Seca deixa povoações alentejanas sem água para beber

O verão ainda vai a meio, mas Mértola e Almodôvar já sentem na pele os efeitos da falta de chuva no último inverno. Várias povoações são abastecidas com autotanques

"O que se está a passar é alarmante e precisa de uma solução rápida", alerta o presidente da câmara de Mértola, Jorge Rosa, numa altura em que as pequenas povoações do concelho já dependem do abastecimento do autotanque para garantirem água para beber e matarem a sede ao gado. Tal como em Almodôvar, ali ao lado. Efeitos do terceiro ano consecutivo com pouca chuva, a que se juntou o verão mais quente dos últimos 86 anos, como revela o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), que prevê mais calor para agosto e um estio semelhante ao de 2010 ou 2003, que também se deverá fazer sentir por Trás-os-Montes.

Jorge Rosa já pede ao Governo que declare o estado de seca ou calamidade para Mértola, justificando que nos últimos três anos choveu pouco, deixando o concelho sem reservas de águas. "Os solos não fazem retenção e os lençóis freáticos são poucos para as necessidades", alerta, revelando que desde a primavera que a autarquia está a transportar água para consumo humano, mas também para abeberamento dos animais nas explorações agrícolas, como confirma ao DN o produtor José Castro.

"Já tive de ir à vila buscar água com um depósito no trator, porque a charca já não tinha nada. Secou tudo por aqui e isto começa a ficar muito grave, porque o gado bebe o triplo com este calor", diz, enquanto o autarca revela ter conhecimento de vários produtores que se estão a deslocar às freguesias mais próximas para não deixarem faltar água aos animais. "Alguns viajam 20 quilómetros. Veja o prejuízo que isso é", salienta, receando que se comece a assistir à morte de alguns animais à sede.

Preocupações partilhadas pelos vizinhos de Almodôvar Onde o bombeiros também têm andado em grande atividade para abastecer oito populações mais isoladas desde abril. "As reservas são quase nulas", testemunha o autarca António Bota, ao ver secos os furos que abasteciam as pequenas localidades. "O abastecimento às pessos já é quase e diário, mas prevemos mais dificuldades para quem tem gado e hortejos", admite o edil perante o anúncio de um agosto quente. "Em breve poderemos a estar a precisar de um apoio mais direto", diz.

E Pedro Viterbo, diretor da meteorologia e geofísica do IPMA, confirma a tendência de temperaturas elevadas para as próximas semanas. "É natural que haja regiões que necessitem de ser alimentadas com autotanques, como é frequente em Trás-os-Montes e Alentejo", refere, admitindo ser uma fatura do julho "especialmente quente nas temperaturas máximas", que traduzir um recorde face aos últimos 86 anos. "Houve mais evaporação", diz, comparando este verão aos de 2010 e 2003, quando arderam mais de 400 mil hectares no país. "Este ano tem corrido bem, porque andamos apenas pelos 7 mil hectares ardidos", resume.

Contactada pelo DN, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) diz que o abastecimento em Mértola depende das obras a cargo da empresa Águas Públicas do Alentejo para o abastecimento de água em alta, que vão começar este ano, enquanto em Almodôvar o problema será minimizado com recurso à proteção civil. A APA acrescenta que a Administração da Região Hidrográfica do Alentejo vai considerar prioritários e agilizar pedidos de licenciamento de pesquisa e de captação de água "associados a utilizações de água para diversos fins, com particular destaque para o abastecimento às populações e para o abeberamento de gado".

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