Uma onda de cada vez para transformar as vidas de crianças e jovens em risco

Crianças e jovens que têm participado neste serviço de terapia têm entre 7 e 22 anos

Projeto Wave by Wave já influenciou vidas de muitos jovens, mas quer tornar-se uma presença constante na transformação e crescimento de quem tanto precisa de ajuda. E pretende estender a terapia a outros grupos vulneráveis

João tem 7 anos. Na praia de Carcavelos ficou sentado na toalha, recusou tirar a roupa, chorou, não participou nas atividades de grupo. Na segunda sessão começou a brincar com uma criança de idade idêntica. As sessões passaram e uma criança que vive numa casa de acolhimento que deveria ter deixado aos 6 anos, mas que dada a dificuldade em relacionar-se e como tinha vínculos fortes com os adultos daquela casa ficou a viver lá, com o surf abriu-se outro mundo a João. Do menino contrariado sentado na toalha passou a pegar na prancha sozinho e a correr para as ondas. João é nome fictício, mas a história é bem real e é uma das muitas de sucesso que o projeto Wave by Wave ajudou a concretizar. É o surf ao serviço da terapia para crianças e jovens em risco. Em pouco tempo já mudou vidas e agora os respon-sáveis querem ir mais além dos surfcamps esporádicos.

Ema Shaw Evangelista e José Ferreira são os rostos do Wave by Wave, mas que conta com muitos parceiros que contribuem de forma decisiva não só para o surfcamp que se realizou na Páscoa, por exemplo, mas que poderão ser a base para sessões que passem a realizar-se semanalmente a partir de final de setembro. É essa a expectativa da psicóloga e do vice-campeão nacional de surf e para isso trabalham para reunir todos os apoios e a base financeira sempre necessária para assegurar um projeto destes.

Em 2016, a cadeia de supermercados Lidl propôs que durante o verão crianças e jovens em risco tivessem a possibilidade de duas vezes por semana terem contacto com o surf, servindo o desporto como "desculpa" para serem ajudados e terem um diferente acompanhamento a nível de saúde mental. "De 25 de junho a 9 de setembro não tivemos uma única falta. Alguns dos jovens até vinham sozinhos, nem eram acompanhados pelos técnicos das instituições", salientou Ema Shaw Evangelista. Tanto a psicóloga como José Ferreira assistiram às mudanças comportamentais dos participantes e aproveitaram os parceiros de então para avançarem com um surfcamp idêntico na Páscoa, já sem a ligação à marca de supermercados.

"Nós importamos para a praia algumas das regras do que seria uma psicoterapia de grupo, uma intervenção de grupo tradicional, com uma constância da equipa, de horários, uma continuidade e previsibilidade na estrutura e o mesmo grupo de jovens em cada campo, do princípio ao fim", explicou ao DN Ema Shaw Evangelista. "Trabalhamos questões da comunicação, da não violência, da gestão de crises... Levamos os jovens para a praia e usamos o grupo como um promotor de saúde mental", acrescentou. O contacto com a natureza, ainda mais o mar, o surf como uma forma de terapia, acabam por ter uma influência positiva nos participantes, que através da modalidade partem numa viagem de autoconhecimento, de resiliência, de um desafio que o surf pode ser.

Jorge (nome fictício) é mais um exemplo de sucesso. Tem 15 anos e quando participou no surfcamp apresentava comportamentos suicidas. O surf mudou-lhe a vida e continua a praticar. Mais um exemplo de sucesso. Enquanto Ema Shaw Evangelista e José Ferreira mantêm o trabalho para criar a Associação Portuguesa de Surf Therapy e com o Wave by Wave prestes a integrar a Global Surf Therapy Network - que irá incluir associações de outros países com projetos idênticos -, tentam continuar a acompanhar os jovens que já participaram nos surfcamps. "Temos esse cuidado", contou José Ferreira.

O surfista teve o primeiro contacto com uma realidade bem diferente na África do Sul. Em Durban conheceu um homem que dava uma casa a crianças sem-abrigo, que nas ruas viviam dramas traumáticos. Não mais esqueceu e foi então que percebeu que havia uma outra forma de encarar o surf além da competição. Havia o lado social. Anos depois conheceu Ema Shaw Evangelista e admite que a sua vida também mudou. "Comecei a olhar para o que é realmente essencial na vida. Colocou em perspetiva aquilo que fazemos e aquilo que existe", confessou. Aos 25 anos, José Ferreira mantém-se dedicado à competição, mas o Wave by Wave tornou-se uma paixão. "A dimensão deste projeto é muito maior do que a competição", realçou.

De momento, a faixa etária varia entre os 7 e os 22 anos. Ema Shaw Evangelista destaca que o processo de escolha dos participantes não é fácil, mas que as casas de acolhimento têm sido uma grande ajuda. A psicóloga, coordenadora de uma casa de acolhimento, explicou que "pedem" as crianças/jovens "mais desorganizados", garantindo aos técnicos das instituições que têm capacidade para gerir qualquer situação que surja. Os instrutores de surf recebem formação apropriada e são acompanhados nas sessões por dois técnicos de saúde mental. Os surfcamps foram alvo de um estudo da Faculdade de Motricidade Humana que confirmou cientificamente como foram benéficos para os participantes.

Mas este projeto quer crescer ainda mais além de organizar semanalmente os surfcamps para os mais novos. Ema Shaw Evangelista fala no objetivo de estender a outras áreas, como mulheres vítimas de violência, refugiados e até a pessoas mais idosas. Também já começou a ser contactada sobre a possibilidade de formar equipas de outras zonas do país, de forma a que crianças de norte a sul possam ter acesso à experiência proporcionada na região de Lisboa.

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