É preciso relançar a questão dos soldados "abandonados" em Angola

Isidro Esteves, sargento paraquedista, criou um "álbum" no Facebook com as fotos das "quase 300 campas" de soldados portugueses que se mantêm no talhão militar do antigo Cemitério Novo

A trasladação para Portugal dos restos mortais do soldado paraquedista António Silva, morto em 1963 em Angola, deve relançar a questão do regresso dos militares sepultados em solo angolano, disse à Lusa Isidro Esteves.

Sargento paraquedista na reserva, Isidro Esteves construiu, na sua página no Facebook, um "álbum" com as fotos das "quase 300 campas" de soldados portugueses que se mantêm no talhão militar do antigo Cemitério Novo, atualmente Santana, situado na estrada de Catete, em Luanda, fotografadas a seu pedido por um amigo, em 2012.

A trasladação dos restos mortais de António da Conceição Lopes da Silva, "caído em combate no dia 03 de outubro de 1963", em Úcua (no município do Dande, na província do Bengo), ocorrida na semana passada e cujas cerimónias de homenagem e enterramento na sua terra natal decorrerão na quarta-feira, foi o pretexto para Isidro Moreira Esteves "voltar a chamar a atenção" para o "abandono" destes antigos combatentes.

"No caso de Moçambique e da Guiné, o assunto já está resolvido, mas, no caso de Angola, o Governo daquele país não tem sido recetivo e os nossos mortos estão literalmente abandonados. Aquilo está tudo vandalizado", disse à Lusa, lamentando que as diligências da Liga dos Combatentes não sejam acompanhadas pelos "esforços" que seriam de esperar da parte do Governo português.

Isidro Esteves, cujo "álbum" foi decisivo na determinação de Ernestina Silva, filha de António Silva, de não desistir enquanto não conseguisse fazer o funeral do pai na sua terra natal, disse à Lusa que lhe "dói" não só o abandono a que os antigos combatentes em Angola foram votados mas também "o grande silêncio" em torno deste tema.

Empenhado em conseguir o regresso dos restantes quatro paraquedistas cujas campas foram identificadas nas fotos, Isidro Esteves compreende, mas lamenta, que, ao contrário de Ernestina Silva, muitas famílias prefiram "não mexer" no assunto.

A sua esperança é que, com o caso de António Silva, o processo "não pare" e surjam outros familiares a exigir o regresso dos restos mortais daqueles soldados.

Também Ernestina Silva acredita que o caso do seu pai pode ser um começo e que outras famílias apareçam agora a reclamar a exumação e trasladação dos corpos.

"É triste morrerem pela Pátria e serem abandonados, sem ninguém a visitar, a colocar uma flor, como é da nossa cultura", disse à Lusa, sublinhando que, neste momento, sente "uma paz imensa".

Além da sepultura de António Silva, Isidro Esteves identificou a do soldado paraquedista António Manuel da Costa, caído em combate em 08 de maio de 1961, a do 1.º cabo Claudino de Almeida Cunha, também morto em combate, em 25 de agosto de 1961, e as dos soldados mortos em acidentes de viação Carlos Ângelo da Cruz Samorinha (em 04 de dezembro de 1963) e Jorge Mendes Pimentel (em 12 de Janeiro de 1967).

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Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.