Só mais fundos e mais investigação podem travar demências

Encontro sobre Alzheimer na Fundação Champalimaud apontou caminhos para tentar debelar "pandemia silenciosa"

Os custos sociais e económicos dos tratamentos e dos cuidados que têm de ser prestados aos doentes com demência e Alzheimer são 100 vezes superiores aos fundos que se investem em investigação nesta área. É assim nos Estados Unidos, mas a tendência é comum aos outros países, pelo que "é preciso alterar" esta situação.

Esta foi uma das mensagens centrais que o neurocientista Rui Costa deixou, em jeito de balanço, no encerramento da Alzheimer"s Global Summit Lisbon 2017, que ontem terminou na Fundação Champalimaud.

"Não há alternativa senão alterar esta situação e aplicar mais fundos na investigação nesta área, tanto na investigação básica como clínica", afirmou Rui Costa, que deixou ainda um desafio aos presentes. O de que, a partir desta conferência, em que foram apresentados novos estudos sobre os mecanismos e os processos da doença e sobre algumas abordagens experimentais em termos de tratamentos, sejam criadas novas colaborações científicas que permitam avançar mais depressa no conhecimento da doença e de novas terapias mais eficazes.

"Já foi anunciado que vai haver outra conferência destas em 2020 e o desafio é que todos trabalhemos agora para que nessa segunda conferência já possamos ter coisas mais concretas para dizer", afirmou o neurocientista.

A Fundação Champalimaud e a Fundação Rainha Sofia, de Espanha, que organizaram esta conferência sobre demências e Alzheimer em Lisboa, decidiram programar para 2020 uma nova cimeira internacional sobre Alzheimer. "Esperamos ter mais luz sobre a investigação que aqui foi apresentada", disse André Valente, da Fundação Champalimaud, no momento em que anunciou aos presentes a decisão das duas instituições.

Quanto a novas colaborações de trabalho, a partir desta primeira conferência, Rui Costa acredita que há múltiplos caminhos a explorar. "Há muitas hipóteses de trabalho", adiantou o neurocientista ao DN. Por exemplo, testar novas moléculas e verificar a sua eficácia, para identificar novos fatores genéticos de risco e de proteção da doença, ou avançar com ensaios pré-clínicos e clínicos de novas moléculas promissoras.

"Há vários compostos que impedem a agregação de algumas moléculas que estão envolvidas no processo de neurodegeneração. O que esperamos, é que os químicos possam colaborar com os biólogos e os médicos para verificarem se eles têm de facto benefícios para os doentes, impedindo que aquelas moléculas se acumulem no cérebro", adiantou Rui Costa.

Noutras frentes, há também novos caminhos a trilhar para se ganharem mais conhecimentos sobre os processos na origem da doença. Como referiu o neurocientista, "passámos a saber coisas novas sobre o papel do stress crónico, da inflamação e do sistema imunitário nos processos destas doenças e agora é preciso que as pessoas que estudam imunologia se juntem aos neurocientistas para se perceber como é que isso acontece".

Na área das terapias, além dos testes de novos compostos - e há resultados de ensaios clínicos que estão para sair nos próximos meses, até janeiro, e outros até 2020 -, há também indicações muito positivas que chegam das equipas que estão a usar a estimulação cerebral profunda, com a implantação de elétrodos numa ponto do cérebro chamado fórnix, que integra o circuito cerebral complexo que está envolvido na memória.

Os resultados desta terapia, que é ainda muito experimental, foram apresentados ontem na Fundação Champalimaud por Andrés Lozano, da Universidade de Toronto, no Canadá, e são muito promissores. Mostram que após um ano de estimulação com um elétrodo, o metabolismo da glucose que havia cessado em algumas zonas do cérebro dos doentes de Alzheimer é reativado, e as zonas cerebrais afetadas apresentam igualmente uma reativação, o que são bons indicadores para novos ensaios clínicos mais complexos, e para tornar mais eficaz esta abordagem terapêutica.

A memória, o passado e o futuro

O neurocientista António Damásio, que em colaboração a mulher, Hanna Damásio, também ela neurocientista, foi um dos pioneiros dos estudos sobre os circuitos neuronais da memória, nos anos de 1980, explicou na sua conferência, no âmbito da Alzheimer"s Global Summit Lisbon 2017, os diferentes tipos de memória e a forma como eles puderam ser identificados a partir de casos de pessoas com lesões cerebrais.

Assim, os circuitos neuronais que processam e armazenam os eventos não são os mesmos onde guardamos as memórias semânticas ou as memórias motoras, e este conhecimento acaba por ser fundamental para se compreender melhor o que acontece à memória nas demências.

A memória e os seus circuitos neuronais são uma realidade muito complexa. Quando se reativa a memória de alguém, por exemplo, e é desencadeada na mente a visualização dessa pessoa, o córtex visual também é ativado, tal como no momento em que a pessoa foi vista na realidade.

A memória, disse António Damásio serve para recordar o passado e para lidar com o presente, mas não se fica por aí, porque ela é também essencial para podermos antecipar o futuro. Na sua perspetiva, o ser humano não é apenas o ser que lida com o que está acontecer em cada momento, tem sempre um passado e uma expectativa do futuro.

Sobre os doentes de Alzheimer, o neurocientista sublinhou que são pessoas capazes de continuar um processo de aprendizagem, adquirindo novos conhecimentos motores e práticos mesmo não conseguindo manter memórias. Isso, disse António Damásio, significa que "há várias coisas para explorar" nestes doentes, que "continuam a ter capacidade de aprender coisas".

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