Recuperar tradições, com agulhas de tricot ou a martelo

Na Praça do Rossio ergue-se um trono de Santo António de 12 metros, nascido da ideia de uma ilustradora e do trabalho de centenas de pares de mãos, dos quatro aos 80 anos

O ano passado foi uma manta de 15 por 14 metros, este ano é um trono de Santo António com 12 metros de altura, agora instalado em plena Praça do Rossio. No edifício da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, na Rua da Prata, uma habitante da freguesia faz questão de vir dizer à "professora": "Está muito bonito. Tudo pára lá a ver".

A professora é Rute Reimão. Ilustradora de profissão, é ela que dá os ateliers de artes plásticas que vieram dar origem à manta de retalhos e ao trono de Santo António. Depois de várias exposições com os trabalhos feitos nas "aulas", no ano passado achou que era altura de partir para algo maior que implicasse o trabalho conjunto de todos - miúdos e graúdos. Resultado: os dois trabalhos foram feitos por várias centenas de pares de mãos, dos quatro aos 82 anos.

A ideia da manta nasceu de uma constatação: "Via as senhoras sempre a tricotar, algumas até foi difícil levá-las para a pintura... Lembrei-me da manta de retalhos. Temos essa tradição, tínhamos esse conhecimento, as crianças podiam usar a pintura aliada ao têxtil", lembra ao DN. Depois, foram dois meses a reunir quadrados tricotados e pintados, que acabaram numa manta de 15 metros que ocupou toda a parede exterior da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior. Com um percalço final, lembra a professora: "A manta foi montada na noite de dois para três de junho [de 2015], para ser inaugurada a quatro. Nessa noite, às quatro da manhã ligaram-me a dizer que a manta não cabia na "moldura". E não esticava. Tivemos que descoser no meio e fazer mais duas fileiras na manta. Pintámos, secámos [os retalhos]. Alguns foram secos dentro de micro-ondas, com secadores... Montámos outra vez tudo e no dia quatro estava a ser inaugurada". "Eu digo que sou louca e que elas são piores que eu", ri-se .
O entusiasmo dos mais velhos - ou, numa versão mais correcta, das mais velhas- transbordou para o trono de Santo António: "O ano passado andavam de agulhas de tricot na mão, este ano andaram de martelo e pistolas de cola quente".

Da base ao topo do Santo António que está na Praça do Rossio, quase tudo é de produção própria. Os azulejos foram pintados à mão. Os vasos mais pequenos foram decorados pelas crianças, as flores feitas a partir de garrafas de plástico. Os vasos grandes ficaram por conta dos mais velhos, assim como a cobertura de azulejos, os manjericos, as vestes do santo e do menino. No total, conta Rute Reimão, participaram no projeto cerca de 50 pessoas, entre os mais velhos, e mais de duas centenas de crianças.

Como no caso da manta de retalhos, a ilustradora de 44 anos evoca a tradição para justificar a escolha de um trono de Santo António. "Ainda apanhei um ano na escola primária, foi uma tradição que se perdeu. Fazia todo o sentido fazermos um trono". É "feitio": "Gosto das coisas com peso histórico. No meu trabalho só uso papéis antigos. Vou buscar tudo o que é material antigo", diz ao DN. A ilustradora admite que há na peça de 12 metros um lado "kitsch", mas faz parte: "Procurámos que fosse tradicional, como se faziam antes, é a nossa tradição em ponto grande. São as nossas raízes, não as podemos negar." E a "reação das pessoas é muito positiva". A começar pelas artesãs: "Quando viram o trabalho final choraram".

Depois de anos a trabalhar em escolas, a fazer ateliers de ilustração, foi uma estreia trabalhar com seniores. "Nunca tinha trabalhado com pessoas mais velhas. Foi uma feliz descoberta trabalhar com esta faixa etária". Num género particular, não é por acaso que Rute Reimão fala quase sempre no feminino. A maioria dos frequentadores dos ateliers - e, por decorrência, dos participantes nos projetos - são mulheres. Há três homens no total.

"Deve ser a coisa mais fotografada em Lisboa por estes dias", diz o presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, Miguel Coelho, perante os turistas na Praça do Rossio. O autarca sublinha o "trabalho intergeracional" das duas iniciativas, e o "sentimento de pertença e autoestima" que estas iniciativas promovem. "Temos o maior trono de Santo António do mundo", sublinha. E o Guinness há de vir para comprovar: "Vêm cá e vão avaliar."

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