Se refugiado foi a palavra de 2015, então que acolhimento seja a deste ano

Apenas 220 pessoas das 160 mil foram recolocadas. Portugal espera mais refugiados em janeiro, ainda sem data certa

Refugiado: pessoa que abandonou o seu país para escapar à guerra, fome, condenação, perseguição e que encontrou refúgio noutro país. Foi esta a palavra do ano de 2015 eleita pelos portugueses. Um espelho das inúmeras imagens de milhares de pessoas a serem resgatadas do mar Egeu, das vidas perdidas durante a viagem, das famílias que não encontraram o lugar prometido na Europa. Dos 160 mil refugiados que deveriam ter recolocados, apenas 220 o foram.

A palavra refugiado colheu 31% dos votos dos mais de 20 mil cibernautas portugueses que participaram em dezembro na iniciativa do grupo Porto Editora. Em terceiro lugar ficou acolhimento. Para Teresa Tito Morais, presidente do Conselho Português para os Refugiados, e Rui Marques, responsável pela Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR) é acolhimento que deve ser a palavra deste ano. Para que se passe finalmente da vontade à prática.

"É muito justo que o problema dos refugiados tenha sido o referido como o mais relevante de 2015. Considero que 2016 vai ser também um ano com muitos refugiados a chegar à Europa, que se vai confrontar - se não forem tomadas medidas mais consequentes e diretas para encontrar soluções - novamente com vidas perdidas. Urge que os países da União Europeia cheguem a acordo. Acolhimento e integração devem ser as palavras de 2016", diz Teresa Tito Morais, presidente do CPR, que destaca a importância de uma política solidária de acolhimento, soluções diplomáticas nas zonas de conflito e a criação de corredores humanitários para garantir a chegada em segurança.

Portugal recebeu 24 refugiados, que "estão a adaptar-se bem". Esperam-se muitos mais, até 4560 em dois anos, e que os próximo aterrem em Portugal ainda este mês. Mas ainda sem datas marcadas. Uma demora semelhante à de outros países: dos 160 mil refugiados que as instituições europeias se comprometeram a recolocar, apenas 220 pessoas receberam essa resposta. "Da vontade à prática, é lamentável que assim seja, passa-se qualquer coisa que a engrenagem emperra. Não é visível o porquê. A explicação que podemos arranjar é que os centros de receção na Grécia e Itália não estejam a funcionar com a rapidez necessárias e que muitos refugiados procurem vias que considerem mais rápidas", aponta.

Rui Marques, responsável da PAR, saúda a escolha da palavra refugiado. Mas quer que atravesse fronteiras e calendário, que se junte a outra tão ou mais relevante que é acolhimento: "É importante que seja também a palavra de 2016, que chegue aos decisores políticos europeus e que acima de tudo que passe a ser conjugada com acolhimento para que se passe à ação".

"Não podemos ficar só na constatação do problema, é preciso acolher. Não tem sido difícil do lado português, cujos recursos foram de imediato mobilizados, mas tem sido difícil do lado das instituições europeias que estão a fazer a recolocação a um ritmo muito lento. Há um nível de burocracia e uma falta de vontade dos Estados Membros em resolver o problema. É inaceitável e um sinal muito negativo", aponta.

A continuar assim, afirma Rui Marques, há o risco de o problema se tornar cada vez mais grave. "Aumenta o medo pela incompreensão política e o desespero dos refugiados que não têm condições de segurança e de estabilidade", alerta o responsável, que diz que Portugal "tem 3 mil lugares imediatamente disponíveis para receber refugiados". O apoio é também feito à distância: neste momento decorre uma campanha PAR - Linha da Frente para angariarem 200 mil euros para enviar para o Líbano.

Ontem a Dinamarca anunciou a reposição dos controlos na fronteira com a Alemanha, horas depois de a Suécia ter feito o mesmo. "Estamos simplesmente a reagir à decisão da Suécia", disse o primeiro-ministro dinamarquês Lars Lokke Rasmussen. A reposição temporária de controlos é permitida pelas regras do espaço Schengen. Também a Alemanha já tinha reposto controlos fronteiriços temporários, assim como a Áustria, França e Noruega, que não é membro da UE mas integra Schengen.

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