Um Francisco Palha mágico ganha mano a mano a Rouxinol Jr.

Crónica de Miguel Ortega Cláudio sobre a corrida de Coruche, que aconteceu no domingo e em que foram protagonistas dois jovens valoes

A empresa De Caras, Tauromaquia montou no domingo passado um cartel altamente apelativo e competitivo. Chamou a Coruche dois jovens que querem ser alguém no mundo dos toiros, dois cavaleiros que têm triunfado com força e que não gostam, nem querem perder para ninguém. Com o ingrediente da emoção - seis toiros Palha -, trouxe ainda os Forcados de Lisboa e de Coruche. Resultado, um entradão de público. Quando o elenco é bom, quando há diferença e as coisas não são aquela chatice de mais-do-mesmo, o público, aficionado e não aficionado, vai à bilheteira... No domingo houve toiros, toureiros de grande coração e forcados de um valor desmedido. Houve raça e houve alma!

De excelente qualidade e seriedade foram os toiros da ganadaria Palha. Imponentes, agressivos, transmitiram, impuseram verdade, emoção e suspiros nas bancadas. O segundo foi um toiro fantástico e bravo, que dava pelo nome de Pillino; O terceiro foi outro grande toiro, nobre e com classe; O quinto Fuzilito teve classe, codícia, nobreza e bravura; O sexto (sobrero, por se ter inutilizado o sexto da ordem) foi um toiro que humilhou pouco, mas teve muita mobilidade. Mansote e difícil, mas a transmitir, foi o primeiro; Manso, difícil e perigoso foi o quarto.

Francisco Palha vai no caminho certo e aponta, de tarde em tarde, a um futuro auspicioso. Caminha a passos largos e com uma espantosa serenidade para a glória, que não tenho dúvidas que alcançará brevemente - pelo mérito, pela bravura do toureio. Em Coruche, o público saiu da praça a falar dele e do seu grande triunfo.

Começou meio desconfiado com o primeiro toiro de Palha, que se adiantava barbaridades e nos compridos apenas cumpriu. Nos curtos encastou-se, mostrou raça, toureiro de alma, cravando dois bons ferros que chegaram com força às bancadas, terceiro e quarto.

No terceiro da corrida, Francisco Palha cravou ferros de um incrível impacto, levantando o público das bancadas. Esteve magistral e pôs Coruche de pé! Abriu a lide com uma magnífica sorte de gaiola, que conquistou tudo e todos. De ferro em ferro, de sorte em sorte, elegendo terrenos de compromisso, cravando com emoção e verdade, de frente, arrepiando. Grande lide!

Lide fantástica no seu terceiro toiro, quinto da ordem, abrindo o livro, bordando o toureio, com o valor acrescido de ter um bravo Palha por diante. Fez parar corações com os curtos de praça a praça, o último foi uma coisa do outro mundo! Fazendo parecer o difícil fácil, empolgando, galvanizando, chegando às bancadas com um sorriso simples e tranquilo. Grande tarde e triunfo de Francisco Palha em Coruche.

Luís Rouxinol Jr., moralizado, confiante, bem montado e seguro, deu mais um grito importante de alerta no primeiro do seu lote, galvanizando o público com uma lide consistente e emotiva, sobretudo nos ferros curtos, com destaque para o segundo e terceiro, que cravou em terrenos de compromisso e vencendo o piton contrário, entrando pelo toiro dentro com a ousadia e a verdade dos toureiros sérios e de risco, na brega esteve soberbo. E tudo isto diante de um toiro Palha bravo, a exigir, a impor respeito e a pedir contas.

Rouxinol Jr. alternou momentos bons, com outros piores, na lide ao quarto toiro da corrida. Marcada por alguma irregularidade, as coisas não lhe correram totalmente de feição nesse toiro. Áspero, duro, de arreões e a cortar terreno e que fez Rouxinol passar um mau bocado.

No sexto da ordem, Luís Rouxinol não quis que o êxito maior da tarde se ficasse pela magia de Francisco Palha e encastou-se que nem um leão, puxando dos seus galões e alcançando um triunfo notável e de contornos importantes. É um grande Toureiro. Porfiou, com denotada entrega, alcançando o que queria e o público exigia, diante de um toiro que não permitia deslizes. Lide brilhante, ousada, de grande verdade e muita maestria, que rematou, com um grande par de bandarilhas e um palmo. Toureiro de alma e raça e que não gosta de perder nem a feijões.

Os Forcados Amadores de Lisboa e Coruche foram protagonistas de uma tarde de muito valor, competição e emoção! Em disputa estava o troféu "Carlos Galamba", para a melhor ajuda da tarde, sendo o Júri constituído pelo próprio Carlos Galamba, José Fernando Potier e Tiago Prestes. Ganhou o forcado João Laranjinho, numa ajuda ao sexto toiro da corrida.

Abriu praça João Galamba, que se retirava das arenas pelos Amadores de Lisboa. À quarta tentativa executou com estoicismo a pega ao primeiro toiro da corrida. Duarte Mira, com o usual brilhantismo, arte e valor, também com apurada técnica, ao segundo intento. João Varandas consumou à primeira a quinta pega da tarde, com o grupo a ajudar eficientemente. Esteve muito bem diante do toiro e fechou-se para não mais sair.

Por Coruche, abriu a tarde José Macedo Tomás, tecnicamente perfeito à primeira tentativa. Fábio Casinhas esteve enorme à primeira tentativa! Pega que levantou a praça, foi outro grande momento da tarde de ontem em Coruche. Enorme, verdadeiramente colossal, um monumento à arte de pegar toiros, a atuação de João Ferreira. Violentamente derrotado na primeira tentativa, depois de ter estado, como sempre, enorme a recuar e a mandar na investida com arte, consumou um pegão à segunda, aguentando uma enormidade de derrotes, sem jamais sair. O público levantou-se e tributou-lhe calorosas ovações.

Dirigiu a corrida João Cantinho, assessorado pelo médico veterinário José Luís Cruz.

Síntese da corrida:

Ganadaria: Toiros da ganadaria Palha, bem apresentados, encastados e bravos no geral, com destaque para o segundo, terceiro e quinto da corrida.

Cavaleiros: Francisco Palha (Volta, Volta e Volta); Luís Rouxinol (Volta, Palmas e Volta)

Forcados: Amadores de Lisboa - João Galamba (Volta); Duarte Mira (Volta); João Varandas (Volta); Amadores de Coruche - José Macedo Tomás (Volta); Fábio Casinhas (Volta com chamada aos médios); João Ferreira (Volta).

*As voltas à arena no final das lides são concedidas pelo diretor de corrida como prémio à qualidade da performance artística dos intervenientes ou pela bravura dos toiros.

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