º no ranking das faculdades de economia europeias : "Aqui estou no centro de Lisboa [o palácio está na Avenida António Augusto de Aguiar, junto ao Corte Inglês] e ao mesmo tempo completamente isolado." O que levou a Universidade Nova a querer alienar esta sua jóia - por um valor menor que o publicitado no final de 2015, quando se falava de 13/14 milhões - e quando sairá definitivamente do espaço não foi possível averiguar, já que a respetiva reitoria decidiu não prestar ao DN qualquer esclarecimento sobre o assunto.

Também a Fundação Aga Khan, que representa a Comunidade Ismaili em Portugal e tem o nome do imam que dirige este ramo do xiismo, é vaga sobre o calendário em causa. Poderão vir a trabalhar na sede desta comunidade religiosa até 500, mas, adverte o assessor para a comunicação da Fundação, Miguel Guedes, "não estarão necessariamen-te todas naquele espaço físico." Quem será o arquiteto ou arquitetos portugueses - é princípio do Imamat utilizar o talento nacional e empresas dos países em que investe - a dirigir a reabilitação e renovação ainda não se sabe, ou não é ainda para se saber. Quanto ao parque, que será também recuperado, deverá manter o acesso público que até agora existia, mediante identificação na portaria. Do destino das obras de arte nele espalhadas, emprestadas pela vizinha Fundação Gulbenkian e que incluem esculturas de Rui Chafes, João Cutileiro e José Pedro Croft,não foi possível obter informações.

A Resolução de Conselho de Ministros refere os vários acordos e protocolos assinados desde 2005 pelo Estado português com a Comunidade Ismaelita, comprometendo-se esta, no mais recente, assinado em junho, a apoiar "ativamente os esforços da República Portuguesa para melhorar a qualidade de vida de todos aqueles que vivem em Portugal, nomeadamente através do desenvolvimento em Portugal de projetos de investigação de nível mundial naquela área [desenvolvimento científico e económico] e, em termos mais gerais, em matérias de interesse comum da República Portuguesa e do Imamat Ismaili." Este acordo confere a Aga Khan uma série de benefícios e regalias, incluindo isenção de imposto sobre rendimentos e património.

Encomendado por Henrique José Monteiro de Mendonça, que fizera fortuna com café em São Tomé e Princípe, ao arquiteto Ventura Terra em 1902 e inaugurado em 1909, ano em que recebeu o Prémio Valmor, o palácio e respetivo parque mantiveram-se na família do seu primeiro dono até aos anos 70, quando foi vendido a uma imobiliária. O edifício, cuja descrição inclui uma cúpula envidraçada no vestíbulo e uma escadaria monumental , assim como "uma sala de jantar, no piso térreo, completamente apainelada de madeiras exóticas, a denominada sala Luís XV, cujos tecto e paredes são decorados com espelhos e estuques neo-rococó", e trabalhos de escultura de João Pereira e de cerâmica de Bordalo Pinheiro, esteve para ser hotel mas, classificado como "imóvel de interesse público" passou para a posse da Universidade Nova de Lisboa há 26 anos. Foi posteriormente submetido a obras internas de adaptação, da autoria do arquiteto Manuel Tainha, entre 1990 e 1992.

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