Stress no trabalho aumenta o risco de morte prematura em homens com diabetes ou doenças cardíacas

Estudo abrangeu 100 mil pessoas em quatro países. Após 14 anos de investigação, concluiu-se que em homens com doenças cardíacas, diabetes ou que tenham sofrido um AVC, o stress no trabalho aumenta o risco de morte prematura. Especialistas portugueses alertam para necessidade de empresas investirem na gestão da pressão sentida pelos trabalhadores

O stress no trabalho representa um aumento no risco da morte prematura nos homens com doenças cardíacas e diabetes, segundo um estudo internacional que abrangeu mais de 100 mil pessoas e durou 14 anos .

Este é o resultado de um estudo publicado na revista cientifica britânica Lancet Diabetes and Endocrinology que acompanhou homens e mulheres com e sem doenças cardiometabólicas (que incluem doença cardíaca, AVC, e diabetes) na Finlândia, França, Suécia e Reino Unido.

No final da investigação, 3841 pessoas tinham, entretanto, morrido. A pressão laboral não teve, no entanto, impacto nas taxas de mortalidade das mulheres durante o estudo, que analisou duas formas de stress: tensão no trabalho e o desequilíbrio na relação esforço-recompensa.

Mesmo existindo um estilo de vida saudável, há um aumento de 68% de risco de morte prematura em homens com historial de doenças cardiometabólicas devido ao stress laboral.

A conclusão deste estudo não surpreende o endocrinologista Luís Gardete. No contacto diário com os doentes é bem visível o impacto que o stress laboral tem na evolução da diabetes, relata ao DN. "As pessoas ficam mais instáveis metabolicamente e também a nível psicológico. A hipertensão sobe com o stress. São fatores de risco que agravam o próprio estado da diabetes", conclui ex-presidente da Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal.

"Há muitos pedidos de ajuda", revela o médico endocrinologista Luís Gardete

Além da própria doença, que já em si causa elevado stress, a pressão e exigência contínua no local de trabalho "é sempre uma condição prejudicial". E dá como exemplo o caso de uma das suas pacientes, com diabetes tipo 1 ( doença afeta 30 a 40 mil portugueses, enquanto a diabetes tipo 2 mais de um milhão de pessoas). "Tem conflitos latentes com a chefia e torna-se difícil compensá-la. Umas vezes tem a glicemia alta e em outras alturas está baixa. Em muitas ocasiões, o stress faz com que tenha uma fraca adesão à terapêutica, o que é fundamental nas doenças crónicas", relata Luís Gardete.

Líderes das organizações, empresas ou instituições têm de ter em conta que estão a trabalhar com pessoas, que tal como todos nós, têm vidas além do trabalho

Não é de estranhar que o stress no trabalho seja, por isso, um tema abordado com frequência no contacto que Luís Gardete tem com os doentes. "Há muitos pedidos de ajuda nesse sentido", revela. São recorrentes os pedidos para passar baixas médicas, atestados a solicitar "mudanças de local e horário de trabalho", especifica o endocrinologista.

Esta é, no entanto, uma situação pouco comum para o cardiologista Carlos Aguiar, médico no Hospital de Santa Cruz, em Carnaxide . "É raro, mas às vezes sugerimos uma mudança nas condições de trabalho", afirma, ao mesmo tempo que recorda um caso que o levou a pegar no telefone e a falar com o responsável pela medicina no trabalho. "Era uma empresa grande e reagiu bem às novas condições de trabalho devido aos problemas cardíacos do meu doente", lembra.

O stress no local de trabalho não teve influência nas taxas de mortalidade das mulheres que participaram no estudo

Concluiu-se também na investigação que o stress no trabalho não teve qualquer impacto nas taxas de mortalidade das mulheres no decorrer do estudo. "Acreditamos que a diferença está, provavelmente, nos efeitos diretos do stress biológico", diz Andrew Steptoe, professor de Psicologia da British Heart Foundation na University College London e um dos principais autores do estudo, citado pelo The Guardian, referindo-se à produção de hormonas nas mulheres. De acordo com Mika Kivimaki, outro dos autores da investigação, "é consistente com o fato de que a arteriosclerose ser mais comum em homens em idade ativa do que em mulheres".

Ao DN, o médico Carlos Aguiar especifica: "Antes de a menopausa acontecer, por volta dos 50 anos, a mulher tem uma proteção adicional contra as doenças cardíacas, que é a proteção hormonal. As hormonas femininas atrasam a acumulação de colesterol nas paredes das artérias".

Um alerta para os líderes das organizações

O cardiologista realça que os "líderes das organizações, empresas ou instituições têm de ter em conta que estão a trabalhar com pessoas, que tal como todos as outras, têm vidas além do trabalho". "É importante entender a dimensão humana que o colaborador tem. Não é um robô, é uma pessoa com necessidades, sentimentos", sublinha o médico do Hospital de Santa Cruz.

"Não chega a própria doença que causa stress, há ainda os fatores externos, como o excesso e a pressão no trabalho", lamenta o endocrinologista Luís Gardete, que recomenda aos empresários uma maior "preocupação e diálogo" com os trabalhadores. "Tem que se investir nisso", considera. "Os empresários sabem que se tiverem trabalhadores satisfeitos há uma maior produtividade e qualidade no que é feito", acrescenta.

As conclusões deste estudo internacional deixam, precisamente, um alerta para a necessidade das empresas olharem com atenção para os seus colaboradores, sobretudo os homens com historial de doenças cardiometabólicas​​​​​, de modo a melhorarem a gestão do stress no local de trabalho. "Há pessoas particularmente em risco. As empresas têm de pensar sobre quem é especialmente vulnerável por causa das doenças e como isso pode ser gerido", avisa Andrew Steptoe.

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